Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 29 de maio de 2012

Voltas ao Campo

Voltas ao campo, à horta, ao tanque, aos animais,
como se alguma vez ali tivesses pertencido.
Dizes ruína, mas nunca conheceste a infância
das pedras e da cal e do carinho dos homens.
O cheiro dos coentros traz-te lembranças
das ervas que nunca pisaste que o teu lugar
sempre foi o casulo das cidades cansadas
onde deixaste os passos e as esperas.
O telhado está roto, dizes, mas nunca lhe
soubeste a inteireza com que afrontava
o vento e o orgulho com que estancava
a chuva. Agora tens a solidão nos olhos
e os braços vazios e a memória a pesar
nos ombros e na fala com que dizes voltar.
Perdeste o tempo e o lugar e o cantar
dos pássaros. Cidade foste tu e o teu modo
de abraçar o mundo. Só o amor te salvou
e te mostrou o caminho de volta. Esse que hoje
desbravas e constróis no abrigo das arcadas
protectoras do sol abrasador que te esperava.

Licínia Quitério in "Poemas do Tempo Breve"

             
Pintura de Edward Hooper

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O corpo é todas as coisas

O corpo é todas as coisas
menos a luz que resplandece do teu olhar
menos o azul

que não está nas coisas
nem no céu primaveril que se abre em rosa
nem nas águas cintilantes do oceano
nem nos teus olhos iluminados
pela pueril fragrância das glicínias

todas as coisas
são o universo inteiro que vai além
das coisas que vemos
suspensas nos pilares do tempo
ou as que não vemos
por estarem ocultas na ficção dos espelhos
sempre o corpo
será a perpetuação de todas as coisas
na brevidade dos instantes

menos o nada que nada é fora de si próprio

menos o absoluto
espaço desabitado para lá do portal dos deuses

menos o amor
sempre em viagem na errância do desejo

sempre o corpo será
todas as coisas ígneas a incendiar
a noite e o firmamento incerto

sempre as mãos semearão a pedra entre vagas luas
e os lábios sulcarão os regos do corpo entreaberto
com arados de sangue de saliva e de sémen

sempre o corpo aspirará a ser liberto das cisternas
do medo onde mergulha as raízes

todas as coisas nunca serão no corpo
todas as coisas na sua infinita falta de si mesmo.

Maria do Céu Brito in " Cem Poemas Portugueses no Feminino"


                                       Uma pintura de Henrique Pousão

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Não não foi egoísmo meu


Não não foi egoísmo meu

Não me atirei ao rio
Senhores

Foi antes o rio
Que num dia de desespero
Num dia como o de hoje
Ou talvez mais cinzento ainda
Se afogou em mim

Não não me atirei ao rio
Senhores

Tranquilizai-vos porém

O rio o vosso rio
Bebê-lo-ei todo é certo
Pois foi essa
A sua última vontade
Mas fá-lo-ei
Gota a gota gota a gota
Como quem
Voltou ao seio materno
E é de novo menino

Tranquilizai-vos pois
Senhores

Tendes tempo e de sobra
Para terminardes a regata

domingo, 20 de maio de 2012

Mãe


Se é triste não ter Mãe,
Não ter filhos é também,
Mãe, todos nós a temos,
Cegos,
Por vezes não a vemos.
Mãe que dá a vida,
Mãe que sofre,
Mãe que educa,
Mãe que exige,
Parecendo má, sem o ser,
Sofre sempre, até morrer.
Sofre as agruras da vida,
Sofre até pró filho ter.
Sofre para lhe dar a vida,
Sofre para o ver crescer.
Sofre quando o vê doente,
Sofre se o não vê comer.
Sofre se ele não estuda,
Sofre se ele é indulgente.
Sofre se não está contente,
Sofre se o vê triste,
Sofre se o amor não o assiste.
Sofre se o vê casar,
Sofre se o não vê estimar.
Sofre sempre pelos filhos,
Sofre sempre e tem cadilhos.
Mas ser Mãe, é mais que isto,
É também amar e dar,
É dar até o seu ser,
Dar sem nada receber.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo


Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.


                                        Tela de Domingos Silva.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Grécia à Frente



(Ao general Markos)


O povo grego não é um povo complacente
O fogo disparado sobre ele é-lhe vitória
Os mais pequenos entre eles são loucos
Por liberdade razão e sua força

Ao longo da grandeza humana têm mãos
Para oporem aos punhos pés contra as garras
À guerra opõem eles a mãe-justiça
E a necessidade os guia e os ensina

A Grécia é um país sem arroios para os ratos
Ali não tem a peste túmulos consagrados
Não faz medo viver não estende sombra a morte
Lutar pelo que é seu apaga o tempo-noite

Neste cume da terra no coração da luz
O povo todo unido abre uma porta imensa
Para a paz desarmada e é aí que sucubem
Os bárbaros aí que secará seu sangue

Na aragem do mar flor da fraternidade.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Nascente


Perene é o repouso da nascente
e a sua desordem voluptuosa.
Ela suscita as sensações suaves
que são, mais que verdade, simpatia.
As cálidas gargantas se refrescam
mesmo nas montanhas calcinadas.
Sem destino, num translúcido abandono
os pensamentos exalam-se no ar
e dele recebem os frutos nupciais.
A eternidade é um lábio aberto
que em suave abundância mata a sede
e faz do ser um frémito de volúpia
que acende a nostalgia e a consuma.


Pintura de Oliviero Masi

sexta-feira, 4 de maio de 2012

a proveniência da beleza entre as(m)águas


esta água que nasce no meu corpo
é a dos teus olhos, quando nasce o dia.
é uma água embriagada e embriagante,
com o cheiro de outra água distante,
o paladar da uva quando vinho branco,
o teu dom movente na face do encanto.
esta água que nasce nas palavras
e molha os teus lábios quando lês,
torna-se a água da própria língua,
inunda tudo, atravessa a página,
sou eu feita em água derramada.
é uma espécie de água potável,
pode ler-se, repara, tocar-se-lhe,
sermos-lhe a boca escorrível,
o umbigo materno aonde acolhe
o vício da culpa e da perfídia.


Pintura de Antónia Guerreiro - Ternura

terça-feira, 1 de maio de 2012

XXVIII


Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.

Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
«está a cair pão.»

Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
«Eh! pequena! Deita-te na rua
e abre a boca...»

(Dia em que urdo
este sonho absurdo.)

À memória de Catarina Eufémia


Podes mudar de nome, carrajola,
pôr umas asas brancas, arvorar
um ar contrito,
dizer que não, que não foi contigo,
disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,
podes mudar de nome, carrajola,
de aldeia, de vila ou de cidade
- és como um percevejo num lençol!

Quando tivermos Portugal nos braços
e pudermos amá-lo sem sofrer,
quando o Alentejo se puser a rir,
Catarina Eufémia, minha irmã,
então o teu filho há-de nascer!