Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Absolver

Chama-se sexo
a uma parte do corpo
como se todo o corpo
as mãos os pés a cabeça
não fossem também sexo
o pénis a vagina
os testículos as maminhas
são frágeis
vulneráveis
estão expostos
à crueldade
são flores
ou musgos
posso estar nua e ser casta
não tenho nada de freira viciosa
e devassa
com toda a minha atenção
toco-te
dou-te os meus sentidos
os meus sentimentos
sinto muito
ter estado muito contigo
é uma coisa boa
que melhora o mundo
que o embeleza
agradeço ter-te encontrado
e ter feito o que fiz contigo
com a cabeça nas mãos
e os olhos cheios de lágrimas
sonho contigo comigo
Adília Lopes in Caras Baratas.
Ilustração: Vasco Barreto.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Arte

Vejo a arte definida
na forma de descrever
o bem ou o mal que a vida
nos faz gozar ou sofrer.

Um poeta de verdade,
se se souber compreender,
não deve de ter vaidade
de o ser, porque o é sem qu'rer.

Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
ver as coisas mais além
do que alcança a nossa vista!

A arte é força imanente,
não se ensina, não se aprende,
não se compra, não se vende,
nasce e morre com a gente.

A arte é dom de quem cria;
portanto não é artista
aquele que só copia
as coisas que tem à vista.

A arte em nós se revela
sempre de forma diferente:
cai no papel ou na tela
conforme o artista sente.

António Aleixo in Este Livro Que Vos Deixo...
Desenho: Vasco Barreto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Sombra

Demorou tanto
a chegar ao tanque da fraga
que eu cresci e fiquei
do tamanho do milho.
Mas quando vem
pelos espelhos da tarde
deitar-se nos ramos dos pinheiros
uma criança
nasce em mim.

Izidro Alves in Santo Ofício
Ilustração(esboço): Vasco Barreto

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Natal

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.

Miguel Torga in Poesia Completa
Ilustração: Vasco Barreto.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Trajes típicos portugueses Série nº3 - Desenho digital

Pescador da Nazaré


Chapéu e capote Alentejano


Ceifeira do Alentejo


Traje da Nazaré


Traje da Madeira


Traje de Vendedora de Água(Aguadeira) da Gândara

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A Corrida

Era já madrugada e nós seguíamos
quilómetro a quilómetro a corrida
era já madrugada e nós corríamos
com aquele que levava ao peito as quinas
era já madrugada e nós não víamos
o loiro Menelau e as belas crinas
dos imbatíveis cavalos do Atrida.
Era só Carlos Lopes que nós víamos
e com ele ganhámos a corrida
aquela madrugada e toda a vida.

Manuel Alegre in Nada está escrito
Ilustração: Vasco Barreto.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto...A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
- Pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

( E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente...).

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história d'Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói da novela
Que autor nenhum empregou...).

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça.

                              Paris, Setembro de 1915

Mário de Sá-Carneiro in Poemas
Ilustração: Vasco Barreto.