Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quotidiano

Sou eu. Sabes quem sou?
Não, não digas nada.
Sei apenas que estou
Acabrunhada.
E se inclino o rosto,
Se pareço uma pirâmide truncada
com sobrecasaca de frio,
é porque não gosto
de puxar o fio
à meada.

(Escadas escuras
subidas dia a dia.
Pernas cansadas
e solas gastas.
Harmonias acabadas
num gesto torvo.
Tremenda nostalgia
de iluminações vastas
e de calçado novo).

Pernas cansadas? Sim.
Magras? Talvez.
Aqui, onde me vês,
já fui assim
...roliça,
como bocejo na hora da preguiça...

Aqui, onde me vês,
não é a mim que me vês.
É a magricela
que sobe aquela
escada de sonhos desiguais
que me constrangem.

- E ainda para mais
os meus sapatos rangem.

Do livro: "Cem poemas Portugueses no Feminino"

Amargos como os frutos

Amado, por que voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

       Onde deixaste a tua voz
       macia de capim e veludo
       semeada de estrelas

Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos

Do livro: "Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos"

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A pintora Delfina Mendonça

Insularidade

Uma ilha mente.
Uma ilha é um obscuro ventre de inacessível
ouro derramado,
incandescente.
Os nervos estremecem ao fundo das crateras.
O sangue corre pelas ribeiras onde enlouqueci,
na fermentação das canas,
alheio às conspirações.
Os filhos esquecem a minha arte sem doçura,
recusando o fruto.
As vinhas apodrecem e nem o sonho as
devolve.
Há um amargo caule que mergulha na
exactidão da lava,
corolas silenciosas, por florir.
É sempre tarde quando amanhece na
orquídea.

Do livro: "Paixão e Cinzas"

domingo, 21 de agosto de 2011

O pintor Lucian Freud

Mãe ilha

I

Limão aceso na meia-noite ilhada,
O relógio na torre da Matriz
Põe o ponteiro na hora atraiçoada
da ilha que me deram e eu não quis.
Mas, ó de alvos umbrais Ponta Delgada!
Meu prefixo de pastos, a raiz
É de calhau e de onda encabritada:
Um triz de hortênsia e estala-me o verniz.
Atamancada em fama a tosca ilhoa,
Só na praça e no prelo é de Lisboa,
Seu gesto, cãibra de garça interrompida.
No mais, o osso campesino e duro
É fervor, é fogo e fé que juro
Ao lume e às flores da Graça recebida.

II

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p'ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p'rás Índias do meu estranho caso
- ó danos que dos versos sois o engaste!-
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canto dos orfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.
Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e à onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.

III

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrumada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os fetos e não havia lei.

As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia Rei.

Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.

Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas.

IV

(Sempre que ouço piano)

Por lentas alamedas musicais
Chegam-lhe as tuas mãos ledas e leves;
Trazem-me a valsa que enchia de cristais
A casa e eras de louça mãe de Sèvres.

Lá nas fajãs partiu-te um sopro a mais
Que a morte é cio de belezas breves,
Mas, ó mistério de dedos siderais!,
Um triz de música e uma azálea escreves.

Mãos que me levam lácteas pelos cabelos
(Lembras-te? eram anéis dos teus anelos)
Para a ilha. No teu seio o mar arfava.

Mãos doceiras das flores com que cobrias
O meu sono. Mais música! Para os dias
De opala, mãe de mel, falta uma oitava.

V

Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.

A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam.
De azáleas lívidas a ilha se cercou.

A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.

E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.

Do livro: "Sonetos Românticos"

Tropeço de Ternura por Ti

   É simples a separação.
   Adeus.
   Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar
costas um ao outro.
   Já não há gestos. O derradeiro(impossível) seria
não desfazer o abraço.
   Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da
remembrança.
   Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara
dos cabelos.
   Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na
caixa do correio. Sobra o telefone.
   Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.
   Tensão-telefone. Possibilidade de voz não póstuma.
   No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.
   Sobra o telefone. Mudo.
   Retininte?
   Sobrarão as cartas. Sobra a espera.
   Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória
recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desen-
rolámos desesperados de separação.
   Sobra a separação.

Do livro:"Anos 70 Poemas Dispersos"

sábado, 20 de agosto de 2011

parto

há pessoas que têm medo de dizer o que pensam
há pessoas que têm medo de dizer o que sentem
há pessoas que têm medo de pensar o que dizem
há pessoas que têm medo de sentir e não dizem
há pessoas que têm medo de não dizer o que não
                                                                 [sentem

há pessoas que têm medo de falar como quem não diz
beijar como quem não ama
sorrir como quem sofre
nascer como quem chora
fugir como quem regressa
caminhar como quem dorme
chorar como quem sonha
há pessoas que têm medo
tanto medo que não conseguem caminhar
e cada passo que dão só os leva para o mesmo sítio
para o útero da mãe que é quente e confortável e tem um sofá com naperons
                                             [nas costas que os faz sentir quentinhos  seguros
e aí todos somos o mesmo
aí todos somos um
aí todos somos aquele que ainda não chorou mas que está quase
e quando começar já não se pode voltar para trás
e passamos toda a vida com olhos na nuca a querer voltar para casa
a querer voltar para dentro porque neva lá fora
e lá dentro é tão quentinho
deixem-me entrar
agora
depois é tarde demais
deixem-me ser o antes
quero ser o antes     antes que seja tarde

Do livro:"a verdade dói e pode estar errada"
Acompanhavas-me aos concertos de piano,
fazias um grande esforço para abrires a boca
só até metade, para que eu não reparasse.
Quando te cansaste de me acompanhares,
começaste a cansar-te de tudo e mais alguma coisa.

Não alcanço o suficiente para saber
se essa mudez é um teu trágico destino
ou linguagem que descobriu tudo de mim
e não o diz, deixa que seja eu a perceber.

A tua voz quando falas com os outros
não é a mesma voz que te conheci - em cartas,
como estilo, como canto de pássaro
que não se sabe onde morre. É uma voz
a meter-se para dentro, uma voz cansada.

Dois nadas, duas figuras de parvo, nós
soubemos dá-los, desfazê-los é que não.
Pelo sim pelo não encomendámos a alma
aos caçadores de sentidos e desgraças.

Do livro:"Mútuo Consentimento"

Amedeo Modigliani

Tchaikovsky - Valsa das Flores

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Outra Voz do Público:

Mas onde está ela, onde está
ele, onde está esta gente
ou alguém por ela,
ou alguém por ele,
nisto que não existe
porque não pode,
porque não pode existir,
porque no escuro não há,
não há ele nem ela
nem há sequer eu?

E porque é que todos aqui nos perguntamos?
Porquê tantas perguntas?
( E até eu pergunto,
sim, até eu me pergunto
aqui sentado neste duro pau
não sei, não sei até quando.)

Do livro: "Um Teatro às Escuras"

Unida ao Corpo Só

Perdes o pejo
Na aventura que vês em mim
E abraças o fogo
Da loucura do peito carmesim.
Bebes o ensejo no instante fecundo,
Sulcas a paixão no regaço do Mundo.
Vem… Sacia a sede que se insurge
Na voz que modula a liberdade que urge.

E salvas, enfim, a amarga nação
No viço de um beijo, em pleno Verão.

Unida ao corpo só,
Dança no tempo, aqui
E desata o nó da ilusão em ti.

Despes a alma
Que se entrega no leito quente
E sentes a sombra
Que não nega a noite premente.
Segues a silhueta no pez da estrada…
Eis a revolução na terna madrugada.
Vem… Afaga a mão que resiste
Na tez que espelha a luz que persiste.

E salvas, enfim, a amarga nação
No viço de um beijo, em pleno Verão.

Unida ao corpo só,
Dança no tempo, aqui
E desata o nó da ilusão em ti.

Matas a dor no alento,
Amas o céu no vento
Sobre o chão alado do silêncio.

Unida ao corpo só,
Dança no tempo, aqui
E desata o nó da ilusão em ti.


(Letra de uma canção registada no IGAC)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tanta Gente Mariana


Numa visita à Feira do Livro em Sintra (pequeníssima em barracas de Editores), deparei num Alfarrabista (felizmente) com um livro que andava para adquirir faz tempo. “Tanta Gente Mariana”, da escritora Maria Judite de Carvalho, por um preço de 5 euros. Uma 2ª edição de 1960, impresso numa tipografia do Jornal do Fundão. Uma quase relíquia!

Como anteriormente já tinha lido desta autora, “Os Armários Vazios”, tinha curiosidade em conhecer aquele que foi o seu primeiro livro em prosa. A curiosidade tornou-se em satisfação pessoal, após a sua leitura. É uma narração sobre várias peripécias da vida, na qual nos poderemos retratar: a solidão (tema cada vez mais actual), o estar sozinho mesmo que acompanhado, a morte como alguém da família, o adultério, os divórcios e suas consequências, a pobreza, o trabalho sem prazer, o cansaço dos dias repetidos até à exaustão, numa época do Estado Novo, em que se vivia aceitando o que a vida nos dava, sem esperanças de que alguma coisa mudasse para melhor – e por isto mesmo, cresce em nós, uma identidade temporal.Gostei muito!

domingo, 14 de agosto de 2011

Citação (Albert Einstein)

"Aquele que apenas lê jornais e, quanto muito,
 livros de autores contemporâneos, assemelha-se
a um míope com muitas dioptrias e com
vergonha de usar óculos. Fica dependente dos
juízos e modas do seu tempo, já que nada mais
vê, nem ouve. E o que uma pessoa pensa por si
mesma sem recorrer aos pensamentos e
vivências de outro é, na melhor das hipóteses,
igualmente pobre e monótono. São poucos os
indivíduos inteligentes, com um espírito e
estilo distintos e de bom gosto ao longo de um
século. O que deles se conserva faz parte da
herança mais valiosa da Humanidade."

domingo, 7 de agosto de 2011

Menina dos olhos d'água

A pintora cubista, espanhola, Maria Blanchard

Lixeiro

Pendurado num camião do
lixo atravessas a cidade

de bairro em bairro de rua
em rua de beco em beco

com as luvas de protecção e
o colete fluorescente.Conheces

como ninguém o cheiro
a azedo e a vomitado...

Não te surpreendas se um dia
destes descobrires um coração

ainda a sangrar embrulhado
num saco de supermercado.

Do livro: "Porto de Abrigo".

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Citação

(...)Que a ressurreição não é um acto de potência
 divina, mas a suprema manifestação de amor.
 Dar a vida não chega, não é um acorde consonante
com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.

Maria Gabriela Llansol em "O jogo da Liberdade da Alma"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida
à volta da cabeça pronta a rebentar
mesmo que fossem quatro apenas as paredes
quatro paredes são de mais para uma vida
e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da
                                                  gramaticalidade
pura pura negação da vida três palavras onde
se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar
e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração
                                                                               verbal
há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente
                                                                         o adjectivo
que substituo por razões de métrica mas são palavras como
por exemplo vida e há muito haver deixado a minha
                                                                      infância
coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa
                                                                       significa
e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida
que não leva talvez gravata mas que tem vida privada
gulosamente devassada por vizinhos companheiros
                                                                de trabalho
e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ó meus deus
ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande
                                                             merda esta vida
Talvez haja a janela haja árvores e céu
talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor
que talvez una uns com os outros estes dias
talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída
Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?
Sempre em mim e ao que chamam coisas há-de haver
                                                                         palavras
e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas
mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida
onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro
                                        descendente de um tirano
e a mãe desse tirano descendente que podia ser
                               tamanha como simples mãe
é mãe por profissão por pose pela posição da tão tonta
                                                                            cabeça
multiplicada pelas capas das estúpidas inúmeras revistas
forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria
                                                                          ao real
cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já
                                                                   nada começa
criança que sabe quantos quilos pesa que cor tinha
a primeira e menos metafórica das merdas que cagou
e o pai da criança que horrorosamente se apresenta
                                               como pai profissional
como marido inteiramente a par das regras da mulher
meu deus que merda metafórica esta merda desta vida
E ter eu de passar a vida à procura da chave
e procurar abrir e não saber da chave
e não existir nunca porta ou chave
e chave ser palavra ambígua ter sentido
e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos
e a vida ser só uma e ser a vida
e haver mãos para as coisas gestos para as mãos
e não haver que porra uma saída
E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista
e tudo quanto faço interpretado e comentado
e haver nomes e eu ser isto e não aquilo
e eu sentir-me em nomes encerrado
Quero dormir não ter esta doença de pensar
estender-me sob o céu o mais possível ao comprido
e que bastante terra cubra o meu comprido corpo
e eu seja terra apenas e a terra nada seja
Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só
para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

Do livro: "País Possível"

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Memória

esta vertigem volta agora
quase sempre ao entardecer para me contemplar
lá do alto onde costumavas mas
não, não és tu quem espreita agora pela
vidraça na calada da noite
projectando nas paredes uma sombra de pássaros
não és tu quem povoa a exiguidade da casa
imersa nas ruínas de
quem ecoa na ventania que se expande
pelos braços da avenida
subindo a cidade como
um mar de mosto pesando sobre as têmporas

não, já não és tu.

e à mesma memória sobe-me então
uma imagem de lareira antiga como a
daquela casa de família no Alentejo
onde pairas ainda após anos de ausência porque
para mim serás definitivamente essa
eterna viajante afastando-se devagar
em direcção à tundra gelada que precede
os meus gritos na noite
digo-to, finalmente
pertencerás para sempre a esse lugar que
visito todas as madrugadas onde
suspiros da lareira a um canto rouco
nos presenciavam em silêncio até ao fim da noite

ouve:sei.sei,

não encontrarás tão cedo outro
continente de eternidade, outra floresta
com pirilampos e neve e sempre
este sino ao longe
viajo contigo na distância dos anos
e mesmo que eu chore, sim,
mesmo que eu chore e te
envie algum dia o choro numa carta

Do livro: "Cem Poemas Portugueses no Feminino"