Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 31 de dezembro de 2011

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Autor: Carlos Drummond de Andrade




O pintor Cruzeiro Seixas



















sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Como está sereno o Céu

Como está sereno o Céu,
como sobe mansamente
a Lua resplandecente,
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza,
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Do livro: "Cem Poemas Portugueses no Feminino"

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O pintor Diego Velásquez



















Paisagem Com Amigos Pelo Meio



a primeira vez que tive vinte anos
esperavas por mim naquele café com nome
de porto grego    que faz a Grécia
no meio do bairro alto     dizias muitas vezes
mexendo o café que sempre bebias sem açúcar

depois descemos até ao rio      e prometeste
um barco por cada dia em que
os meus vinte anos voltassem
às tuas mãos naquele lugar

nessa altura envelheci muito depressa
ao ritmo das cartas em que prometia odiar quem
junto de mim dissesse
 - como era moda -
que os vinte anos tinham sido o melhor tempo
das nossas vidas

e o meu coração era então tão grande
que todos os que passavam
se serviam dele


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

26

De que me serve a poesia
se não sei dizer em verso
aquilo que agora em mim
anda confuso e disperso?

De que me serve a poesia
se a minha alma sem esperança
vai gritando dia a dia
que continuo criança?

De que me serve a poesia
se em vez de ódio e rancor
continuo a dar bom dia
à saudade e ao amor?

De que me serve a poesia
se dou comigo a chorar
quando vou de alma sombria
sozinha para o pé do mar?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

os olhos



se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo
       [para te ver melhor o rosto que me enche de bravura
e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero   porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da
      [corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade
e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão
                                                  [direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os
                                 [deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo      para eles não chorarem muito


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Estou só


Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro
ao veludo das manhãs.
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram,
que não adormeceram nos tapetes de flores.
E nós, que nos amamos para além do nevoeiro,
há muito a encobrir a nossa rua, beijar-nos-emos
no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas
onde repousa o céu.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Luiza Neto Jorge


                       ( Homenagem póstuma em forma de Centão)

Como tu, Luísa,
também eu, artífice
exalto o mínimo
o mínimo magnífico
que restitui à forma
o seu esplendor

O poema ensina a cair:
a cair em si
a cair na voz
É essa a lenta volúpia do cair
a arte inflamatória
que nos enche de feridas cíclicas
que cobrimos com essa outra mão
que é o peito
casa do mundo
crime ou pássaro talvez
raiz da ideia

À tua paz te liberto:
repousa muito aí.
As palavras não se repetem
nem o verso sai do sítio
em si, aí

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Apocalipse Pessoal

O meu ego derrama-se
orgânico esperma fervendo
de ódio
que ejacula na culpa
dos outros
onde te escondes, aporética
razão?
Não, Deus, não fui eu.
não neguei tudo, foram eles!
Todos! Todos eles!
Eu só reproduzi a lógica do que li!
Enforcado aborto
pendurado no quadro crescente
da cama da vida
que tu pariste
Lógica, para quê?
Tanto absurdo de reflexos
condicionados de ilusões
e não me lembro de nada!
Foi-se tudo e que ficou? Nada! Nada!
Que adianta abjurar
o ninho de harpias dentro
de mim
renegando a humanidade?
A culpa também é minha

Serigrafia de Miguel Barbosa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cante

Foi do silêncio da terra
que arrancaste a tua voz
para iluminares o caminho.

Como és generoso
achaste por mais honroso
não a cantares sozinho.

E como te brotou
em forma de lamento sem choro
projectaste-a em coro.

Contra o dia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Inês de Castro

Vai n'umas ricas andas de veludo,
Profundamente, a triste, adormecida
Estrangeira do mundo, alheia a tudo...

Vai na calma profunda do Além-Vida
Engrinaldada de murchadas flores,
A sonhadora fronte esmaecida...

Vai sonhadora! vai!..morreu d'amores!...
Atentai, seu sorriso inanimado
Como recorda indescritíveis dores!...

Vai-lhe o corpo lindíssimo embalado
N'um compassado ritmo indolente
Sobre o leito de flores, no andor formado!...

- Tal se embala a sonhar suavemente
Sobre um leito oloroso e florescido,
A Princesa que dorme Eternamente!...

Roça longo no chão, do andor caído,
O Veludo da cor que a Dor retrata
Como alongada cauda d'um vestido...

Cintilam n'ele as lágrimas de prata,
Ao clarão dos brandões que, vacilante,
O fio à aparição, ata e desata...

Cerca o andor o choro lancinante
Das fiéis açafatas que escolheu
Para a Morte Rainha o régio amante...

E ela sorri serena para o céu
N'aquele seu sorriso doloroso
D'anjo que as dores da terra conheceu...

sábado, 17 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

As Cruzes ao Longo das Estradas


São como sombras tristes, são como o outono.
Pode olhar-se para dentro das cruzes ao longo
das estradas, são como poços, são como filhos

perdidos. As cruzes ao longo das estradas estão
cobertas por flores de plástico, secas, desbotadas
pela luz que, nos campos, brinca com os rostos

e com a memória. Existem linhas traçadas entre
o céu e as cruzes ao longo das estradas, são elas
que seguram uma parte do mundo, só os pais são
capazes de as ver.

Agora, enquanto falamos de papagaios de papel,
elas estão lá, onde sempre estiveram.

As cruzes ao longo das estradas são diferentes
de nós porque se nós  somos o vento e passamos,
as cruzes ao longo das estradas também são o vento,
mas há muito tempo que conseguiram chegar lá.