Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os Armários Vazios


É um livro que abre uma janela sobre a solidão. Uma solidão interiorizada, consentida, vivida dia a dia, uma solidão também de isolamento em relação aos outros e ao que nos rodeia; um sentimento pesado, quase de arrastamento, lúgubre, prisional.É neste ambiente que vejo a personagem Dora Rosário; em comparação com outras, como a filha Lisa, a sogra Ana e o genro Ernesto - ambiciosas, cheias de vontade de viver. Numa parte do livro, a narradora e amiga, descreve: “Antigamente havia mulheres que, quando os maridos morriam, se metiam nas suas casas para todo o sempre. Algumas nem deixavam entrar o sol, talvez porque a sua alegria as chocava. Dora Rosário saía para o emprego, mostrava aos visitantes que passam o limiar da loja móveis de estilo e bibelots de época, almoçava ao balcão de uma pastelaria ou de um snack qualquer, fumava às vezes um cigarro depois do café, mas quando regressava, ao fim da tarde, era como se não tivesse saído. Continuava a vestir-se de preto ao fim de dez anos, e com aquelas saias amplas e compridas que usava e os sapatos de salto raso parecia mais uma religiosa sem hábito do que aquilo que era na realidade, uma viúva de carreira.”
Gostei muito de ler este livro – a nossa existência é assim em muitas ocasiões.

domingo, 29 de maio de 2011

Malangatana

Malangatana on Malangatana from Orlando Esteves on Vimeo.

Democracia

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência.Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia.Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

sábado, 28 de maio de 2011

José Ruy

BD: Os Originais de José Ruy (IV) from Template on Vimeo.

Meu país

Meu país turístico de doce clima tão frio
De negras neves a caiar os montes
E os prados cansados
Tenho uma capa de degredo larvas de água triste
Nos cabelos húmidos
E pés descalços pelos sapatos do desengano
Meu país de água com o mar à beira
Meteste-me no fogo do ventre um coração parado
Pelas águas geladas de poluídos rios e gastos mares
E sou(fui) a emigrada presente que nem parte nem partiu
Não partirá
Arbusto mal plantado no suicídio do vento
Cobrindo o rosto com as folhas das mãos

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ELE:

Eu digo-te onde estou
e logo saberás quem sou.
Na escuridão do mundo
iluminarei a solidão do espaço
e passo a passo os olhos hão-de-ver
o que mais ninguém vê.
E até nós perguntaremos
se o que os nossos pés agora pisam
são as tábuas do palco e as da lei.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ilha Teresa


Um livro de Richard Zimler, o último romance entre os nove publicados. Só li dois livros deste autor, este que vos falo agora e um outro com o nome: “ Meia-Noite ou O Princípio do Mundo”. São diferentes, bastante diferentes, mas de ambos gostei muito.

É uma estória de uma família portuguesa, que emigra para os Estados Unidos da América, vivendo nos arredores de Nova Iorque. A personagem principal é a própria narradora – Teresa, uma adolescente de 15 anos, o seu mundo interior em contraste com o exterior, a sua adaptação ao modus vivendi, a morte do pai, a mãe, o seu irmão Pedro, e o seu grande amigo, Angel, para além de outras personagens que giram à volta. No verso do livro, diz-se: “Num registo um pouco diferente do habitual, mas igualmente brilhante. Richard Zimler contínua a maravilharmo-nos pela forma convincente como nos transporta para o admirável mundo das suas personagens.”- E este pequeno texto diz tudo em relação ao que admiro mais nos seus livros.

segunda-feira, 23 de maio de 2011


Agora sou
porto de silêncio que conhece
a rota da madeira,
porta de sótão
e turbilhão de folhas
que, pela cozinha, arrasta o vento.

Agora sou
a casa que conhece
múrmuras colmeias,
unhas do gato prateado,
o desatino matinal dos pássaros
e o amor das janelas pelas nuvens.

Ao perfume da erva
após a chuva
une-se o do café.

Do tempo passado
a decifrarmos juntos paredes
de granito e cal
vem-nos doce a fadiga.
Repousemos.

O Crime do padre Amaro


Foi um prazer enorme, de novo, voltar a ler “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queiroz. Foi como um banho de realismo e ironia que me encheu a alma. A hipocrisia social e religiosa a descrição das personagens, as suas características e o ambiente que as envolvia, colocam-nos como se estivéssemos a viver esses momentos e essa época. Um pequeno excerto:

“ Às vezes, farto de solidão, ia visitar o Silvério. Mas a felicidade pachorrenta daquele ser obeso, ocupado em coleccionar receitas de medicina caseira e em observar as perturbações fantásticas da sua digestão; os seus constantes louvores do Dr. Godinho, dos pequenos e da senhora; as chalaças obsoletas que ele repetia havia quarenta anos e a inocente hilaridade que elas lhe davam, impacientavam Amaro. Saía, enervado, pensando na sorte inimiga que o fizera tão diferente do Silvério. Aquilo era a felicidade por fim: porque não havia de ele ser também um bom padre caturra, com uma pequenina mania tirânica, parasita regalado de uma família respeitável, tendo um destes sangues tranquilos que giram sob camadas de gordura, sem perigo de transbordar e de causar desgraças, como um riacho que corre por baixo de uma montanha?...”

domingo, 22 de maio de 2011

CHOPIN Nocturne 20 C sharp minor no. 20 posth (HD) - Michel Mananes from Michel Mananes on Vimeo.

Murmúrios do mar

«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»

Pablo Picasso

sábado, 21 de maio de 2011

O Brinde

Ergueu o cálice
e esqueceu o brinde.

No avô,
suspendeu a família o ansioso olhar,
mas palavra e gesto lhe quedaram imóveis,
morcegos presos
no último tecto do mundo.

Parecia que iria ficar assim
o resto da vida:
à espera de um motivo para brindar.
E nessa espera
demoraria o tempo todo.

Quando já morto,
tentassem tirar-lhe o cálice,
não seria possível abrir-lhe os dedos.
Levaram o avô
para o quarto,
e deixaram-no só, no escuro,
para que adormecesse.

O avô está cansado, disseram.
E, deste modo,
a si mesmos se descansaram.
O velho sorriu,
em seu enrugado rosto
desenhou a taça da malícia:
o que ele queria
era o instante do tempo inteiro.

Não entenderam os parentes:
calado, ele não estava calado.
A sua palavra
de nenhuma voz carecia.

De si para si, murmurou:
só amei o que tinha fim
e tudo que amei se eternizou.

Depois, adormeceu.

Aos parentes,
para sempre escapou
a razão do suspenso brinde.

Ninguém sabe falar a quem ama.

Apenas no silêncio
o amor
se diz e escuta.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

tendenciosa

rasga-me a carne
tira-me os dentes
arranca-me as unhas
chama-me nomes
trinca-me os lábios
soca-me os pés
arranha-me as costas
parte-me os ossos
insulta meu pai
rouba-me o orgulho
leva-me a roupa
cose-me a boca
queima-me a língua
suja-me de lama
unta-me de fezes
devolve-me aos bichos
mas com carinho     que a intenção é tudo
e      se quiserem amar       não são gestos que contam a nossa história
mas o que pensavas enquanto o fazias
encosta-te com a magia de quem fere sem saber
    com a inclinação de quem cai por prazer para
                     que a gravidade te seja plana e leve

quarta-feira, 18 de maio de 2011

o apocalipse dos trabalhadores

Mais um autor e um livro de que gosto muito. Gosto tanto da sua prosa como da sua poesia. E ainda só li este livro e um outro de poesia:"contabilidade", do qual já extraí alguns poemas para este blog.Os dois com uma estética, que os diferencia de outros livros e autores, principalmente o uso total de minúsculas.
Parece-me que o que está escrito no verso do livro, retrata bem a estória:
"A resistência de maria da graça e de quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam.Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida. Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim,descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade."

terça-feira, 17 de maio de 2011

Como gotas arrancadas à terra

Estes são os campos da morte,
quietos, silenciosos, enevoados,
como se nada neles houvesse acontecido,
a não ser o sacrifício final
de uma juventude alcandorada
ao ponto mais alto
da dávida que a calou, que lhe pôs fim.

Estes são os campos do vazio de tudo,
aqueles onde até o orvalho
se torna rubro e quente,
água diurna de uma fonte
da qual só as lágrimas
brotam ainda como gotas
furiosamente arrancadas à terra.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Mediterrâneo


Excertos de um texto, em que o autor disserta sobre religião, arquitectura, civilização, em contraste com a civilização do Mediterrâneo:

1 - “Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis.”

2 - “Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos.”

3 - “Falo da nossa herança, o Mediterrâneo – a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitectura, da democracia, do direito, da navegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul.

4 - “Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.”

domingo, 15 de maio de 2011

Nascente

Em gotas de ametista e de mamilo
sorvendo hoje nos favos da romã
escorro vale extenso e, de tranquilo,
o grande olhar de ontem amanhã.

Firme de barco, de terra e de castelo
navegando com o rosto no levante
na paisagem do tempo te congelo
ó múltiplo de ser, ó cada instante!

Com raízes de partida e de chegada
eu bendigo o dia e dou-lhe a mão
abrindo em flor na crua madrugada
para beber o céu e conhecer o chão.

Na pupila do tempo me suspendo,
espero o rio para invadir o monte
e no fervor da sede e do tormento
sou o jorro da fonte que me irrompe.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O avô e o neto

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
às vezes p'ra outro dia;

E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p'ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ballad of the windfish on double ocarina

Lugar onde

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria, de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui pôem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa do varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

terça-feira, 10 de maio de 2011

O vermelho por dentro

Estão envolvidos em corpos negros vermelhos por
dentro. Estão num barco sobre o mar e o mar é
negro. É de noite. O céu está negro e sobre a
água negra tudo é vermelho por dentro.

Os corpos eram negros
sobre o mar a água era de noite
não se via o vermelho por dentro
os corpos não se viam
eram barcos com os ventres todos negros
e as línguas eram de águas muito rentes
A sangue não sabia
não se via o vermelho por dentro
o céu a água envolvia
tudo envolvia nos vermelhos dentros
e os mares todas as noites estavam negros
negros por dentro
E a água volvia pelo céu tão negra
e à noite por dentro do mar todo vermelho
a noite era vermelha
e os barcos negros por dentro
E nos corpos a água negra era vermelha  por dentro
e eles estavam envolvidos
e

domingo, 8 de maio de 2011

Piano solo

Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias ocres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas

(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)

sábado, 7 de maio de 2011

Sol de Inverno, ainda

Fazer as contas ao dia
e ver que tudo bate certo:

o Minotauro que corre na arena
por entre virgens nuas;
o pássaro amarelo que entrou
para dentro do sol e se transformou
num pavão de fogo;
o deus cego que espezinha
um diadema de flores
no templo da primavera.

E para fazer esta soma
não precisei
de falar com o Minotauro,
de meter o pássaro numa gaiola,
nem de mandar o deus para o Inverno.

Limitei-me a pôr asas
ao Minotauro, a pintar com o amarelo
do pássaro or corpos das virgens
nuas, e a pedir ao deus que abrisse
o seu leque de pavão, enquanto
os raios do sol chilreavam
à sua volta.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lua cheia

dá-me vinho meu amor
dá-me vinho
vinho pela tua boca

deita-me junto ao rio
abraça-me contra a terra
abraça-me dentro de água

mas dá-me vinho
dá-me
sem parar
hoje quero ser tua
da maneira mais louca


quinta-feira, 5 de maio de 2011

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Para Maria de Lurdes Pintasilgo, em breve homenagem

quarta-feira, 4 de maio de 2011

dizem que o nevoeiro pertence aos mortos
e que os corações são archotes
que brilham na noite da vida uma só vez
dizem que não se deve ficar
ao pé de quem por eles chora
quem nas solidões do inverno
partilha com eles a cama e as insónias

mas que fazer quando não se resiste
ao apelo desolado da terra
às palavras que sopram do lado do rio
à luz que te chega esfarelada
e se enrola em torno da boca
esperando as palavras

por isso são silenciosos
os que amam a presença da sombra
e o seu silêncio é um clamor
que anuncia o desastre
e oferece aos condenados um cântico

através desse cântico se abeiram dos frutos
os que não possuem nada
os que nada desejam.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A canção da Primavera

A primavera canta
ouvi a sua voz
o rouxinol espanta-se
de ouvi-la como nós

A primavera canta
vais ouvi-la também
quando um pássaro canta
não se ouve mais ninguém

A primavera é ave
é ela o rouxinol
há pássaro que lave
melhor a luz do sol?

domingo, 1 de maio de 2011

Bem. Sacudo as lágrimas da gabardine

Bem. Sacudo as lágrimas da gabardine
e sento-me neste esconderijo de café sujo
a olhar através da montra em mini na rua
a treva mecânica
do amor vazio.
Quem me vir aqui a estas horas
há-de pensar: está à espera de uma mulher.
E estou.
Corpo subterrâneo.
Cabelos clandestinos.
Perfil que queima e neva.
Revolução.
Tu.
Justificação do nevoeiro.
Lume
para exercícios de névoa.

Holy Mother