Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poemas Inconjuntos











Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
( E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Pintor Marc Chagall

A Sinagoga

Auto-retrato

Flores na Rua

O Atelier

Nu acima de Vitebsk

Festa na Vila

O Violinista

O Malabarista

Judeu em oração

A Acrobata

No turbilhão








( A Jaime Batalha Reis)
No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

Numa espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

- Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sóis vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! E quem sou eu?!...












Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O pintor Pieter Bruegel (filho)

Batalha do Carnaval e da Quaresma

Os Sete Actos de Caridade

Preparação dos Canteiros de Flores

O Massacre dos Inocentes

Provérbios

O Caminho da Cruz

A Quermesse de S.Jorge

O Advogado da Aldeia

domingo, 27 de novembro de 2011

Carta de Condução











Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.

Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.

A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.

Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.

Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.


sábado, 26 de novembro de 2011

E Por Vezes











E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos   E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um Anjo no Porto










Eu vi-o um dia destes pairando
sobre a Torre dos Clérigos

ou descendo a Avenida dos
Aliados ao fim da tarde.

Disfarçava mal as asas
por debaixo da gabardina

e abdicara da auréola. Po-
dem não acreditar mas eu

vi-o. Da última vez atra-
vessava a pé o rio.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Mirtilo Gomes um dos heterónimos da pintora Tânia Bailão Lopes

                                                  A vaca voadora
                                   As nossas origens. Onde tudo começa.
                                O que te passa pela cabeça. Não alcanço.
                                                  Pirolito, o sonhador
                                                   Novas realidades
Os segredos da Primavera
                                                 A formiga Rabiga
                                                  As velhas do Amanhã

Tarde de mais...












Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braçoa abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Hoje Estou Naqueles Dias...

À volta o silêncio.
A tarde arrefece no sonho
da noite. As folhas deambulam
pelo chão, num trapézio de vento
em acrobacias de anjo.
As árvores nuas de braços
virados ao céu, suplicam.
Em baixo nas ruas,
aqueles que ainda há pouco tempo,
vibravam sibilantes, estão agora
inanimados, inertes de frio.
As pessoas de cabeça baixa,
circulam naquele cardal
pelos caminhos que rodeiam
as estradas da morte…

Eu cá do alto, onde moro
sinto o entorpecimento, a ausência
de calor; as espiadelas
nos rostos lúgubres,
o prenúncio de uma maldição,
um quebra-cabeças iminente.
Povo, para onde vais?
O tempo aguarda a tua vontade!
Há mais caminhos, para o futuro.
A barreira da troika invernosa cairá,
alcançaremos a Primavera
e logo a meta, a esperança do demolidor
verão, será alcançada.
E a fera que agora nos domina
fugirá, acossada pela coragem
dos que nada têm a perder.

Hoje estou naqueles dias…

Os Tempos Modernos












Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.

A carne nova come-se com velhos garfos.

Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.

As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O pintor Telmo Vaz Pereira

                                            O Corcunda de Notre-Dame
                                            O ritual da Luz


Poema dos Peles Vermelhas - Pintura na Areia











(Poemas mudados para português)

Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.

domingo, 20 de novembro de 2011

Cortejo Setembrino











de luto cintila a maresia
empilhando cravos
sobre cinzas.
embarcações tranquilas, rouquilentas,
fumegantes.
do choro, o som abafado;
da água, a esteira discreta.
mãos calmas, contrémulas,
aveludando o mar de cinzas;
mãos-cama contrépidas,
achatando o mar de cravos.
a morte, calma, espelhou-se do cimo
olhares de adeus.
algumas redes, algumas preces.

a vida inesticando-se,
fluido unissensorial.
a porta esgrimando acertadorias
contra o espelho

meu último espelho
sob o mar.