Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 29 de dezembro de 2012

CANÇÃO DO EMIGRANTE

Partiste e quanto levaste
era um pedaço de pão
um braço para um guindaste
a fome do teu irmão
e a tristeza que deixaste
nas raízes do teu chão.
Partiste e quanto levaste
era apenas solidão.

E quando à estranja chegaste
chegou-te aquela opressão
de um fruto que não tem haste
de um braço que não tem mão
da noiva que tu deixaste
do teu quintal do teu cão
da vinha que tu plantaste
do gosto a broa do pão
do gado que tu guardaste
nos campos do coração.
Porém partindo lutaste
e soubeste dizer não.

Não ao grito que amordaça
a boca de quem tem fome
não aos ventos da desgraça
que varriam o teu nome
não ao patrão que ameaça
ao burguês que te consome
aos lavradores de má raça
latifundiários da fome
não àquela solidão
de tal maneira explorada
que até te negava o pão
na tua pátria exilada.

Partiste e então construíste
punho a punho braço a braço
outro país que resiste
nos teus músculos de aço.

Quando travavas lá fora
uma luta desigual
estavas onde a alma mora
construías Portugal

e mesmo nos piores dias
e nos momentos mais sós
com trabalho produzias
o oiro de todos nós

dos teus irmãos que ficaram
sujeitos à opressão
daqueles que suportaram
o reverso do teu não
daqueles que se calaram
por causa da repressão
e que em silêncio fizeram
a nossa revolução.

Quando travavas lá fora
uma luta desigual
estavas onde a alma mora
construías Portugal

Voltaste e agora encontraste
a tua Pátria de Abril
o país que tu sonhaste
já não é o teu redil
a tua casa é a tua
o teu trabalho é só teu
e se a luta continua
é porque o medo morreu.

Voltaste e quanto ganhaste
está ao serviço do povo
a luta que tu travaste
também faz Portugal novo.

Agora sim emigrante
o medo morreu de vez.
A partir do socialismo
és muito mais Português.

Autor: Ary dos Santos.

                                         Desenho de Vasco Barreto

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Unamuno

D.Miguel...
Fazia pombas brancas de papel
Que voavam da Ibéria ao fim do mundo...
Unamuno Terceiro!
(Foi o Cid o primeiro,
D.Quixote o segundo.)

Amante duma outra Dulcineia,
Ilusória, também
(Pátria, mãe,
Ideia
E namorada),
Era seu defensor quando ninguém
Lhe defendia a honra ameaçada!

Chamado pelo aceno da miragem,
Deixava o Escorial onde vivia,
E subia, subia,
A requestar na carne da paisagem
A alma que, zeloso, protegia.

Depois, correspondido,
Voltava à cela desse nosso lar
Por Filipe Segundo construído
Com granito da fé peninsular.

E falava com Deus em castelhano.
Contava-lhe a patética agonia
Dum espírito católico, romano,
Dentro dum corpo quente de heresia.

Até que a madrugada o acordava
Da noite tumular.
E lá ia de novo o cavaleiro andante
Desafiar
Cada torvo gigante
Que impedia o delírio de passar.

Unamuno terceiro!
Morreu louco.
O seu amor, por ser demais, foi pouco
Para rasgar o ventre da Donzela.
D.Miguel...
Fazia pombas brancas de papel,
E guardava a mais pura na lapela.

                                   Desenho a pastel seco - Vasco Barreto

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Naquela Praça

Hei-de encontrar-te ali
naquela praça que talvez já não exista.

Praça da palavra.
Praça da canção.
Praça de bandeiras a beijar
os primeiros odores da primavera.

Hei-de encontrar-te um dia
ao alto da cidade
partilhando pão
azeitonas
e poema.

Ali
naquela praça que talvez já não exista
hei-de encontrar-te um dia
e seguiremos
abraçando
as laranjeiras
desfraldando
uma vez mais
a nossa voz ao vento.

José Fanha in Poesia

                                             Desenho de Vasco Barreto

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As paredes daquela casa

As paredes daquela casa
guardavam-na e vestiam-na em longos momentos desabitados
Da janela contemplava o lado de fora, onde não pertencia
Tinha nascido no amanhã e todos aqueles que ali habitavam cabiam no agora
As suas horas eram barcos solitários que deslizavam no tempo
e escorriam pelos ombros cansados como flores de inverno
Apenas uma coisa a ligava além - o seu olhar

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Centro do Mundo - 16

Não leves nenhum desespero para casa.
Os que sofrem hoje
não são os que sofrerão amanhã.
Os que imploram hoje
não são os que implorarão amanhã.
A medida de todas as coisas
é como a mulher que chora no centro do mundo.
Chora para constatar que está viva.
Serve-te de um copo de leite.
Vê como é branco.
Constata como é puro.
Observa como só até um preciso momento
é útil e fruível,
Qualquer pergunta que possas fazer sobre ti
terá sempre uma única resposta
dentro de ti.
És como o leite,
puro e fruível
até ao preciso momento em que se ferve
ou azeda.

                                         Desenho de Vasco Barreto

domingo, 9 de dezembro de 2012

Sintra

                                            Pintura a acrílico

sábado, 8 de dezembro de 2012

Escrevo-te adeus mas não parto

Escrevo-te adeus
mas não parto.

Fecho as janelas,
abafo a luz,
acendo velas,
esqueço-te a voz.

Escrevo-te adeus
mas não parto.

Desligo o telefone,
corro, não paro,
fujo para longe,
parto de carro.

Grito-te - Adeus!
mas não parto.

Desligo os faróis,
mudo de rua,
fumo um cigarro,                                                                                 
deito-me nua.

Beijo-te.
Adeus,
...mas não parto.

(Desenho de Vasco Barreto)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

VIVER

- Viver!...
- Viver... - e Palpitar!...                                                                                                                         
- Ser!... . Amar!...
                             - Vencer!...
                                               - e Conquistar!...
- Viver!
             - Oh Fantasia!...
- Luz!... - Perfume!... - Canção!...
                                                      - d'Amor!...
                                                                         - Poesia!...
- Paixão e Glória!
                            - Embriaguez... - Folia!...
- Viver!... - Um Dia!...
- Viver... -
- Vencer...
- Amar...
                -Rosa da Vida... - Rosa da Alegria!...
- Flor da Vida e Paixão - Epurpur Rosa!...
- Deliciosa!...
           -Que É Como a Rosa...
                                     - Que Fenece um Dia!...
- Um Dia em Que Dormece Toda a Glória...
- Prazer ou Dor!...
- Ódio ou Amor!...
- Do Palpitar, da Vida Transitória!...
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Poema nº 31

Podes dizer que o mar é verde
como os prados daqueles países
ao norte nos bilhetes postais
que chegavam no dia dos teus anos
e tu miravas enquanto viajavas
de mansinho pelo corredor sombrio
com um sorriso guloso do chocolate do leite
das vaquinhas brancas pintalgadas de negro
a pintalgarem os tais prados daquele verde
que agora dizes ser a cor do mar.
Isso era no tempo dos teus anos verdes
esses sim verdes como os prados
que depois pisaste e já não tinhas
um sorriso guloso nem mesmo um sorriso
triste e os chocolates foram amargos
que tudo fica amargo se os postais
demoram e às vezes chegam e dizem -
nunca mais - e mesmo assim ao dizeres
prado dizes mar ou meu amor como
no tempo verde dos teus anos.

Licínia Quitério in "OS SÌTIOS"

Tela de George Dmitriev - pintor russo

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

DE QUE FALAMOS?

De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?

Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar

No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido

                                   Ana Hatherly - desenho a tinta da china

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

ALQUIMIA DO VERBO

agora fiquei triste, realmente
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e ainda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste álibi

Autor: Mário Cesariny

domingo, 25 de novembro de 2012

AOS QUE NUNCA SE CALARÃO


Sobre as terras lançaram, salgando
A semente, a promessa, o legado,
O que tantos lá foram plantando
No retorno do esforço gerado…
Sobre os mares foi lançado um feitiço,
Um conluio orquestrado e sem cura,
Que tornou impotente e submisso
Quem dele tira alimento e ventura…

Foram expulsos das velhas cidades,
Despojadas dos seus habitantes,
Os que irão espalhar sonho e saudades

Na procura de abrigo e salários
Noutras terras diferentes, distantes,
Tantos mil produtores, bons operários…

sábado, 24 de novembro de 2012

UMA CEREJEIRA EM FLOR

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

                           Eugénio de Andrade (Paixões - Vasco Barreto)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ARTE DE AMAR

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo e com alguém?
Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.
Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?


Olhos se fechem não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão

                                     Jorge de Sena( Vasco Barreto -tinta da china)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A ti regresso, mar...

A ti regresso mar, ao gosto forte
Do sal que o vento traz à minha boca,
À tua claridade, a esta sorte
Que me foi dada de esquecer a morte
Sabendo embora como a vida é pouca.

A ti regresso, mar, corpo deitado,
Ao teu poder de paz e tempestade,
Ao teu clamor de deus acorrentado,
De terra feminina rodeado,
Prisioneiro da própria liberdade.

A ti regresso, mar, como quem sabe
dessa tua lição tirar proveito.
E antes que esta vida se me acabe,
De toda a água que na terra cabe
Em vontade tornada, armado o peito.

José Saramago in Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Noé


Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
Pedro Tamen - Desenho a pastel(Vasco Barreto)
 

domingo, 4 de novembro de 2012

A Menina da Avenida

Nem a chuva nem a poluição
dos escapes dos automóveis

conseguiram ensombrar
o seu sorriso. Mostra os

seios tímidos onde nem as
pombas se atrevem a poisar.

                         Jorge Sousa Braga- Pastel óleo (Vasco Barreto)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sofia Ribeiro - Artista Plástica


Sofia Ribeiro é uma artista com uma inspiração visceral e uma dinâmica de realização tectónica. As suas obras refletem o lado mais oculto das sensações humanas. Talvez por isso, a presença constante da figura feminina. Por outro lado, vislumbra-se um movimento poético transversal em todo o seu trabalho, um movimento surrealista, que nos encaminha para a abstração, para o sonho. Uma personalidade forte, muito intimista, alguém que nos vai revelando aos poucos, um pouco de si mesma, sobretudo através da sua arte.
 
Fonte Magnética
 
Metáforas Poéticas

Portas do Infinito

Semblante de um País
 
                                                       Olhar Indiscreto

                                                       Inverso Rumo

                                                        Meias Palavras

                                                   Acústica da Voz

terça-feira, 23 de outubro de 2012

As Vozes

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

                                               Desenho de Vasco Barreto

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Estudos de William Beckman







Soneto à maneira de Camões

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

                                                Esboço de Vasco Barreto