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Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poema do homem duplo

Para lá das cortinas boceja a madrugada.
Os homens estão dormindo. A Natureza é morta.

Algures num quintal ouve-se um cão latir
e outro cão mais distante lhe responde.
Ambos entram no sono e nele se dissolvem.
A voz do cão é a alma do silêncio,
a vitória do som sobre o plasma cinzento.

Estala um móvel, e o corpo adormecido
sem o ouvir estremece, mas de novo sossega,
reconstruindo breve a mansidão do sono.

Inspira (docemente). Expira(docemente).
Inspira (docemente). Expira (docemente).

Dormem.
Sem uma ruga só que lhes perturbe o rosto.
Serenas são as pálpebras que lhes vedam os olhos,
serenos são os lábios, serenas as narinas,
serena a oscilação do peito que respira.
Todos dormem, e enquanto dormem guardam
nos rostos as virtudes de quem dorme.

deitados sobre o lado,
a mão direita próxima do rosto,
a esquerda mais distante,
dormem.
Dormem serenamente
enquanto o sangue impávido circula
e o coração, sem consciência, o impele.
Sereno o corpo. Sereno o rosto. Tudo sereno.

Os alvores da manhã penetram nas cortinas,
timidamente aclaram os móveis e as paredes.
Abre-se a luz, aos poucos, como as flores.
Movem-se os corpos.
As pálpebras descerram-se
e de novo se fecham.

Grita a luz.
Salta da cama o homem resoluto.
Enérgico, espreguiça-se,
lava-se, come, veste-se,
desce a escada, ruidoso,
abre a porta da rua
e olha,
olha em redor,
olha com os lábios presos
e um vinco aberto fundo entre os sobrolhos.

Eis a fera que assoma à orla da floresta.

Do livro: "Poemas Póstumos"

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