Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sozinha no Bosque

Sozinha no bosque
com os meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

Do livro. "Cem Poemas Portugueses no Feminino"

O pintor Mário Eloy

Figura marcante do Modernismo Português. Tem colecções no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna, na Casa de Serralves e ainda em várias colecções particulares.


A fuga


O poeta e o anjo


Auto-retrato


Le peintre


Lissabon


Bailarico


Auto-retrato

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A pintora Júlia Calçada

Pintura a óleo monocromática,a exploração de tons e as sombras fazem lembrar fotografias a preto e branco. Corpos de mulher e bailarinas são os temas escolhidos. Veja algumas pinturas em baixo e desfrute da beleza.








quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Morte ao meio-dia


No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Relembrando Miles Davis - morreu em 28 Setembro 1991

Relembrando Victor Jara -Nasceu em 28 Setembro 1932

domingo, 25 de setembro de 2011

Leonid Afremov - Utilização da técnica de espátulas e cores vibrantes a óleo









Fariseias


Gostam de ser cumprimentadas
nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons dias às mulheres-a-dias


sábado, 24 de setembro de 2011

Virilha contra virilha

                                                  Virilha contra virilha
          reconstruo o meu corpo
           colado ao teu. Choro.
         Não estás a meu lado.
         Virilha contra nádega
      asas de salvação efémera
        reconstruo o teu corpo
         junto ao meu. Choro.
          Sem os meus braços
      envolvendo-te a cintura,
         sem as tuas pernas
       no meu pescoço, sem
    a tua mão moldando.se
          ao meu ventre
  choro: não estás ao meu lado.
            Sem a tua boca
  no meu peito, a tua língua
  no meu sexo, os teus seios
       soltos, desenfreados
choro: não estás a meu lado.
       Sem as tuas fendas
e lagos sou um pobre animal
     desamparado, e choro
sobre o teu ninho nos lençóis
em que não posso derramar
o olhar o sémen as palavras
de quando estás a meu lado.

O pintor Henri Matisse

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

para a minha avó materna




os pés descalços feriam a poeira
era o seu modo de andar
à cabeça a baçanica que no regresso
protegia do sol
com o olhar me levava melhor
que pela mão

a fúria dos seus passos retinha-se
quando abria as pernas
e a urina levantava uns salpicos de lama
a quase sombra do alvorecer
a promessa de uma fonte sob o sol
esperava que o teu olhar
reconduzisse os meus passos à soleira
onde um dia te estenderam seca e térrea
como um galho de figueira.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

As mulheres de Paul Delvaux- Ambientes melancólicos, nostálgicos. As mulheres parecem hipnotizadas...









O uno duplo

Os secretos ornamentos do pudor, adoração
de íntimas árvores e de um dorso sem estrelas,
aliança soberba de dois seres numa árvore,
deus semelhante ao sossego do mar e das montanhas,
as mãos na obscena fenda da terra incendiada,
a língua na glande e nos cabelos verdes,
o rio nas ancas, silencioso ciclone,
a volúpia da mão sobre as pernas de vespa,
o palácio do púbis, a negra arquitectura,
argila e ar e luz de uma floresta natal,
o êxtase de ser duplo sobre a língua da terra.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Desilusão de Judas


A Desilusão de Judas de António Ganhão é uma história em que o narrador é simultaneamente o assassínio em série. Trata-se de uma figura da classe média, licenciado em Matemáticas, funcionário bancário exercendo funções no Contencioso do Banco Borges & Irmão, em Lisboa, morador no Barreiro, terra de profundas raízes operárias, católico praticante, vai à missa na paróquia do Lavradio e exerce funções temporárias a pedido do padre Carlos na igreja de Nossa Senhora do Rosário. Tem uma escassa vida social: um casal amigo da mulher que por vezes jantam juntos e algumas tertúlias com os colegas do banco nos intervalos de almoço e de escapadelas para fugir à rotina, principalmente num restaurante que todos gostam e frequentam: “O Calçadas”. A acção decorre entre o Barreiro e Lisboa, com as travessias quase diárias do Tejo por barco; de que gosta muito. Trata-se de um romance do tipo policial, não totalmente pela falta da figura do detective particular ou alguém que o substitua na pesquisa de pistas e provas para o desenlace do romance. A figura principal é uma espécie de justiceiro inquisitório mais sofisticado, obedecendo a uma consciência sacramental que o leva a praticar os crimes como uma redenção social, pelas suas próprias mãos, de forma limpa, rápida e perfeita: ” Aquele bordejar do brandy, sem pingar, era para mim uma das marcas da perfeição.”. Traça-nos também um retrato da forma como a polícia judiciária actua e como a justiça é perene.
Fico à espera do próximo livro. Felicidades para o António Ganhão!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Primeiro a tua mão sobre o meu seio

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

Do livro: " Cem Poemas Portugueses no Feminino"

domingo, 18 de setembro de 2011

O que Dói às Aves


                                        1

Já nem silêncios nos restam
de tudo o que antigamente nos sobrava
das madrugadas limpas
onde o canto das aves nos ensinava
o caminho de casa

hoje os teus olhos perderam-se pelas ameaças da noite
e sei que só eu espero ainda o milagre
de um gesto perfeito    (outros dirão perdido)
que traga de volta à minha pele as marcas do suor
com que falavas de mim como de um país
a que irias sempre regressar

- mas isso era no tempo em que
ainda guardavas na algibeira as palavras da infância
com que entraras um dia no meu corpo e na minha vida

e tudo tinha o destino tranquilo
de uma criança a atirar pedras à lua