Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

domingo, 31 de julho de 2011

Remorso

Durante a leitura nocturna
descia, às vezes, as escadas
e procurava no escuro, dentro
de um cesto, uma forma
redonda. Na quadra iluminada
do quarto, mordia depois a maçã
vermelha escura. Era enorme o ruído
dos dentes, no silêncio dessa hora
tardia e irremediável a culpa
de ter destruído aquela polpa húmida
de onde pendia o descarnado pé
no íntimo saber de pequenas sementes
que podia perfeitamente
ter apodrecido em paz.

Do livro: "Cem Poemas Portugueses no Feminino"

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luís de Leon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Do livro: "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

domingo, 24 de julho de 2011

Quero conhecer ainda o peso incandescente
de uma lua submersa sob a minha língua
tão larga como a minha omoplata
tão fulgurante como o gume do meio-dia
Criá-la-ei com o ovo da saliva
e com o virtuosismo das minhas virilhas de fêmea
Deixarei crescer o corpo como um monte
e fecharei os olhos num suspiro de pássaro
Com um punhado de sémen fecundarei o ovo
e com o bafo do meu silêncio ouvirei a sombra
que envolverá o corpo dessa mulher ou lua
Tornar-me-ei real para adorar o meu fruto
tão vivo como a minha ferida tão magnético como um falo
Será uma lenta descida para a terra
uma inundação vermelha com os pulmões do vento
No barco de uma folha uma nuvem vai-se transformando
numa redonda árvore de fragrante estatura

Do livro: "Os Animais do Sol e da Sombra / O Corpo Inicial"

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A tua boca. A tua boca

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Do livro: "125 Poemas - Antologia Poética"

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vamos trocar

- Vou comprar uma mãe nova
e um pai do meu agrado.
Devem-se escolher os pais
que temos ao nosso lado.
Uma mãe que deite notas
pela boca, pelo nariz,
um pai que deteste a escola
e me leve para Paris.
- Boa ideia, trocar filhos -
disse o pai e mais a mãe.
- Venha um filho muito amigo,
que é o melhor que se tem.
Fiquei meio embaraçado.
Que havia de decidir?
Dei-lhes logo um grande abraço
e desatámos a rir.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Flor de estufa

Senti o mar gelado e a espuma branca
do mar frio, é o norte, o longínquo norte,
dizia meu pai, sentado num cadeirão
com setenta e cinco por cento de verde
e vinte e cinco por cento de branco.

Sentia aquilo tudo, e juntava um arrepio,
um sério arrepio glacial. Na última página
dois esquimós fizeram-me ainda mais frio,
espirrei de frio e de arrepios, eram as palavras
dele, porque me falava com muita expressão.

As pequenas argolas de arame já não têm tinta,
também elas eram brancas, e frias. Os meus
dedos gelavam se lhes tocavam, meu pai,
embalado, nem reparava como eu tremia
de frio, embora muito atento o escutasse.

As minhas injecções, as minhas amiverinas,
as minhas cápsulas, as minhas vacinas,
a minha falta de ar, as minhas correntes de ar.
For de estufa foi justamente aplicado,
contudo a sua mãe era o frio imaginado.

domingo, 17 de julho de 2011

Uma conspiração de estúpidos


Tinham-me oferecido este livro e por mais de uma vez, olhei para ele, mas não me decidia a lê-lo. Acabei de o fazer ontem e não estou nada arrependido.

Foi escrito por um americano, nascido em Nova Orleães, John Kennedy Toole, sendo o seu segundo e último livro publicado após uns anos da sua morte (suicidou-se em 1969), e ganhando o prémio Pulitzer de ficção em 1981. Este livro faz parte da literatura cómica universal. É uma história hilariante, grotesca, trágica por vezes. As personagens e os acontecimentos são quase surrealistas. Para quem quiser rir-se um pouco…

A guerra

A hiena uivou toda a noite
o bicho esfomeado uivou toda a noite
as vozes saíram das casas
como o fogo se levanta das cinzas
altas todas juntas no medo
os dentes dos guerreiros
batiam sem parar
os pés das velhas juntaram-se para aquietar a poeira
um companheiro nosso não regressou
o filho único de nossas mães
não vai voltar de pé
é só o seu cheiro que volta agora
e um corpo separado daquilo que era antes
um filho dos nossos não regressou
a hiena uivou toda a noite
a terra ficou dura sob os nossos pés.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

No voo de um Anjo

Da janela do quarto,
A tua fobia suspirava...
Esperavas pelo anjo,
Que tardava.
E dos jardins de Éden,
Irrompe num voo inaudito,
O anjo que aguardavas
No teu lugar interdito.

E, no silêncio do quarto,
Só o teu esgar não negou
A Eternidade de um beijo
De quem ao momento se entregou.
E, com o desvelo de um abraço
De um anjo eterno que voou,
Imunizaste no leito
O amor que, no quarto, deixou.

No voo de um anjo,
Onde flutuavas,
Desarvorou a dolência
Que tanto exorcizavas.
E, no parapeito do postigo,
Lá se despediu
O teu anjo perene
Que só o teu olhar viu.




terça-feira, 12 de julho de 2011

Posso escrever os versos mais tristes esta noite

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.


sábado, 9 de julho de 2011

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O vazio talvez não seja o vazio
que rodeia monotonamente as casas
e é o grande vencedor final de tudo quanto é cheio
Porque o vazio acolhe o pássaro
e é cúmplice da folhagem e das grandes vigílias dos pastores
e cada sílaba vibra nos seus confins sem fronteiras
Se o sentirmos como ameaça para a torre da nossa identidade
ou como uma devastação que destruirá todos os apoios
é no entanto com ele que devemos criar um equilíbrio
sem espelhos falsos nem a eloquência vã dos simulacros
O nosso horizonte é de adeuses porque é um horizonte vazio
e por isso um começo de algo que não sabemos
e é o fruto de um fogo nu um pássaro do vazio
Se queremos ser acolhidos apoiemo-nos sem nos apoiar
naquele que não tem voz nem mensagem mas é inicial
Se o vazio pulveriza os espelhos liberta o nosso olhar
para além da luz e para além da sombra
como se do fundo ascendesse uma nascente oblíqua
que nos tornaste o estrangeiro fiel de um palácio vazio

terça-feira, 5 de julho de 2011

Divindades

São pobres os deuses
da minha terra.

Desnutridos,
padecem de malária
e pedem esmolas aos devotos.

Descrêem de si mesmos
e não há relicários
que não tenham roubado
nas igrejas que se alugam
à ingenuidade dos mais crentes.

Um dia,
se for feita a nossa vontade,
consolaremos estas divindades
da incurável doença
de serem tão nós,
tão sós,
tão nada.

sábado, 2 de julho de 2011

Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Nome do Cão

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que via,

nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava

ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido em que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: «É a vida...»