Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A MÚSICA SIM A MÚSICA...

A música, sim, a música…
Piano banal do outro andar…
A música em todo o caso, a música…
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor…
A música… Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal
Mas é música…

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música…
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música…
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música…!
Álvaro de Campos - "A MÚSICA SIM A MÚSICA..."

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

POETA CASTRADO NÃO!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
— é tão vulgar que nos cansa —
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
— a morte é branda e letal —
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
— Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
— Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Autor: Ary dos Santos

NATAL À BEIRA-RIO

 
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

Autor: David Mourão-Ferreira - "NATAL À BEIRA-RIO"

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Saudação a todos quantos querem ser felizes

Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia…
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Álvaro de Campos - "Saudação a todos quantos querem ser felizes"

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mais uma visita à Casa Roque Gameiro na Amadora

                                  Casa Roque Gameiro    
                                                 

Jardim

Fonte

Azulejos originais









                                     Exposição de Maria Monte









Exposição Colectiva de Aguarelas

Eduardo Abrantes



Carmen Pichel


E ainda os pintores: Marina Santos, Fernando Vidal, Susana Mourão, Henrique Faria, Marisa Noblejas,Piedade Pina, josé Mourão, Corceiro e Maria Soares.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ora aqui está como se deve apresentar uma reclamação....

Carta de Eça de Queiroz à Companhia das Águas - Reclamação

Ilus.e Exmo Senhor Carlos Pinto Coelho
digno director da Companhia das Águas e
digno membro do Partido Legitimista:
Dois factos igualmente graves e igualmente importantes, para mim, me levam a dirigir a V.Exª. estas humildes regras: o primeiro é a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças Carlistas sobre as tropas Republicanas, em Espanha; o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.
Abundam os Carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V.Exª., a responsabilidade da canalização e a do direito divino.
Se eu tiver fortuna de exacerbar até às lágrimas a justa comoção de V.Exº., que eu interponha o meu contador, Exmo Senhor, que eu interponha nas relações de sensibilidade  de V.Exª., com o Mundo externo; e que essas lágrimas benditas de industrial e de político caiam na minha banheira!
E, pago este tributo aos nossos afectos, falemos um pouco, se V.Exª. o permite, dos nossos contratos. Em virtude do meu escrito, devidamente firmado por V.Exª., e por mim, temos nós - um para com o outro- um certo número de direitos e encargos. Eu obriguei-me, para com V.Exª., a pagar a despesa de uma encanação, e aluguer de um contador e o preço da água que consumisse.
V.Exª.fornecia, eu pagava. Faltamos evidentemente, à fé deste contrato; eu, se não pagar, V.Exª se não fornecer.
Se eu não pagar, faz isto: corta-me a canalização.
Quando V.Exª não fornecer, o que hei-de fazer, Exmo Senhor? É evidente que para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso, no análogo àquele em que V.Exª. me cortaria a canalização, de cortar alguma coisa a V.Exª.
Oh!E hei-de cortar-lha!...
Eu não peço indemnizações pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água. Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos nem prejuízos...
Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável, perante o direito e a justiça distribuída: - quero cortar uma coisa a V.Exª.!
Rogo-lhe, Exmo Senhor, a especial fineza de me dizer, imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu posso cortar a V.Exª.
Tenho a honra de ser
de V.Exª. com muita consideração
e com algumas tesouras.
Eça de Queiroz

domingo, 12 de dezembro de 2010

Egoísmo...

(...)Egoístas duros,tiram dos outros o que lhes pode aproveitar, dos amigos o que lhes pode servir para a sua alma: incapazes de sofrer, de se dedicar, de viver a não ser para eles próprios. Quanto mais desenvolvem a sua personalidade, feliz e rica, menos aptos para sofrer a grande dor e mais prontos em sentirem piedade por tudo, pelos bichos,pela paisagem, por uma árvore que se esgalhe num fundo opalino, por um azul do céu que os enterneça, lágrimas nos olhos a uma palavra sentida, coração como uma pedra diante duma grande desgraça.

Autor - Raul Brandão