Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ele:


Nascemos vindos do escuro
e ora de repente aqui voltámos
ao escuro onde de novo nos fazemos.
E assim se faz fértil o negro nada
pelo qual perpassamos para o dia
de não ser preciso procurar
a mão ignorada que estendemos
e estreitaríamos se fosse dado vê-la
aos olhos que um dia bem abertos
nos hão-de ver totais e acordados.

O pintor Henrique Pousão ( século XIX)











terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Poema satírico

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
( Digo, de moças mil) num só momento,
E sómente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O pintor Rafal Olbinski










Um dia não muito longe não muito perto


Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?



domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mãos frias coração quente


Mãos frias, coração quente!
Quantas vezes isto dizias
Com o teu ar sorridente,
Apertando-me as mãos frias...

Agora decerto o tenho
Num braseiro, num vulcão.
O frio é tanto, é tamanho
Que a pena cai-me da mão...

Q'ria dizer-te o que penso
E o que faço e premedito,
Mas posso lá ser extenso
com este frio maldito!

Tu perdoas certamente,
Tu não te zangas, pois não?
Mãos frias, coração quente
- Lá diz o velho rifão...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Nascimento


Nascem os homens como deuses pobres:
Nus e de um ventre que desesperou
De os guardar
Sagrados e secretos no seu lago.
Nascem disformes, sem nenhum afago
Da raiva desabrida que os expulsa
E das mãos aterradas que os recebem.
Bebem
O ar do mundo aos gritos.
Olham sem ver, e são
Surdos e transitórios mitos
Da nossa devoção.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Tempo


O tempo é o tempo é o tempo
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

a doença


o meu corpo parece um cão deitado.
às vezes penso que outro cão se aproxima de mim,
para me cheirar ou lamber,
mas nunca acontece.
às vezes são os homens que se aproximam.
são cinco e estão nus,
mas mal sentem o cheiro viram costas.
na pele, como se gravado a ferro em brasas,
um tem escrito o,
outro tem escrito meu,
outro temescrito corpo,
outro tem escrito no,
e outro tem escrito teu.
os cinco homens juntos formam
o meu corpo no teu.
mas de costas são apenas homens
sem qualquer serventia.
nem sequer me lambem como um cão vadio.
às vezes penso nas mulheres destes homens:
estão em casa, muito gordas, de avental,
com o jantar à espera.
penso no corpo delas, deformado,
a barriga acumulando-se sobre as coxas,
cheia de mamas.
os homens chegam a casa,
sentam-se a comer,
passam da mesa para o corpo,
sentam-se a comer.
imagino o que as mulheres lhes dizem:
aqui tens o teu jantar,
ao mesmo tempo que colocam
o prato
e o corpo
sobre a mesa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O incêndio desce

                              X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.
tatuada na testa.
Carlos de Oliveira in Entre duas Memórias

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ladainha

Teu coração dentro do meu descansa,
Teu coração, desde que lá entro:
E tem tão bom dormir essa criança!
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Dorme, menino! dorme, dorme, dorme!
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme,
Tu julgarás que se passou num ai.

Dorme, criança! dorme sossegada
Teus sonhos brancos ainda por abrir:
Depois a morte não te custa nada,
Porque a ela habituaste-te a dormir...

Dorme, meu anjo! (a noite é tão comprida!)
Que doces sonhos tu não hás-de ter!
Depois, com o hábito de os ter na vida,
Continuarás depois de falecer...

Dorme, meu filho! Cheio de sossego,
Esquece-te de tudo e até de mim!
Depois... de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho! e antes assim...

Dorme os teus sonhos, dorme, e não mos digas,
Dorme, filhinho, dorme «ó-ó...»
Dorme, minha alma canta-te cantigas,
Que ela é velhinha como a tua avó!

Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Autor: António Nobre

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

«Na sombra, que dizes?»


Na sombra, que dizes?
Brilham teus olhos tristes
húmidos de amor que procuras.
A boca entreaberta como a carne
que, fresca, estremece e aquece nos meus dedos.
Não digas nada, beija
o beijo que em meus lábios
te curva a cabeça sobre o ombro
como a cintura nos meus braços quebra.
Se me pertences, beija;
se não pertencerás mais do que agora,
beija.
Na sombra, que dizes?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012



há, no rosto da mulher,
um lago de água escura
com um poço de areia ao fundo.
diz o poema que,
quem beber desta água,
se perde no deserto.
a pele é um tecido fino sob os dedos.
as pessoas,
ao primeiro toque, dizem que é de seda,
mas não sabem que é ouro verdadeiro,
e vão de um beijo ao outro com muita pressa.
as pessoas não sabem quase nada.
e o poema cresce como um cabelo
na zona púbica.

(dedicado à maria quintans)