Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 31 de março de 2012

O Abcesso


fomos
uma geração
sacrificada
aos mitos e à tirania dos símbolos
          abcesso que a revolução
          e os próprios filhos
                   castraram
          culpando-a de todo o mal
          abandonaram-na depois em lado
          nenhum da vida
                    mas respeitavam-se os velhos
                    e as crianças não batiam
                              nos professores
                                                        ainda...


quinta-feira, 29 de março de 2012

Nuvens



Para descrever as nuvens
muito teria de apressar-me,
pois numa fracção de segundo
deixam de ser estas e começam a ser outras.

É sua propriedade
não se repetir
nas formas, tonalidades, poses e configurações.

Sem o peso de qualquer lembrança,
pairam sem dificuldade sobre os factos.

Mas nem testemunhá-los podem,
pois logo se dissipam em todas as direcções.

Comparada com as nuvens,
a vida afigura-se firme,
quase duradoura, eterna.

Perante as nuvens
até uma pedra parece nossa irmã,
na qual se confia,
mas elas, enfim, umas levianas primas afastadas.

As pessoas que existam, caso queiram,
e depois morram uma por uma,
as nuvens não têm nada a ver com
coisas
tão estranhas.

Sobre toda a tua vida
e sobre a minha, ainda não toda,
desfilam com pompa, como desfilavam.

Não têm obrigação de morrer connosco.
Não precisam do nosso olhar para navegar.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Descida aos Infernos -15



E embora
o teu ódio me degrede
a este inferno,
e me condene
a séculos de sede,
também te acuso, terra:

de sendo fogo
os não queimares,
de tendo vento
os não levares,
de trazeres sobre o dorso
o horror dos mares
onde eles se não somem;

de não soltares
a besta vingadora
no nosso orgulho de homens.


terça-feira, 27 de março de 2012

QUE MEDO FOI ESSE QUE SENTISTE?


E tu onde estavas quando se ouvia,
sob o eco da metralha, o sussurro das preces?
E tu onde estavas quando se dizia
que nunca a rendição
seria o fim de nada, nem sequer da morte?
E tu onde estavas quando já ninguém
sabia onde tu estavas?
Que guerra foi esta, tão medonha e tão igual
a outras guerras, destino brutalmente repetido?
Que nome quiseste dar
ao que sofremos, à míngua de outro nome?
Que medo foi esse que sentiste
quando, no silêncio das preces,
temeste deixar de ser eterno?
Quem te deu o direito de inventar a guerra
só para não sermos tantos a chamar por ti
quando já não temos por quem chamar?


segunda-feira, 26 de março de 2012


Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

domingo, 25 de março de 2012

acordar tarde


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia


sábado, 24 de março de 2012

A Pedra


No coração repousa a pedra.
Verte-se, em desusada cor, a nuvem que chega.
As chuvas batem no sono, agitadamente.
Não sei o que procuro entre as horas.
Um rosto perdido nas molduras do ar?
Os contornos são imprecisos quando a morte
fende o mármore.
Perguntam por mim os servos da terra.
Evocam-me os bosques, as suas lápides, e sou o
mineral fulminado,
a ruga profunda.
Na pedra repousa a dor.


sexta-feira, 23 de março de 2012

Partir!...


Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo

já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Históricas Ausências


Faltar-me-ias tanto. Muito e tanto
como tarde de súbito a fugir
em direcção à noite. Corte tão
cheio de pagens e papoulas,
de canela e marfim.

Tudo sem ti, porém. Tudo sem ti.
(E repetir o verso faz-me bem
- consolo de quem tem o que
não há, ou seja: tu). Faltas-me em
sobressalto e em granito de
estátua  que não está

                                e cujo corpo
                                nem sequer vi
                                nu

O pintor Domingos Silva











terça-feira, 20 de março de 2012

vinho do corpo


era bem mais fácil ser uma mulher, penso.
dar de mamar, cuidar da casa,
fazer os filhos um a um,
ter os espelhos resplandecentes,
o lustro das pratas bem puxado,
um mecanismo de limpeza que,
fora e dentro da casa,
no espaço oculto do silêncio,
assobiasse o lume sobre as coisas.
esta mulher, penso,
é a noite mais alta do mundo.
os homens, quando se pôem a caminho,
levam na erecção as mãos vazias,
e na boca enorme os olhos cegos do desejo,
loucamente entram nas chamas do corpo da mulher,
e ardem.

Os Dedos

Serenamente os dedos
sob os dedos

um fogo brando
nos seios da madrugada

se bebo o medo
do medo dos teus dedos
apago os lábios
nos lábios dessa água

Côncavo breve da palma
e logo os dedos
da tua mão fechada na cintura
depois descendo
crescendo e já fendendo
tocando enfim no topo da loucura

Punho da espada
ou pulso do teu braço

os dedos baixo
descobrindo o nada
enquanto eu monto renasço
e vou gemendo

subindo em mim
até de madrugada

segunda-feira, 19 de março de 2012

Saudade da Prosa



Poesia, saudade da prosa;
escrevia "tu", escrevia "rosa";
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?



domingo, 18 de março de 2012

Ao Crepúsculo


Sob uma galinha que cisca,
a paisagem desliza
para a nossa intimidade.
A planta envasada na varanda,
não excedendo em flores a sua época.
O jeito de desamparo da minha cabeça
equilibrada à janela,
como em Modigliani nas linhas do pescoço.
Tuas ancas - uma só forma
bivalve, deiscente.
E a quietude da aragem na área destes versos
que, sob as aparências,
te suga para os pés a roupa da cama.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O pintor António Dacosta










Março


tudo começou aqui
o silabar do esquecimento
os dias perdidos no passado
teu cabelo cheio destas mãos

a minha sede no teu corpo inclinado
como um copo entornando luz
nas tormentosas águas que hão-de-vir

quando nasceste
já o vento me impedia de dormir
e os meus mortos erravam pelos bosques

mas agora a redonda primavera
vem à minha alma tão seca
acordá-la
no seu leito de silêncio
e os meus olhos de pisadas folhas
são sombras a arder em crua luz


quinta-feira, 15 de março de 2012

Assim



Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento.
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes,
Assim desconhecer aonde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.