Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Manchado de sal, o silêncio escorre-me na cara.

Manchado de sal, o silêncio escorre-me na cara.
Os meus olhos tropeçam em raízes antigas
e movem-se-me, na memória, indecifráveis sinais:
marcas de nascimento, lugares e pessoas, gestos
e palavras.É madrugada. Os pássaros evitam
os voos rasantes, porque as últimas sombras
da noite lhes ferem as pupilas.

Graça Pires - "Uma certa forma de errância"

Segundo ( dos poemas da infância)

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
...Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!
Em toda a vila
se falou logo num caso de política;
o Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

Manuel da Fonseca - "Antologia poética"

domingo, 30 de janeiro de 2011

Jacinta com canções de Zeca Afonso

Desabafo

Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero terra e cinza,
Os blocos do abordar lá na doca esquecida,
E ao longe o rolo branco
Livre e amargo do mar
Que traz com água e indiferença
O cadáver e o frasco azul do adeus marinho.
Como as gaivotas levo a água e o ferro no bico:
Por isso passo e fico.
Naquilo que os outros vêem um vago talento e sorte,
Outros: «belas qualidades, mas purgativo, aquele magnésio…»
Levo coisas tão simples como o meu sonho e a minha morte:
O menino que eu fui, parado nos meus olhos,
O garoto que eu fui, e os sinos que rachei à pedra ainda a vibrar,
Minha mãe no que tenho de condescendente e feminino,
Meu pai na força e pressa do meu próprio coração.
Não espero amor nem glória de ninguém:
Espero a terra e a lisura
Da pá que ma estender,
Além da erva ou torrão de calcadura,
E os filhos velhos, graves
Com um bocado de pão, a minha memória e uma acha a arder
Tudo isso espero com a força e a determinação da esperança,
Com as lágrimas do fraco melodioso,
Mas, cheirando a esturro, a pulso,
Sozinho e perigoso,
Terei vestido e pão no mar e nos seus fundos
E nos peixes de cor as flâmulas de guerra;
Hei-de cravar o Sol no meu destino.
Dar a lua a roer aos que duvidaram de mim,
E transparente como as baías me verão,
Que, vendo-as mansas me verão a mim.
Mas, se acharem as baías bravas, que se aguentem!
Quando meu tio foi para Manaus, lá me aguentei!
Ah, baías salvadas e coléricas,
Açores de ronda ao vagalhão partido!
Morrer é bom quando se deixa
Algum pecado redimido.

Autor: Vitorino Nemésio
Desenho: Vasco Barreto.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.


Autor: David Mourão Ferreira

Contrato

Contrato
é acto contra acto
é compromisso
é dádiva não dada
nem vendida
é isso
que se troca em cada gesto
da mesma dimensão
Que o resto
é coração com asas de mitologia
Contrato
é
mão contra mão
na manhã fria
inventar o calor de duas mãos.

Luísa Ducla Soares

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Banda desenhada - Luis Louro desenhando Jim del Monaco

Tu já me arrumaste no armário dos restos

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

Isabel Meyrelles

E o amor?

    E o amor?
    O som amor...É preciso fazer a distinção entre amor e sentimento maternal, segurar. O que corresponde um pouco a uma etapa, a um momento de sobrevivência, até chegar o dia em que, tendo já passado pelo ventre de sua mãe, ele se torne Amor; para mim, o amor é a força que aquece aqueles que passam pelos teus domínios com o fim de lhes permitir atingir o estádio em que tu estás.
    Seja olhado com olhar terno: é a força, uma força.
    O mundo erótico é verdadeiramente estranho; e vejo que o meu corpo aí não está. É qualquer coisa de artificial, como se para atingir o orgasmo devesse ter imagens diante de si; é um instinto de morte, qualquer coisa de imaturo, como se houvesse necessidade de uma pena que passasse pelo corpo para poder; o campo do amor me vai formando como uma pessoa maternal; dantes, eu acariciava sem ter necessidade de acariciar, respondendo a um pedido; era alimentar um buraco. Estou convencida de que se um ser humano, sozinho, não pode ficar cheio, dificilmente também poderá passar a um outro plano. Se o tipo de pedido que te fazem é um pouco sádico, então nada podes fazer. As ideias...é na própria cabeça que se pensa. Senão é como pedir a uma criança que parta uma caixa já partida, e nada destrua. Na minha vida, só uma vez amei. Alguém que estava num espaço diferente, que era um espaço de energia.
     Então, a sedução desaparece.

Maria Gabriela Llansol - "O livro das comunidades"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Autor: Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Governos apostados em errar

   Entre nós tem-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar,
errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos
em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegámos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto,
cada bom acerto é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há ou se já não há, em Portugal, um Governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.


Eça de Queiroz (Últimas páginas) .

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fui ao mar buscar laranjas / que é cousa que lá não tem...(Cancioneiro popular açoriano)



[....]Perguntou então ao ouvido do marido, com o ar mais sério e mais compenetrado deste mundo, se havia assim tantos pomares de laranjas por ali. Ou seriam tangerinas? Manuel respondeu-lhe que não sabia. Nunca tinha dado por isso. Onde diabo fora ela buscar essa ideia de haver laranjas e tangerinas na ilha?
Ao mar, disse ela rindo, sorrindo e apertando um seio contra o braço dele. Se fosses um poeta, ias lá buscar laranjas para mim. Eu vejo-as no mar. Mas como não és um poeta, nem cego como eu, não podes ver os laranjais do mar. Eu sim.

Autor: João de Melo - "As coisas da alma"

Pedro Cortejosa Septeto - El Monstruo

Agora que morreste Mãe

Agora que morreste  Mãe
E só em mim te tenho
sou mais que o meu tamanho
porque sou tu também

Tuas mãos afagam minhas mãos
De quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
só contigo reparto o meu farnel

de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
que é a tua ausência nos meus dias
órfãos mas sempre ao colo desta mágoa

de não te ter de te ter sido esquiva
de não te ter nunca aberto as portas
do meu ser de nunca te ter dado vivas
o que hoje já só são carícias mortas

Teresa Rita Lopes

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As portas que batem nas casas que esperam.

As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.

 Maria Judite de Carvalho

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
                       a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde possamos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu


Autor: Al Berto ( Alberto Pidwell Tavares)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Os Cães

Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, ""está um trapo", uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer sómente, cães que somos
dez, vinte, chama-me "Niassa",
ou "Tejo", vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.

Fernando Assis Pacheco - "Catalabanza Quilolo e volta"

Afirmas que brigámos. Que foi grave.

Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.

 Rosa Lobato Faria

domingo, 16 de janeiro de 2011

Amanhecer

Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.

Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.


José Saramago in Os Poemas Possíveis

sábado, 15 de janeiro de 2011

António Loureiro

Eficácia

Os novos campos de extermínio
são servidos ao jantar
pelos canais noticiosos. A cólera
e a malária entre Goma e Munigi
acometem-nos na impotência e no remorso
da toalha, cientes que ficamos
da desidratação e dos dejectos
e da dificuldade de encontrar a veia
num moribundo. No sofá do nosso apartamento
passamos às posições dos sérvios
na Bósnia e lateja-nos nos ouvidos
o efeito da limpeza étnica,
ao som familiar e eficaz
da nossa máquina de lavar louça.

Autor: Inês Lourenço

Salário

Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.
Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!

Autor: Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Que os indiferentes ou os meus inimigos sejam moços, belos, ricos, que me importa? Mas que aqueles que vivem comigo sejam mais felizes do que eu, tenham mais talento, calquem a minha vaidade a todos os minutos e me venham contar, para eu me alegrar, os estúpidos! como são felizes, enraivece-me e faz-me sofrer. Quem odeio são os meus amigos - se triunfam....

Autor: Raul Brandão

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A importância do jornal

   Enquanto pela triste força dos factos, pela influência da tradição, pela obediência inerte dos espíritos, pelo adormecimento das consciências, pelo amedrontamento das almas, pelas predominâncias estéreis, pela força dos interesses pequenos, pelo afrouxamento dos sentimentos livres, pelo abaixamento moral, pela fraqueza, pela indolência, por tudo isto, os interesses deste território
forem desprezados, os desenvolvimentos impedidos, as livres consciências esmagadas, a acção abafada, as administrações descuradas, todos os elementos fecundos sufocados, um jornal que procure representar o direito, a justiça, a razão, o princípio, a consciência moral, não será por certo inútil. 

Autor: Eça de Queiroz

Vamos lá aquecer o ambiente...

Quarteto de Alexandre Diniz / José Menezes

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Réveillon

 As vozes. Os gestos. A passagem dos minutos, dos segundos. Lá
fora, o frio intransitável. O coração reduzido ao receio do sangue sem
diálogo ( o pacífico punhal na bainha). A música à beira do excesso.
   O ausente amantíssimo mas que não ousa o gesto decisivo. O vinho
fluindo, o olhar interior fixo no horizonte, a mais ninguém visível.
O rosto inebriado, sem lágrimas.
    À meia-noite as taças erguem-se até aos lábios sôfregos de esperança.
No instante que mais confina com o silêncio, tudo mergulha no primeiro
dia do eterno retorno.
    O ausente amantíssimo. E o outro, deste lado do oceano. Habitando
os dois a saudade, num coração solitário, à beira da explosão.
     Lá fora, as estrelas brilham menos. Alguém começa a antever ao longe,
muito ao longe, o cortejo da madrugada.

Autor: Alberto de Lacerda - Londres, 1 de Janeiro 1997

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Bem sei que tudo é natural


Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração…
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe que é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos)
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
Autor: Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mais que nebulosa menos que constelação

Sebastião José de Carvalho e Otelo
Che Guevara Otelo
Robin Otelo Hood
Fidel Otelo de Castro
Capital não Lido Otelo
Jorge Otelo Amado
Steinbeck Otelo
Otelo dos Passos
Vasco Otelo Gonçalves
Cavalo do Poder Otelo
Campo Otelo Pequeno
G-3 Otelo em Boas Mãos
      (Na mão de Deus, na sua mão direita...,
        Ai Antero, ai Otelo, uma G-3 negreja! )
Setecentos Mil Contos ( Arriba! Arriba! ) Otelo
Otelo Popular
Otelo Pòpoleiro

Enquanto isto, Kaultra ri-se e espera
e Otelo, antes da berma, está na berra.

Ah grande Otelo!

Autor: Alexandre O`Neill
        

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os Juízos ligeiros da imprensa

   Incontestavelmente, foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já irradicável hábito dos juízos ligeiros. Em todos os séculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns filósofos mais metódicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes, nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condenar em política o facto mais complexo, e onde entrem factores múltiplos que mais necessitem de análise, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo ondeante do charuto.
   O método do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adoptamos, com magnífica inconsciência, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplêndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: "É uma besta! É um maroto!"Para exclamar: "É um génio!" ou "É um santo!", oferecemos naturalmente mais resistência. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um fígado livre nos inclinam à benevolência risonha, também concedemos prontamente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa de louros ou a auréola de luz.

Eça de Queiroz

A uma rapariga

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...


Florbela Espanca

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Navegações VI

Navegavam sem o mapa que faziam

( Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços )

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

Sophia de Mello Breyner Andresen - " Mar"

Londres reencontrada

O passeio do outro lado da rua

Gente
Que não conhecerei nunca

Ninguém mais nesta mesa
De um café milenário .
Raras vezes
Terei estado menos só

A nave espacial chamada terra
Singra comigo tarde adiante

Tudo volve milenário
As pedras da rua
O cimento gasto do passeio
As recordações

Alberto de Lacerda - "O Pagem formidável dos indícios"

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Mamã preocupada

Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?

Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita

Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó

Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas

Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
Malangatana Valente Ngwenya - "Vinte e quatro poemas"

Se estamos já mortos, ou se estamos para morrer


  Quando me sinto ser senão olhos (que não tenho mais limites), sinto que sou eu, e morta; posso então olhar o meu corpo como qualquer coisa caída no chão. O que não me perturba. Posso olhar cada parte do meu corpo como se estivesse no seu exterior;  não me importo que o meu corpo se torne mineral; silício ou argila, todos os minerais (todas estas matérias) eram um pouco seres vivos onde existia uma cadeia de energia cósmica que passava. Tudo é extremamente simples, se for a mesma coisa. Nas ocasiões em que me sinto nada - a morte não é nada. Quando perco o mundo, aparece a terra.

Maria Gabriela Llansol - "O livro das Comunidades"

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Lição de rua lição de coisas

- Secretário Rodrigo,
sabe, sua alimária, o que lhe digo?

- ?

- Que é melhor não tirar
os olhos do umbigo!

- !

- E no umbigo, seu bípede, que há?

- ?

- Há um cotão interessante,
tão interessante ou mais
que o mundo circundante,
tão rotundo por cá!

- !

( Dos bolsos?
Não, meu amigo.
Este é cotão, mas...do umbigo! )

Alexandre O`Neill - "Poemas dispersos"

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ode para o futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado.Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres.Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárneo, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Jorge de Sena - Ode para o futuro