Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cântico Negro

«Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasgueí o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,

— Sei que não vou por aí!

José Régio in Poesia I
Desenho: Vasco Barreto.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dignidade


Fui falar-te como se fosse a uma casa de penhores
Empenhar o meu último casaco
Sem flores
Sem anéis
Sem colares
E os saltos tortos dos sapatos
Palavras não houve
Sorriso apenas meu
De pessoa serena sem passado e sem futuro
Entregaste-me a cautela dos dias inúteis
E eu assinei
Só eu sabia que vinha nua


domingo, 19 de junho de 2011

Uma constante da vida

Errámos junto
à História: devíamos
pegar em foices e enxadas
e destruir mil campos
de pensar:
computadores, ogivas nucleares,
assentos petrolíferos e mais:
centrais de mil cisões
( e, já agora, aqule pequeníssimo
sonar)

Errámos pela
História: enquanto tempo,
devíamos pegar nas foices,
nas enxadas.
E nos anéis das fadas
plantar outras sementes: bombas
despoletadas, ferrugentas,
que dessem trigo e paz

Errámos nas histórias
de encantar:
um lobo freudiano, um capuchinho,
um osso pela grade
da prisão.
Voltaram as sereias
sentadas no olhar em devoção
(sem nunca terem nem sequer
partido)

E seduz-nos ainda
esse cantar.)
Errámos sem saber
que o seu vagar é tal
que o sonho, cedo ou tarde,
se fará.
Que ao lado da cisão: a catedral
e ao lado do vitral: irracional
razão

A história junto
à História,
a enxada quebrada
pelo chão

quinta-feira, 16 de junho de 2011

À sombra das acácias vermelhas


Por vezes vêm-me à memória a guerra colonial. Não por saudosismo torpe pois não sou favorável a qualquer tipo de guerra, mas porque houve sentimentos, dores, lembranças, que ficaram incrustadas nas minhas veias, artérias e principalmente algures no meu cérebro.
Foi numa altura destas que peguei e reli o livro de António Garcia Barreto,” À sombra das acácias vermelhas”. Há certas vivências, cores, cheiros, metáforas, alcunhas, as bebedeiras esquece tudo, a saudade, a revolta por estarmos num lugar contra a nossa vontade, a camaradagem, a ansiedade da espera do fim da comissão, a diferença de comportamentos militares entre oficiais e sargentos milicianos e aqueles outros que faziam da guerra a sua profissão; mas também porque África tem um encanto, um sabor e um corpo inesquecíveis.

terça-feira, 14 de junho de 2011

POR QUE É QUE DEUS põe as cousas
De modo que os maus governem?

Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.

Porque mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.

E o Sidónio está morto em Belém
E o Bernardino no mundo.

Mas o Quinto Império há-de vir
Prometido a Portugal.

Quem manda é quem compra e vende,
Quem presta só serve para morrer.

Os pobres são pobres de mais,
Os ricos não têm coração

Hão-de-rir dos versos do cego
Hão-de-rir mas hão-de chorar,
Quem não for Leote do Rego
E tiver pátria a que amar.

Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estarem-nos a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perde o existir.

Descobrimos as terras do fim...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O electricista:

Eu não tirei a luz,
eu não sou o pai da escuridão:
foi um fogo.
o que desceu do céu,
que a fez de vez,
que a fez devassa
do que vai no coração.

Não serei despedido
contra as plagas de Marte.
Sei hoje o que não tinha sabido.
Não sou todo, sou parte.

terça-feira, 7 de junho de 2011

choras porque a cegueira é voraz.
choras porque o espelho não reflecte
a tua vontade.
a nuvem acinzentou-se
por sobre ti,
o revólver está pronto.
choras porque a chave é imaginária
e a porta sólida em demasia.
(porque mesmo na cegueira se
distingue o sangue próprio.)
choras porque a fraqueza te sobrepesa
as sobrancelhas, as pálpebras
os olhares.
choras no sufoco de pouco acontecer,
pouco conseguir ver.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O corpo

Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo,

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares.

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras - o colo alto
a boca retomada
no fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada.

Digo do corpo,
o corpo:
e do teu corpo,

as ancas leves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços

Vício de um corpo:
o teu
com o seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em segredo
nado
em cada espasmo

digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria
do corpo sem disfarce

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cores de parto

O que eu vi,
à nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,
a desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego
antes de, em linha e cor,
o mundo se revelar.

O que depois vi,
ainda sem saber que via,
foram as mãos.

Parteiros gestos
me ensinaram quanto,
das mãos,
a vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram,
assim, o meu segundo ventre.

Luz e mãos
moldaram a impossível fronteira
entre oceano e ventre.

Luz e mãos
me consolaram
da incurável solidão de ter nascido.