Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

domingo, 30 de outubro de 2011

Um poema de Graça Pires

A pão sabem as palavras,
quando a brisa do sul nos roça a cara.
Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos
e sob o peito( o teu, o meu), alastram ramos
transparentes que sustêm, na casa,
a trave-mestra, como se a raiz
de cada árvore nos amarrasse
as veias ao destino do coração.

Do livro: " Cem Poemas Portugueses no Feminino"

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poema-Orelha

Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
( ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.

video
Leitura do poema - Vasco Barreto.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Casa








( Para Vermeer)


Tudo continua
exactamente
como tu deixaste
na pintura.
A janela
esquiva
iluminando
a perspectiva
de uma casa
quente e escura
o olhar
pousado numa carta
acabada de chegar
o leite
atravessando
a terra da ternura
e uma ligeira
poeira
de música no ar.

Tudo continua
exactamente
como tu deixaste
a flutuar.





Três telas do pintor Vermeer : 1-Leitora à janela;  2-A leiteira; 3-A aula de música


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Tanta Terra










Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me

no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem se eu gritar, me ouvirá entre as legiões dos anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.


William Faulkner - " A Luz em Agosto"


William Faulkner, prémio Nobel de Literatura em 1949. Nacional Book Awards em 1951 e em 1955. Venceu dois prémios Pulitzer, o primeiro em 1955 e o segundo em 1962.

O prazer de voltar a ler, “A Luz em Agosto” de William Faulkner.

Três pequenos excertos do livro:

(…) Nessa altura ele não compreendeu o que ela queria dizer com isso. Foi só posteriormente que o seu pensamento se iluminou outra vez, completo, como uma frase escrita: «Ela pensa que eu o trouxe para cá para a manter afastada. Ela julga que eu penso que com ele ali, ela não se atreverá a ir até à barraca; que será obrigada a deixar-me em paz.»
Assim ele interiorizou a sua convicção, o seu medo de que ela poderia fazer alguma coisa por ele lhe ter revelado aquilo. Ele supunha que, visto que ela tivera esse pensamento, a presença de Brown não a deteria, mas que até seria um incentivo para ir à barraca. Como já passara um mês sem que ela fizesse qualquer coisa, sem tomar qualquer iniciativa, ele acreditava que ela deveria estar prestes a entrar em acção. Agora, também ele ficava acordado durante a noite, mas pensando, «Tenho de fazer qualquer coisa. Hei-de fazer qualquer coisa.»(…)

(…) Ele vive ali sozinho. Ele veio para cá como pastor da igreja presbiteriana, mas a sua mulher enganou-o. Ela escapava-se de vez em quando para Memphis para passar uns bons bocados. Isto foi há cerca de vinte e cinco anos, ou seja, logo depois de ele ter vindo para aqui. Algumas pessoas dizem que ele sabia disso. Que ele próprio não podia satisfazê-la e que sabia do que ela andava a fazer. Então, num sábado à noite, ela foi assassinada, parece que dentro de uma casa, em Memphis. Os jornais não falaram de outra coisa.(…)

(…) Conforme se aproximavam da cozinha, caminhavam lado a lado. Quando a luz da cozinha se projectou sobre eles, o homem parou e virou-se, inclinando a sua cabeça inquiridor:
      - Andaste a lutar – disse. – De que se tratou?
      O rapaz não respondeu. A sua expressão era calma e composta. Passado um bocado, respondeu. A sua voz era tranquila, fria.
       - Nada.
      Ficaram parados.
      - Queres dizer que não podes contar ou que não tens vontade de contar?
      O rapaz não respondeu, mas não baixara o seu olhar. De facto, não olhava para nada.
      - Bem, se não sabes, então és um estúpido. E se não queres contar, então foste desonesto. Estiveste com uma mulher?
      - Não – respondeu o rapaz. O homem olhou para ele, e depois falou com um tom divertido na voz:
      - Nunca me mentiste, que eu saiba – olhou para o perfil calmo do rapaz.
      - Com quem andaste a brigar?
      - Contra mais do que um.
      - Ah – exclamou o homem. – Espero que os tenhas deixado marcados!
      - Não sei. Talvez.
      - Ah. Vai lavar-te. O jantar está pronto. (…)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

António Ramos Rosa - "Os Animais do Sol e da Sombra"











Se escrevo retiro-me do presente
mas para nele circular
e mesmo que as minhas flechas se precipitem no deserto
uma instantânea torre
mostra-me num vislumbre o rosto amado
na sua fragilidade indemne
de lâmpada do tempo
e de pura eternidade de um instante solar
E embora num voo incerto estou no centro
da liberdade viva que projecto
e sob a cintilante arca terrestre
em que a vida se renova em sal e pólen
e em plena plenitude de porosa nudez
Se é verdade que cada pista segue o seu caminho solitário
e que todas elas se encontram no deserto
na morte
ou no silêncio de Deus
eu sigo o murmúrio da saudade perfeita
acesa nos olhos de uma serpente submersa


Pintura a óleo de Leonid Afremov - "Porto de Emoção"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O pintor italiano Amedeo Bocchi

Flor de Lotus

Êxodo
O chá
Bianca sentada no jardim
A debulha
Bianca

Somos











Somos carne, somos pele, somos ossos.
Somos assombro ou sombra, luz ou treva.
Chamam-nos gente e dizem-nos:
um homem bom, uma mulher ardente,
um zé ninguém, um estorvo, uma
Maria mais de deitar sem dormir.
Têm medo de nós se somos prumo.
Fazem troça de nós se está vazia
a gaveta do oiro.
Somos sangue e suor e sémen e saliva,
as dores da terra, a pressa dos rios,
as águas do amor.
E o cansaço, esta vara atravessada
de ombro a ombro
que nos sustem o corpo e nos perfura
os sonhos, o desejo.
Somos tudo, somos nada, somos ontem, somos
hoje. Podemos amanhã ser a saudade e com ela
fazer uma estátua,um poema, a rosa branca de
toucar, um beija-flor ou a boca que se deixa beijar.
Somos isto. Um animal que ri e luta e chora
e desanima e se reergue e abraça o dia
de vindimar, ou de cozer o pão, ou de continuar
a escrever o livro sempre por acabar.

Tapeçaria de Almada Negreiros - "Domingo Lisboeta"


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O pintor Evaristo Valle










da varanda











          I

procuro o silêncio
nesta paisagem de chuva
que deixa a cidade fria
com cheiro a mágoa
como se quisesse apagar a vida.

procuro o silêncio,
os olhos doentes de medo,
a vontade de ser diferente e,
por vezes, ter lágrimas.
a sanidade é agradável e calma,
mas já não existe a grandeza
dos vales profundos do inconsciente.

procuro o silêncio
nesta paz que não tenho.


Noite de Sonhos Voada













Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca amordaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper da madrugada:
 - Ó meu amor, já é dia!...


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Resignação

No mais pobre retraço de papel,
Como a uma mão suja se dá água
Escreverei o amor que tenho à vida.
Não direi nada de cruel;
Foi justa a mágoa
Dela havida.
Direi apenas que essa carta
sem bico de ave ou selo posto
É como um anjo que se aparta
No seu angélico desgosto


Vitorino Nemésio in o Pão e a Culpa
Desenho: Vasco Barreto.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A pintora espanhola Montserrat Gudiol











Nina Simone - Mood Indigo Lyrics

Cinzas 1948-1949-1950

                                         XX

       (Aproveita a dor pessoal para te imaginares maior)

Nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.

Transforma-o noutro violino de astro fundo
 - para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo...
(embora te gele).

Do livro:"Poesia III"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Veredicto











Quem confessa, à porta fechada, a evidência do
crime?
O corpo mata.
Arremessa os seus ferros, desvairadamente,
fustigando a carne.
Flagela-se, quando toda a saudade é
a saudade do amor.
As pálpebras fecham-se, sem se ouvir.
Um soluço fere o silêncio da garganta, as
arestas do desejo.
A sua cor é vermelha em plena cicatriz,
eternizando a culpa.

O Encenador:

Tudo me ultrapassa
e ninguém me obedece.
Será isto uma peça?
Talvez uma arruaça
(pelo menos parece)
mas nada que se esqueça.
Sem luz ninguém dirige
palavras, corpos, gestos,
ou a fremente mão
que deslisa ou transige
e fora dos contextos
toma a sua feição
de quem se regozije
dizendo sim e não.