Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 30 de abril de 2011

Ode ao Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, a água
é a tua bandeira,
agita as suas cores,
sopra e soa no vento,
cidade,
náiade negra,
de claridade sem fim,
de fervente sombra,
de pedra com espuma
é o teu tecido,
o lúcido balanço
da tua rede marinha,
o azul movimento
dos teus pés arenosos,
o aceso ramo
dos teus olhos.
Rio, Rio de Janeiro,
os gigantes
salpicaram a tua estátua
com pontos de pimenta,
deixaram
na tua boca
lombos do mar, nadadeiras
pertubadoramente indolentes,
promontórios
da fertilidade,tetas da água,
declives de granito,
lábios de ouro,
e entre a pedra quebrada
o sol marinho
iluminando
espumas estreladas.

Oh Beleza,
oh cidadela
de pele fosforescente,
romã
de carne azul, oh deusa
tatuada em sucessivas
ondas de ágata negra,
da tua nua estátua
sai um aroma de jasmim molhado
pelo suor, um ácido
sereno
de cafézais e de quitandas
e pouco a pouco sob o teu diadema,
entre a duplicada maravilha
dos teus seios,
entre cúpula e cúpula
da tua natureza
assoma o dente da desventura,
a cancerosa fila
da miséria humana,
nos morros leprosos
o cacho inclemente
das vidas,
vagalume terrível,
esmeralda
extraída
do sangue,
o teu povo para os limites
da selva se estende
e um rumor oprimido,
passos e surdas vozes,
migrações de famintos,
escuros pés com sangue,
o teu povo,
além dos rios,
na densa
amazónia,
esquecido,
no Norte
de espinhos,
esquecido,
com sede nas chapadas,
esquecido,
nos portos mordido
pela febre,
esquecido,
na porta
da casa de onde o expulsaram,
pedindo a ti
um só olhar,
e esquecido.
Em outras terras,
reinos, nações,
ilhas,
a cidade capital,
a coroada,
foi colmeia
de trabalhos humanos,
amostra da desgraça
e do acerto,
fígado da pobre monarquia,
cozinha da pálida república.
Tu és a ofuscante
vitrina
de uma sombria noite,
a garganta
coberta
de águas marinhas
e ouro
de um corpo
abandonado,
és
a porta
delirante
de uma casa vazia,
és
o antigo pecado,
a salamandra
cruel,
intacta
no braseiro
das longas dores do teu povo
és
Sodoma,
sim,
Sodoma,
deslumbrante,
com um fundo sombrio
de veludo verde,
rodeada
de crespa sombra, de águas
ilimitadas, dormes
nos braços
da desconhecida
primavera
de um planeta selvagem.
Rio, Rio de Janeiro,
quantas coisas
devo te dizer. Nomes
que não esqueço,
amores
que amadurecem o seu perfume,
encontro contigo, quando
do teu povo
uma onda
agregue ao teu diadema
a ternura,
quando
à tua bandeira de águas
ascendam as estrelas
do homem,
não do mar,
não do céu,
quando
no esplendor
da tua auréloa
eu veja
o negro, o branco, o filho
da tua terra e do teu sangue,
elevados
até a dignidade da tua formosura,
iguais na tua luz resplandecente,
proprietários
humildes e orgulhosos
do espaço e da alegria,
então , Rio de Janeiro,
quando
alguma vez
para todos os teus filhos,
não só para alguns,
dês o teu sorriso, espuma
de náiade morena,
então
eu serei o teu poeta,
chegarei com a minha lira
para cantar no teu aroma
 e dormirei na tua fita
de platina,
na tua areia
incomparável,
na frescura azul do leque
que abrirás no meu sonho
com as asas de uma
gigantesca
mariposa marina.

Ano: 1956

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As Ilhas dos Açores - Madredeus

Ode à incompreensão

De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara -
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel
- isso me doi como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me doi
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
- meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

(De mim a ti, de ti a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Corre demorado o mês de novembro.
Um eco em pulsação no tempo
na hora dúbia, no retorno incerto
embora ainda aqui por perto

a programação se altere sem pretexto.
Destoas neste lugar se ao alto uma flor
é ainda a frase que falta ao texto.
Sempre falha, qualquer coisa, seja onde for

Ondas, um pano branco: estamos no palco.
Transforma-se a frase - segue-se o parágrafo.
Ouvem-se pela noite vozes nasaladas

coisas que, outrora, foram coisas - mais nada.
Estamos no palco: ouvem-se três pancadas.
Luta-se corpo a corpo - sem pistola, sem espada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

27 Abril de 1974



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Soneto dos poetas de aqui e agora

Mordemos as palavras. E há venenos
a queimar-nos por dentro das entranhas.
Ai palavras tão grandes    tão tamanhas!
Ai venenos tão falsos      tão pequenos!

Venenos e palavras.Coisas nossas.
E não de quem nos quer amordaçados.
Cavalos da verdade mutilados
entre os varais de raiva das carroças.

Mordemos as palavras      pois então!
E cuspimos o sangue coalhado
fazendo destas tripas coração.

E damos de beber ao nosso gado:
a manada de versos da canção
deste povo de novo atraiçoado.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Casa (Rio)

Incerta vez,
o Mano Juca se poentou no rio.

Em nenhum rio se morre,
assim é o dito.

Por que razão chora, então, a mãe?
Que eternidade a amarra
à bruma da margem?

A mulher responde:
há vozes no meu quarto
que me pedem mais do que posso sonhar.

De tanto na berma sobejar
ela ganhou o redondo dos seixos.
Aves a pisam
e nela debicam como em derramada nuvem.

Tristezas de mãe
estão sempre certas:
o lugar da casa é o de um rio.

Casa e rio, ela diz:
são margens de um regresso infinito.

Aos poucos, a borda do rio
já não é senão água.
E a lembrança da mãe
é a de nenhum tempo haver.

Rio sorvido pela própria corrente
o filho desagua sem fim
no mar dos olhos de quem o fez nascer.

Mia Couto

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Clamor

tudo vem ao chamamento
noite após noite o que dissemos e
o que nunca diremos - a viagem
com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
a sensação fresca de um sulco de aves na pele

tudo vem ao chamamento - os lobos
os anões as fadas as putas as bichas e
a redenção dos maus momentos - enquanto te barbeias

vês no espelho o homem
cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
está agora ali e olhar-te - queixando-se da tosse
da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
num deslize perto da asa do nariz

não sei quem é - sei porém que vai afogar-se
naquela superfície clara quando dela se afastar
e abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
vem ao chamamento
por dentro do clamor da noite

Al Berto in Horto de Incêndio

segunda-feira, 11 de abril de 2011

uns mortinhos pequenos

tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste.se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo

são uns mortinhos pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação

tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora. quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito, talvez com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito

valter hugo mãe

sábado, 9 de abril de 2011

durmam os percevejos
que eu já não posso.
rebento de culpas inexplicáveis, remeto-me às músicas
e momentos que ainda
encontro.

durmam os outros que podem

a noite é meta de ser transvivida, nunca alcançada
uma espécie de recta inacabada
à qual me foi vedado o acesso
do vitorioso acabamento.
durmam os mais sossegados
que nós estaremos acordados.
de líquidos inodoros à vista
de lençóis escorrendo
escondendo
adocicadas expedições.
o pénis escondido no pijama.
o pénis reencontrado de manhã, no frio,
na fria mão.
a nova segurança.
o dia, a claridade rompendo; o mundo agita-se, dança.
e o olhar dos insones esperando o fim da tarde.
a noite, a noite branca, sonolenta...

o olhar dos que não dormem com paz.
não o olhar do lince, não o olhar do percevejo,
mas um olhar em lança.

durmam os vencedores
que nós remoeremos os corpos
os remorsos
as dores.

Ondjaki

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fred Mergner & João Maló

Beijo da Eternidade

Tudo o que vejo não é miragem,
Tudo o que desvendo na alma
Perdura na essência da imagem
Do Mar que nos acalma.
Tudo o que sinto na realidade,
O que armazeno na arca sincera,
Transfigura a doce saudade
Numa rosa da Primavera.
Tudo o que em mim flameja,
Tudo o que em mim é fecundo,
É a Música que me beija
Numa lacuna do Mundo
Tudo o que perdura nas páginas da verdade,
Tudo o que existe e não tem fim,
Fortalece a doce saudade,
Beijo da Eternidade em mim.

E tudo o que vês não é submerso...
A imagem que observas é o regresso...

De novo, perto de mim,
Observas o Horizonte,
Se eu, a ti, retornei
Foi da água que bebi na fonte.
Estava escrito nas lajes
Da fonte em que bebi,
O segredo que desvendei
Para repousar hoje, aqui.

João Garcia Barreto

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Rodeada de mar, convoco o límpido diálogo
dos abismos, para gritar, com Ulisses,
o desejo de ser livre e mortal.
Havia, assim o dizem, uma tempestade em sua boca.
As sereias tomavam-lhe o pulso dos sentidos,
como sulcos de aves no contorno da luz.
A música das marés enfurecia seu sexo.
Contra os rochedos, morriam as gaivotas
enlouquecidas de prazer.
Mas, os deuses fixaram-se no litoral da eternidade,
para lhe indicarem o caminho da morte,
porque ele era, apenas, um homem,
com uma ilha escondida na memória.

Graça Pires

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Europa acidental

Europa acidental.
Europa acidental.

Aqui nem mal nem bem.
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
é porque a gente nasce
de um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
é natural
(naturalmente)
que haja também
gente que é gente de bem
e gente que é apenas gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

O mal
é ter na nossa frente
um mar de sal.
Um mar de gente
que de repente
( é assim mesmo: de repente!)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

Não andar para trás
nem para a frente.

Nascer morto ou vivo
é tão normal
que é indiferente.

E vai-se toda a vida
na corrente.
E a gente morre de repente.
Sempre de costas.
Nunca de frente.
De morte necessária e natural
(naturalmente).

Europa acidental.
Europa acidental.

O principal
não é viver:
é estar presente
nesta maneira ocidental
de apodrecer decentemente.

Esta é uma questão fundamental
( é evidente!).

Joaquim Pessoa

terça-feira, 5 de abril de 2011

A casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes, sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu...

E tanto em mim
demoraram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonholenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
essa intatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O pássaro morreu

O pássaro morreu. Finou-se
em pleno voo. Foi um mal
que lhe deu. E foi-se.

As asas não cairam primeiro.
Pois primeiro caiu o silêncio
nos olhos da tarde. Derradeiro
foi o seu esgar. O Sol, afinal,
desconhecedor, apenas arde.

Uma profunda tristeza tomou
conta do vasto azul celestial.
Não deu para distinguir a sua
cor. Estonteado pelo dia, viu a lua
nos seus ímpetos espertos de pardal.
E depois o seu corpo de penas assomou
o verde da terra e amalgamou-se.

Ninguém escreveu a notícia.
Ninguém se importou.
Mas a verdade
é que neste fim de tarde
um pássaro morreu. Finou-se.
E o Sol, desconhecedor,
apenas arde.

José António Gonçalves

domingo, 3 de abril de 2011

Maria-Lisboa

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co'o mar.
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa.
David Mourão Ferreira

sábado, 2 de abril de 2011

Vaidade meu amor tudo vaidade!

Vaidade, meu Amor, tudo Vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o Luxo, a Glória, a Caridade,
Tudo Vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe.
Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no Mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas, eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…
E isto em mim não será uma vaidade?


Autor: António Nobre
Desenho: Vasco Barreto.



Homem só meu irmão - Luiz Goes

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram -
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sózinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique -
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira