Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Assembleia

São duzentos e trinta. E o que fazem?
Legalmente são uma deputação
de sentados, gulosamente sentados.
Palradores sem intenção
eleita pelo povo, membros de partidos,
pensionistas da política
sem nenhuma profissão definida:
Economistas, gestores, advogados, juízes,
arquitectos, engenheiros, professores…
São duzentos e trinta; poderiam ser menos,
ninguém sentiria a diferença.
Como passam o tempo?
A falar alto.
Magos da ocultação
e sem terra à vista.
Ruminam, mastigam novamente, ruminam:
É esse o seu objectivo pleno e desconcertante.
A Pátria vem depois!

Vasco Barreto

Reunion Big Jazz Band

Descobrimento

Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados

Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios

O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 27 de fevereiro de 2011


à noite
chegam ecos de paz

a garganta adormecida
a língua quieta

um sono encantador solidifica
as veias

as flores dão cheiro
ao corpo.

a guardiã da noite está sentada
e sorridente
sinto o eco de mãos batendo
em satisfação,
as mãos e o tempo
anunciando
a entrada no templo.

à noite
um sangue coagulador invade
as veias

as flores morrem
sobre o corpo.

a garganta arrefecida
a língua quieta.

à noite
chegam ecos de passos
que não pisámos

o outro lado dos olhos

uma nova pele.

Autor: Ondjaki

Nada consta

Falta-me a folha cinco
E entretanto a barba foi crescendo
a minha barba veio crescendo ferozmente
indiferente à morte de um ou outro amigo
às letras protestadas aos desgostos domésticos
às viagens lunares às convenções às lutas
Quando as coisas se erguem contra o homem
se eriçam agressivas contra ele
nem ao poeta basta o parapeito das palavras
Eu por exemplo homem de pouco tempo
trazido pelos dias aqui estou
Continuo a dizer: se alguma coisa há
que podias perder e ainda não perdeste
de que já a perdeste podes estar certo
Falta-me a folha cinco
Estou com a barba feita
Ainda este ano talvez em marienbad
eu vi mulheres curtidas pelos lutos
Mal de morte é o meu
em plena posição de pé às três da tarde
em meio do movimento do rossio
sentado à tarde no cinema em dias de semana
Já caem carnes já se perdem pêlos
já quase só me resta a devoção
lisboa certos dias um amigo às vezes
Poucas coisas importantes pensei durante a vida
uma mesa de sol em pleno inverno
um mar incontroverso alguns papéis
 - continua a faltar-me a folha cinco -
pois apesar de tudo nada consta

Ruy Belo

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A música dos riachos

pergunto-me sempre
pela água
na sua comunicação
com os pássaros

espero pela música
dos riachos
e escuto os seus apelos
ao canto cristalino
das aves
distantes

é o suave riso
da natureza
escrevendo orações
na brisa soprando
por entre as suas penas
leves como beijos
na melodia
do seu trinado

contemplo tudo
à distância
e oculto o deslumbramento
com que guardo a nitidez
de todo o movimento
para rememorar
cada instante
nas tardes de nevoeiro
outra vez

José António Gonçalves

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Diálogos com Agostinho da Silva – Excertos do livro de Antónia de Sousa: O império acabou. E agora?


-Já de há muito os sociólogos alertam para a necessidade de educar as pessoas para uma sociedade de lazer!...
- Claro, para não morrerem! É uma questão de higiene. Porque se não se prepara gente, desde muito cedo, desde muito agora, para uma sociedade de lazer, ela vai aparecer violentamente. Já está aparecendo. De que sociedade são os desempregados, faça favor de me dizer? São da sociedade do trabalho? Eu não acho!
- Mas também não são da sociedade do lazer, porque o lazer pressupõe disponibilidade e contentamento, prazer.
- Claro! O que é o lazer?
- O lazer pressupõe prazer. Em princípio, uma pessoa que está desempregada não morre de prazer!
- Já vamos a isso! Nós até podemos dizer que uma sociedade de lazer é uma sociedade em que toda a gente está disponível. Podíamos chegar a essa definição. Qual é a coisa terrível desses primeiros homens que vêm mostrar o que é o lazer? É que eles não têm a base física de vida. Não recebem, não comem. Muito naturalmente, não comem, morrem. E, por outro lado, mesmo que comessem, eles não tinham nenhuma espécie ou quase de preparação para se lançarem a tarefas que verdadeiramente os apaixonassem, porque quando tiveram a possibilidade de alguma educação eles foram logo lançados na vida de trabalho. De maneira que, de repente, terem deixado de trabalhar traz para eles a ideia de que a vida lhes passou a não ter nenhuma espécie de significado, que é um desespero contínuo. O que torna essa massa extremamente explosiva. O que é que as pessoas julgam? Que os desempregados, sobretudo os jovens…
- Aliás, uma sociedade de lazer será explosiva, extremamente perturbadora, se as pessoas não estiverem preparadas para preencher esse lazer, não acha?
- Claro, é o que vai suceder. O que é que as pessoas julgam? Que os jovens vão aguentar não poderem realizar aquilo para que foram educados? Eles foram educados todos para trabalhar. De repente, chegam à idade de trabalhar e não trabalham. E não podem comer sem trabalhar. E não podem divertir-se, sequer, sem trabalhar. Então essa gente vai para um dos dois lados: ou vai para todas as espécies de anestesia que hoje se empregam no mundo, por exemplo a droga ou as boites e os pubs, são tudo anestesias, ou então eles se lançam para a violência, ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo e a sociedade não se vai aguentar! De maneira que, se eu fosse político (não tenho jeito nenhum para a política, de maneira que não me vejo com qualidades e tarefa de político), mas, se eu fosse político, o assunto a que eu dava maior importância e interesse era exactamente esse dos desempregados. Como é que, nas condições de hoje, com a economia que há hoje, eu posso alimentar os desempregados e, vamos empregar a palavra, posso diverti-los, posso entretê-los? Ninguém se importa nem com uma coisa nem outra.
- Mas, pelo contrário, neste momento está a dizer-se que o Estado-Providência falhou.
- Sim, parece que sim, que falhou.
- Se isso é verdade, não pode alimentá-los e muito menos diverti-los….
- Não pode diverti-los? Ah, podia, se não falhasse. Este surto enorme de desemprego é trazido porquê? Há desemprego porque a imaginação, o saber e a capacidade humana de inventar criou uma série de mecanismos, de recursos que permitem produzir o mesmo que se produzia com muito menos gente trabalhando. Então aparecia como um cálculo fácil reduzir o tempo de trabalho de cada homem. O tempo de trabalho durante o dia e o tempo de trabalho durante a vida.
- Só que não é assim. O que se fez foi aumentar os lucros do grande capital e melhorar alguma coisa as condições dos que podem ter acesso ao trabalho…
- Aí é que está. Quero dizer, resolveu-se que, para alguns continuarem no hábito de terem tudo o que queiram e, até, desperdiçar o que tenham, não se deixou que aquilo que se produz pudesse ser distribuído igualmente por todos os homens que têm a capacidade de consumir. Há aqui uma falha da sociedade. E, então, ou os homens conseguem, na política, no compromisso, no consenso – como se costuma dizer -, encontrar uma solução para isso ou estamos indo direitinhos em direcção à catástrofe mais violenta que jamais se deu na história...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
será absoluto
sacrifício
impassível sangue
árido prazer.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
guardará
uma grega ilusão
de sonho
e embriaguez.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
terá merecido
a dor, veloz,
insustentável
e imoderada.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
dir-nos-á
sois abandonados
cristos
na boca de deus.

Ana Marques Gastão

Adivinha

Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa

Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita

Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz

Quem é quem é coração

José Saramago in Os Poemas Possíveis

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Vagabundo

Das casas que ninguém construiu
me deram esta para morar:
ficou-me o céu como tecto
e o vento como lençóis...
Dos trapos que atiram fora
me permitiram um para eu vestir.
Das chuvas que caem do tecto do meu lar
me consentiram abafos para as quatro estações.
( Ah, se não fosse às vezes fazer sol...)
Das mulheres que ninguém quer
me negaram a última de todas,
a última de todas as mulheres!
E quando notaram que eu parecia um homem,
pois tinha
ouvidos para ouvir
e olhos para ver,
em todas as estradas do mundo
me gritaram:
- Mendigo, vai ver o fim das estradas todas do mundo!

Manuel da Fonseca

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mutilações

Escreve agora a música
que os muros trauteiam
como eu delapidei o meu tesouro.

Desenha agora a árvore
que rebentou por dentro.
Mostra agora o coração
com uma flecha no centro.

Vivi de brilho
e cuspi ouro pela boca.
Se ninguém me quis prender
foi porque não dei caça
não dei luta
nem falei em razão de força maior
nem sequer do futuro que me escuta.

Este livro custa a abrir
e aquela porta a fechar.
Desata agora a chorar
mesmo sem querer
mesmo sem sentir.
Chora por tudo
o que não está para vir.

Regina Guimarães

domingo, 20 de fevereiro de 2011

À beira deste mar

À beira deste mar
cheio de vento em todos os cabelos,
longe da guerra,
da ferrugem a crescer na pele,
do cancro,
da mutilação,
aqui
neste país pequeno,
com os nossos pequenos problemas
e o nosso grande amor,
rezamos
a um Deus difuso
pela criança que chora sobre
os pais despedaçados
no concerto macabro das bombas a cair.

Choramos
pelo futuro da criança
que ensurdece a todos os gestos de ternura.
A criança
que um dia deixará que o ódio galope
para dentro das guelras
e no seu peito
apenas veremos a boiar
o rosto de uma mãe sem rosto
apenas
uma pomba estrangulada
até ao infinito.

José Fanha

Hino à razão

Razão, irmã do Amor e da justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Antero de Quental
Desenho: Vasco Barreto.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvi-lo já.
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu.
Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


Mário Cesariny de Vasconcelos

Amor

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!
Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor tão cheio de Amor,
Que sensível és…
Sensível e violento, apaixonado.
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e se enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?


Irene Lisboa

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Respira. O oxigénio espera a tua esfera
de cor    o teu afago a tudo.
O oxigénio é meigo. Ele às vezes consegue
sair das folhas verdes sem ruído no escuro.

Como um ladrão que rouba o próprio sangue
e o leva ao inimigo   assim ele anda
á procura da casa onde se aqueça
vendo que em pedra e telha a traz consigo

Respira. O oxigénio espera o teu relógio
de luz    o teu sorriso claro.
O oxigénio é meigo. Ele às vezes constrói
Uma impossível casa à beira do teu lábio

Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Brasil Jazz Trio

Os degraus do tempo

Costumava sentar-me no degrau mais alto
e pela janela via as árvores balouçarem
no silêncio da casa, o silêncio
de ter estado ali há muito tempo
esperando que viesses como agora espero
que o tempo se desdobre na memória
que te guarda.
O mundo era infinito
e a minha existência estava no teu rosto
à espera de um gesto que a desenhasse
para que pudesses nascer todos os dias.

Sentados no degrau mais alto
escutávamos o rumor das árvores,
a folha de um choupo a cair na água
e os círculos minúsculos que se afastavam
até desaparecerem
no vocabulário das palavras curtas
rabiscadas no vidro da janela.

Era assim o mundo
na ignorância de que uma lágrima
se soma às vezes ao destino
e é suficiente para alterar o movimento da terra
e o sabor das letras pisadas
fermentando sozinhas na casa
enquanto o amanhã atravessa o umbral da porta
acima de todas as virtudes,
alimentando o vício de voltar atrás
e subir até ao degrau mais alto
para conceder o último desejo.

Rosa Alice Branco

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Praça da Figueira de manhã

A praça da Figueira de manhã, 
Quando o dia é de sol (como acontece 
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece, 
Embora seja uma memória vã. 
Há tanta coisa mais interessante 
Que aquele lugar lógico e plebeu,  
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu 
Porque o amo? Não importa. Adiante... 
Isto de sensações só vale a pena 
Se a gente se não põe a olhar para elas.   
Nenhuma delas em mim serena... 
De resto, nada em mim é certo e está 
De acordo comigo próprio.  As horas belas 
São as dos outros ou as que não há.
Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa).

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta

domingo, 13 de fevereiro de 2011

se escrevo, devo
algo às lembranças,
à balança interna
entornando adocicados barulhares.
na primavera, primo
por flores,
sabores, odores.
na rima me embalo,
sopro mel
e, apetecendo,
falo do que falo.
mas fá-lo-ei sempre?
sinto que devo
soprar o trevo
e ir sentando de manhã
à espera do sol
que acorda a rã
que emite o grito
que sempre alegra
um poucochito.

Autor: Ondjaki

Sexta-feira Sol dourado

Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente

Ruy Belo

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Desapareceu
Nos interstícios
da cidade imensa

A solidão cósmica
É muito simplesmente
Em certas noites frias de Janeiro
Uma paragem de autocarro

( Tinha-te imaginado nos meus braços
Até raiar o dia)

Desapareceste
No autocarro
Depois de um beijo fruste

Em vez de desaparecer
- Para onde? Para sempre? -
Vagabundeei
Pelas ruas de Chelsea
Que me conhecem de cor

Alberto de Lacerda - Chelsea, 2 Janeiro 97
Não sou daqui, pertenço a outras partes
que nada sacrificam aos escombros a memória.
Na solene esquadria desenham-se as entradas
a pedra e cal refeitas.
Correndo para diante um sôfrego perfil
estremece à distância, como o calor ondula
por cima de uma seca.
Olhando atentamente distingo os pontapés
que vem sofrendo a bola que arrasta na descida,
grilheta remendada, de afagos comprimida
enxertada na pele de um ombro retalhado.
Um mamilo recorda a matança do porco.
Os ditos atirados em frente da cerveja são como giz em quadro,
iniciais que o bafo da chuva descontínua
libertou um momento da lúgubre prisão.
Antárcticas memórias, lembranças congeladas,
num minuto animado de corda reduzida
tilintaram no espaço, fazendo-se reais.
Depressa retomando a sua antiga forma
foram ficando rígidas.
Lembranças povoando de um mapa de raízes
o horizonte vasto que cabe neste crânio.

Fátima Maldonado

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

John Lee Hooker and Bonnie Raitt - I'm in the mood

[...] A morte do marido roubara-lhe a vontade de ser bela.
Ela considerava a beleza uma consequência natural do acto de amar e desprezava profundamente todas as diligências conscientes daquilo a que chamava << a ostentação feminina>>.Fazia troça das mulheres que se maquilhavam <<como as duquesas tontas do século dezoito, que tinham inveja das rameiras>>, e a cirurgia estética parecia-lhe, excepto em casos de acidentes graves, uma afronta à grandeza humana. Dizia que a arte se tornara abstracta à medida que os homens e as mulheres se confundiam, numa mesma linha de montagem de seres geométricos, de rostos e corpos idênticos. Via Michael Jackson na televisão e suspirava: <<Até os negros, depois de séculos de combate pela dignidade da sua cor, se metem no detergente para ficarem iguais ao resto. Venham cá dizer-me que estou velha. Agora que inventaram a saúde para as pessoas poderem durar, já ninguém quer ser velho. E depois chamam-me louca.>> Estava louca, sim, mas não tão louca que alguma vez se esquecesse de tomar os remédios para a tensão, ou as vitaminas. Declarava-se determinada a viver a velhice até ao fim, para poder afrontar o mundo anti-rugas e divertir-se a blasfemar. [....]

Inês Pedrosa - "nas tuas mãos"

Alma errante

Encontrei muita vez, vagando ao acaso,
Um perfil de mulher no qual se adivinha
Como em exílio uma infeliz Rainha,
Um sol nascente e quase já no ocaso!...
Lembrou me um jaspe, um delicado vaso.
Onde vegeta a custo uma florinha.
Ansiosa por florir, mas que, mesquinha,
Tem o espaço estreito e o chão árido e raso.
Certa tarde, já quase ao fim do dia.
Baixava o sol na última agonia.
Via lenta vagando em certa praça.
Perguntei-lhe o seu nome, incivilmente...
Cravou-me um triste olhar, e tristemente.
Digna, mui digna, respondeu: Desgraça.

Gomes Leal

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sacodes do corpo a poeira do exílio.
Os destroços de uma agonia,
duplamente perigosa, incharam-te nos pés.
Vem. Dir-te-ei o que mudou
neste lugar de ventos e de mastros.
Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais.
São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. Um cortejo de pássaros,
antecipa-te o regresso. E chegarás
cansado do rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava.

Graça Pires

A terceira pessoa ( Para Pablo Picasso)

Volta e meia
quando o céu se torna
mais azul
e a pasmaceira
lá de cima
mais insuportável
a terceira pessoa
voa
discretamente
em direcção ao sul
atravessa a etérea
matéria
de que é feito
o espaço
e vem pousar
o seu riso matreiro
no céu mais verdadeiro
dos quadros de Picasso.

José Fanha ( Para Pablo Picasso)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Terceiro dia

Mamãe, quero voltar
imediatamente.
Diz a Papai que venha me buscar.
Não fico aqui, Mamãe, é impossível.
Eu fujo ou não sei não, mas é tão duro
este infinito espaço ultrafechado.
Esta montanha aqui eu não entendo.
Estas caras não são caras da gente.
E faz um frio e tem jardins fantásticos mas sem
o monsenhor, beijo, a crisandália
que são nossos retratos de jardim.
Da comida não queixo, é regular,
mas falta a minha xícara, guardou
para quando eu voltar?
Ai Mamãe, minha Mãe, o travesseiro
eu ensopei de lágrimas ardentes
e se durmo é um sonhar de estar em casa
que a sineta corta ao meio feito pão:
hora de banho madrugadora
de chuveiro gelado, todo mundo.
Nunca tomei banho assim, sou infeliz
longe de minhas coisas, meu chinelo,
meu sono só meu, não nesta estepe
de dormitório que parece um hospital.
Mamãe, o dia passou, mas tão comprido
que não acaba nunca de passar.
Um ano à minha frente? Não aguento.
Mas farei o impossível. Me abençõe.
E faz um frio...A caneta está gelada.
Não te mando esta carta
que um padre leria certamente
e me põe de castigo uma semana
( e nem tenho coragem de escrever).
Esta carta é só pensada.

Carlos Drummond de Andrade

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Maria Viana

CÃES - POLÍCIAS

Passavam na Avenida da Liberdade
Cães-polícias para acossarem os homens
Jovens homens
E cabeças de cães sem número foram afagadas por minhas mãos
Seus olhares de ternura que não sobra aos humanos
E de meus olhos caía o verdete das lágrimas
Enraivecidas dos homens
Dos ódios
Que enraivecem os olhos dos cães.

Matilde Rosa Araújo

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Enquanto a guerra labora

Não pode haver descanso
enquanto a guerra labora,
máquina decapitando as margaridas
para contentamento dos jornais.
Entra-se no seu território lancinante
e não há cavalos nem andorinhas,
sequer no canto de uma tela,
porque a beleza foi banida,
como um ladrão de pérolas,
do coração de todas as coisas.
A morte tem um centro de gravidade.
É lá que se urde o luto das mulheres,
acoitadas sob os xailes,
carpindo a dor que as martiriza,
com um rosário de perdas entre os dedos,
mães e amantes de tudo o que deixou de ser.

José Jorge Letria

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Banda Desenhada - Luis Louro / Simões




Maria Schneider Jazz Orchestra

Amanhã vou comprar umas calças vermelhas

amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei um livro na mesma página
descobrirei alguma pista.

Ana Paula Inácio

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
Dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Vem

1
Vem. Imagina-te no centro de todas as viagens.
Traz o perfume de outras eras, dos dias felizes em que fomos
alguma coisa mais. Talvez crianças breves, pássaros
feridos por um amor com sede de infinito.

Lembra-me os invernos, os outonos com sabor a erva
e às folhas gastas pelo tempo. E abre-me as janelas que me
fechastes um dia. E deixa-me entrar como uma brisa
em busca dos teus olhos, soprando nos teus cabelos.

Mas vem. Cobre-te de névoa e de flores. Veste o céu azul
e os prados verdes. E sorri, no silêncio possível do reencontro.
Deixa-te cair, nua e leve, nas asas do vento, como uma
pétala de rosa sem destino, uma bola mágica de sabão,
reflectindo sonhos no espaço. E aconchega-te dentro de mim.

Mas vem, anjo de transparências, de mãos brancas e suaves,
fruto exótico das minhas miragens. Vem. Traz a pureza dos
campos, o som das ribeiras correndo pelas encostas,
o murmúrio da noite de encontro às madrugadas.

2
Vem apenas. Como se o mundo estivesse acabando,
a cada passo que dás em busca do meu sonho. E depois,
não houvesse mais nada. Só tu e eu, enlaçados em viagem,
sobrevoando todos os horizontes.

Mas vem. Vem sem perguntares pelo amanhã, pelos
abismos que se abrem nas fronteiras dos nossos corpos.
Vem apenas. Com a lucidez dos espelhos e a espuma
inquieta do mar, batendo no calhau da praia.

Vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda
em tardes de vento brando. E fala-me de fadas, de castelos,
de rios mansos, onde alguma vez pudemos navegar.
Mas diz-me coisas sobre as árvores e as casas. Ou leva-me
contigo, como se fôssemos apenas aves e voássemos com
o mesmo bater de asas. Vem, ou deixa-me morrer com a tua
lembrança numa manhã cinzenta, com as gaivotas
gritando
no cais e os vagabundos repartindo o seu sono com os
meus pesadelos. Mas vem, como se partisses para sempre
e me esquecesses nas tempestades das invernias desta ilha
algures perdida no tempo.
Vem.

Autor: José António Gonçalves