Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O Grande Oceano

Se os teus dons e das tuas destruições,
Oceano, as minhas mãos
pudesse destinar uma medida, uma fruta, um fermento,
escolheria o teu repouso distante, as linhas do teu aço,
a tua extensão vigiada pelo ar e pela noite,
e a energia do teu idioma branco
que destroça e derruba as suas colunas
na sua própria pureza demolida.
Não é a última onda com o seu salgado peso
a que tritura costas e produz
a paz de areia que rodeia o mundo:
é o central volume da força,
a potência estendida das águas,
a imóvel solidão cheia de vidas.
Tempo, talvez, ou taça acumulada
de todo movimento, unidade pura
que não selou a morte,verde víscera
da totalidade abrasadora.

Do braço submerso que levanta uma gota
não fica senão um beijo do sal.Dos corpos
do homem nas tuas margens uma húmida fragrância
de flor molhada permanece. A tua energia
parece resvalar sem ser gasta,
parece regressar ao seu repouso.

A onda que desprendes,
arco de identidade, pena despedaçada,
quando se despenhou foi só espuma,
e regressou para nascer sem se consumir.
Toda a tua força volta a ser origem.
Só entregas despojos triturados,
cascas que separou o teu carregamento,
o que expulsou a acção da tua abundância,
tudo o que deixou de ser cacho.

Sua estátua é estendida além das ondas.

Vivente e ordenada como o peito e o manto
de um só ser e suas respirações,
na matéria da luz içadas,
planícies levantadas pelas ondas,
formam a pele nua do planeta.
Enches o teu próprio ser com a tua substância.

Tornas repleta  a curvatura do silêncio.

Com o teu sal e o teu mel treme a taça,
a cavidade universal da água,
e nada falta em ti como na cratera
destampada, no copo rude:
cumes vazios, cicatrizes, sinais
que vigiam o ar mutilado.
As tuas pétalas palpitam contra o mundo,
tremem os teus cereais submarinos,
as suaves algas penduram a sua ameaça,
navegam e pululam as escolas,
e apenas sobe ao fio das redes
o relâmpago morto da escama,
um milímetro ferido na distância
das tuas totalidades cristalinas.

Do livro: "Neruda - Antologia Poética"

Sem comentários:

Enviar um comentário