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Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 7 de março de 2012

Com António Ramos Rosa numa Tarde de Agosto


A poesia é obra da memória e do acaso
melodia que se solta da caruma de nada
da navegante pupila que amplia as horas
e dá a volta aos mundos da vertigem

Há vestígios do pão aberto na transparência
do sonho na grande tarde imóvel irrompendo
nas mãos que tacteando percorrem algumas paredes

Repentinos como o punho da intuição
os dedos palpam os limites do silêncio
os dissolvidos declives da voz
caindo ávidos na brisa do rosto

Nenhuma coisa é nossa, mas parece nossa
a tinta com que esfriamos a dor pensada sem urgência
de ser terra de lamento apenas gravitação
de sons na mesa rasa do olvido

Anula-se o deserto tal como se compõe a rosa
acelerando a marcha entre oásis
onde transfigurar a propícia ausência
rasga-se a bruma com a respiração do dia
com o verso que fulge na sucessão dos cantos

A poesia é o seu sino harmonioso
a retina do rumor
brancura atónita que ascende aos lábios
e que dentro de si o isola da solidão
sem vestígios dos dentes
ou do gume dos vidros estilhaçados
que a vontade segurava em sangue

Sono branco e aura feminina
papel faminto no limbo da miragem
como o rasto de um animal na lage fresca
abrindo caminho às palavras
Sôfrego e intenso fita o rio, a passacaglia dos cacilheiros
ou as pedras que o tempo arrefeceu no correr dos anos

Ouvi-lo falar baixo na alegria que o minuto alimenta
na roda da conversa com os amigos graves
ou com as aves que conserva na ruína do corpo
no paredão solar da lembrança, ouvi-lo
dá gosto de viver, solta o peso do diário esforço,
da marcha incaracterística
e acorda a sonora fundura da escrita do sol e do vento
que lhe ilumina os olhos

O modo de sermos cada instante é continuarmos a sê-lo
como se não se morresse na contínua avalanche
de uma roda de sons e o tempo trouxesse à dolência da alma
a dureza nobre da luz e fizesse transbordar o coração
na chuva das palavras que como secas pinhas
fossem caindo ao acaso na terra nocturna


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