Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quinta-feira, 31 de março de 2011

Conheço o sal....

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu Inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu.
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena
Desenho: Vasco Barreto.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mas sem marés, sem vagas e sem porto
onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Florbela Espanca

terça-feira, 29 de março de 2011

Dicção

Vou falar em português,
com cada vogal no seu lugar, dita
com toda a clareza,
uma de cada vez. Assim,
não comendo os és nem os is,
e pondo cada ó, aberto
ou fechado, dentro da sílaba
que lhe cabe, o português
fica com os pontos nos is,
para que o ouvido perceba
o que é dele,
e quem o escreva saiba
que a letra escrita
não vai ser letra morta
na boca
de quem lhe abra a porta.

Nuno Júdice

domingo, 27 de março de 2011

Para sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 20 de março de 2011

o interruptor

hoje   quando estava a sair de casa    olhei para o
relógio e percebi que devias estar p`ra chegar

e então deixei a luz da cozinha acesa      porque é a
que gasta menos    para que não encontrasses a casa às
escuras na chegada

mas depois pensei melhor

ao chegares      vendo a luz acesa       podias pensar
que eu estava em casa a fazer-te uma sandes de atum
ou um cachorro      e ias ficar desiludida

porque eu estou a sair

e quando chegares já me fui

e vais sentir a mostarda ou a maionese no canto da
boca    mas vai ser mentira

por isso    para não te desiludir      saio deixando atrás de
mim a casa escura

para não te magoar

João Negreiros

sábado, 19 de março de 2011

O espírito

Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí me espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Natália Correia

rapaz solteiro procura rapariga interessada

a norma diz que as raparigas
fazem tudo de propósito. é um
modo de dizer que o propósito das
raparigas são os rapazes, e que não
pensam em mais nada, a norma
vai zangar-se quando ler este poema,
seguramente sentirá que sou
machista e que menorizei a nossa
conversa. as raparigas, segundo o que
observei, são diferentes da minha
amiga, não afirmam muitas coisas,
esperam para ver e avançam em
desespero. as raparigas, tenho a certeza,
teriam muito que aprender com a
norma, assim se mantivessem mais
decididas e estáveis em cada momento

eu queria encontrar uma rapariga como a
norma que, sem dúvidas, me suportasse num
casamento eterno e me fizesse pensar tudo
ao contrário do que penso agora

Valter Hugo Mãe

sexta-feira, 18 de março de 2011

Romance de Pedro Soldado

I
Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

Triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
nem é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Nem anda Pedro pescando
nem ao mar deitou a rede
no mar não anda lavrando
soldado a mão se despede
do campo que se faz verde
onde não anda ceifando
Pedro no mar navegando.

Onde não anda ceifando
já o campo se faz verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

E já Setembro é chegado
já o verão vai passando.
Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada.

Triste vai Pedro Soldado.
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

II
Soldado número tal
só a morte é que foi dele.
Jaz morto. Ponto final.
O nome morreu com ele.

III
Deixou um saco bordado.
E era Pedro Soldado.

Manuel Alegre
Bebo o ar
Com lábios que conhecem
O gosto da terra

Flutuo
Tendo passado a via subterrânea
A que voltarei um dia

Bebo o ar
Num voo sem asas vindo da placenta
E de quanto navega no meu sangue
Árvore inumerável

Transito
Sem dar por isso
Vou de um gesto para outro
Inesperado -
Água livre por entre pedregulhos
Ou areia lisa muito ao fundo

Ninguém me conhece

Alberto de Lacerda (New York, 6 de dezembro 96)

quinta-feira, 17 de março de 2011

Não abras as gavetas onde a memória
se arrumou

Há muito que perdi a caligrafia despenteada
das cartas adolescentes que te escrevia   e onde
dava o teu nome a tudo o que seria
pensava eu    eterno

depois o tempo veio ensinar-me
outras maneiras de nomear o mundo e os objectos que
delimitavam as fronteiras do quarto
e de tudo o que era
pensava eu    indestrutível

e fui deixando a marca da minha língua
em lençóis e lugares que se desfizeram
ao primeiro rumor de tempestade

salvei apenas
uma palavra

que uma noite te há-de encontrar entre
os muros de todas as cidades que
apenas os nossos nomes
saberão responder    porque
nelas nascemos e desaparecemos     e ninguém mais
terá a senha que a elas conduz

uma palavra única    transparente     volátil
que te prenda definitivamente ao rumor
das madrugadas que em ti a minha sede
há-de    para sempre    prolongar

como se fosse junho
e tu voltasses

Alice Vieira

Enigma

Numa casa velha, um ruído de nada
enche o quarto de sombras, mesmo quando
a casa está às escuras. Empurra-se a porta,
à procura de qualquer coisa, e as madeiras
velhas, a pintura desfeita com os anos,
os buracos por tapar, só dizem o silêncio.

Resta, a quem quer saber de onde vêm
os ruídos que enchem o nada de uma casa
velha, sentar-se num banco esquecido, olhar
para o tecto, e esperar que os minutos passem,
como se fossem horas. Por vezes, pode ser
que o vento sopre através de uma telha,
fazendo ouvir o ruído do céu; de outras
vezes, um movimento atrai o olhar: e
uma osga desaparece num canto, como
se já não precisasse de ninguém.

E quando se sai da casa velha, sem
saber de onde vem o ruído de nada, o
que se leva na cabeça é o ruído de nada,
que vem de dentro da própria cabeça, como
se uma casa velha se alimentasse dos ruídos
que cada um leva consigo, quando entra num
quarto vazio, e se senta num banco esquecido,
à espera de saber de onde vem o ruído
desse nada que cada um leva consigo,
ao entrar sózinho numa casa abandonada.

Nuno Júdice

quarta-feira, 16 de março de 2011

André Rieu - Don´t cry for me Argentina

Grito

De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia
cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóbada inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansasse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito da revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha
sete maquíxi
à minha sombra.

medo e música

morre o coração
enquanto caminho errante
na torta direcção.
tédio nas noites em que me
não reconheço
violentações internas que as lágrimas
acusam
nas manhãs que humedeço.

voltar e partir
baloiço e rum
fugir e chegar
a porto nenhum

vontades aleatórias-externas

os olhos tristes
depois do que sinto.

olhos em lince

o que prevalece
da semente humana
e
do instinto.

Autor: Ondjaki    
(maquíxi - máscaras de dança cokwe)

terça-feira, 15 de março de 2011

Kamasutras

Atira a roupa toda
para o chão.
Depressa.Sem momento sedutor
nenhum

As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza

E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos
de 60 watts.
Ou então crua,
de supermercado

Escolhe armário,
sítio esquadriado
onde os corpos
não possam descansar.
Sem qualquer tipo
de preliminar,
assalta-me
vestida:
que eu tenha a roupa
toda. Do mais pesado
ao mais
quase infinito de leveza.
Luzes todas acesas
Depressa
e de repente

Passemos à cozinha.

E lá, numa poética de mãos,
Em suprema ginástica de olhar,
comamos lentamente,
com saber hindu,
os restos do assado sobrado
do jantar

À luz
fosforecente
e sedutora, no mais
preliminar,
lança contra o fogão,
por sobre o ombro,
o copo de cristal
(dos de pé alto!)

Que o chão,
ao ser-lhe agudo como asfalto,
lhe ensine o kamasutra
em última edição

Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 14 de março de 2011

Luar de janeiro,
Fria claridade

À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina,
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
D`alegre menina
Que há muitos anos já...envelhecesse.

Luar de janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade...
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficasse apenas a amizade...

Luar das novelas,
Álgido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
- E ainda sorrindo...

Luar de janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
 - Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada...

Luar dos poetas e dos miseráveis,
Como se um laço estreito nos unisse,
São semelháveis
O nosso mau destino e o que tens;

De nós, da nossa dor, a turba - ri-se
- E a ti, sagrado luar...ladram-te os cães!

Augusto Gil

domingo, 13 de março de 2011

Ledo Hiato



De tez macia e lasciva,
Sorris, no quarto, onde matizas a Primavera.
Dispersas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Preso no beijo de uma semibreve,
Estendo-me no esteiro de um verso.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...

De tule pardo e liso,
Vagueias, no quarto, onde o tempo permanece.
Traças levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que esvanece.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleado no regaço de um leito de seda,
Perduro nos braços da Poesia.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...

Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
Que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...

Texto de João Garcia Barreto

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó


Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado


De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias


Onde está o tempo prometido p`ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p`ra lá do cercado


Ana Paula Tavares

sexta-feira, 4 de março de 2011

o nadador

foi visto um burocrata morto por não saber nada

a boiar de bruços com a cabeça enterrada na água

a exercitar as guelras do ar podre que lhe construiu as
palavras sinceras com que enganou quem conheceu ao
longe, da janela do avião

e     de longe    acenou a todos os que conhecia
levando na mão a mala que tinha as esperanças que
todos tinham em si

bóia um ladrão morto e o estilo é pouco ortodoxo

não mexe braços nem pernas

não respira nem ergue a cabeça

não faz rotações de tronco

não se mexe nem um milímetro

foi já ultrapassado por todos os concorrentes

e a água vai ficando escura da tinta que vai na mala,
onde se escreveram os nomes dos que lhe confiaram as
vidas

na pista sete bóia um burocrata rico que fugiu com a
esperança

e ninguém se atreve a resgatá-lo

é que dá medo de olhar

dá medo de saber a expressão que levava quando
percebeu que não ia ganhar

todos os nadadores já sairam da água

todos os nadadores já secaram o cabelo

todos os nadadores já receberam as medalhas

todos os nadadores já vestiram os fatinhos-de-treino

todos os nadadores já choraram a bandeira

e um chorou ranho também com o hino

ele continua lá

a piscina vai fechar

as luzes apagaram-se

e o da pista sete não tem direito a medalha

nem pode ir às olimpíadas porque já ninguém confia
nele

nem sequer para conseguir os mínimos

a pista sete está a transbordar com as palavras que lhe
disseram os amigos que ele iludiu para depois desiludir

e foi o dono de um molhe delas

um dos donos dos molhos de palavras que lhe fez a
folha

que lhe levou o ar emprestado para compensar o papel

foi um deles que lhe deu as mais exigentes aulas de
natação

aquelas em que é impossível levantar a cabeça e em
que temos que nadar sempre submersos até bater com
a cabeça desesperada na parede que sabe a cloro

o burocrata bóia morto e quem o fez perder a prova foi
um nome na pasta

há um nome a vermelho na pasta que está a esbater-se
no mesmíssimo momento da culpa

o melhor amigo matou-o

o que lhe fez mais festas

o que lhe gabou mais as notas dos filhos

o que mais lhe respeitou a esposa

o que mais brindes lhe fez em delicados reveillons
o melhor amigo matou-o

o melhor amigo matou-o

foi o único que não aguentou perdê-lo
percebê-lo

conhecê-lo

era o único que não sabia

era o único que estava quase a meter os papéis para se
promover a irmão

o melhor amigo matou-o porque a maior tristeza só
nos pode ser dada por quem amamos mais    e mais
e mais    neste infinito que termina     desafiando
a lógica que nos disseram os livros e os filmes de
domingo à tarde que vemos amparando meninos

o burocrata bóia morto e está na boca do mundo
defunto porque levou para longe numa pasta      as
boas acções que se trocam agora por brinquedos que
só dão aos filhos dos pobres

o burocrata bóia morto e afoga o melhor dos amigos

Autor: João Negreiros

quinta-feira, 3 de março de 2011

o super homem

vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressureições

valter hugo mãe

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ponto sem dimensão

Bendito seja o desejo
abençoada a carícia
quanta pena das meninas
deserdadas de malícia

que por medo do diabo
ou pelo dente do siso
não tiveram a feliz
propulsão do paraíso

propulsão não expulsão
que foi ela a força dada
para que houvesse na vida
a mais perfeita jornada

de que regresso nenhum
desejamos ao céu falho
e que do Pai só havia
pesado olhar duro ralho

a outro mundo vogamos
nossos votos ali vão
os de sumirmos de todo
no ponto sem dimensão

e mais uma nota ainda
de que peço mil perdões
o ponto sem dimensão
dá todas as dimensões.

Agostinho da Silva

Apelo

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

Luísa Dacosta

terça-feira, 1 de março de 2011

      Trazes nos ombros
       revérberos de luz
    no fulgor que me enlaça.
         Levanto o seio
      lábios macios sábios
enroscam-se no beiral das pernas
             descais,
         manso e trémulo
         na tarde saciada

Maria Aurora Carvalho Homem
Exausta de esperar, descanso o olhar
na silhueta de veleiros pintados de negro.
Depois, desenho, em minha insónia, um pássaro,
que me sobrevoe a infância, hasteando,
bem por dentro da meninice, um rosto paterno,
para que a boca me não sangre de orfandade.

Naufragaste numa noite em que o brilho da lua adormeceu
e deixaste-me uma ilha por herança.

Graça Pires

Eric Clapton & Sheryl Crow - Little Wing