Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Soneto XXIX

Vens da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terramoto
que quando até os seus deuses rolaram para a morte
nos deram a lição da vida na greda.

És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, amapola de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
cofre com lágrimas da nossa pobre infância.

Môça, conservaste o teu coração de pobre,
os teus pés de pobre acostumados às pedras,
a tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.

És do pobre Sul, de onde vem a minha alma:
no seu céu a tua mãe continua lavando roupa
com a minha mãe. Por isso te escolhi , companheira.


                          Acrílico e tinta da china sobre papel - Vasco Barreto

domingo, 22 de julho de 2012

a ira

eu digo: abre as pernas.
mas os meus lábios não se movem.
eu posso dizer: cospe um filho.
com a minha língua dentro da boca.
eu posso morrer num funeral, que é
uma morte natural, ou nem morrer.
eu posso escrever a ira a três mãos:
a mão do homem, a mão de deus, a
minha mão. posso escrever a paixão
a três mãos. fazer amor a três mãos.
eu volto a dizer: abre as pernas. e a
minha voz é só o movimento oblíquo
das palavras. mas se eu disser com a
mão do homem, com a mão de deus,
e com a minha mão, abres as pernas?


                                Desenho a tinta da china - Vasco Barreto

sábado, 21 de julho de 2012

Perspectiva

Olho a sebe de versos que plantei
Ao longo do caminho dos meus dias:
Tristezas e alegrias
Enlaçadas
Como irmãs vegetais.
Silvas e alecrim...
O pior e o melhor que havia em mim,
Num abraço de arbustos fraternais.

Nada quero mudar dessa harmonia
De agruras e doçuras misturadas.
Pasmo é de ver a estranha maravilha.
Poeta que partilha
O coração magoado
Por presentes e opostas emoções,
Contemplo, deslumbrado,
O renque de vivências do passado,
Longo poema sem contradições.

                                        Desenho: Vasco Barreto

O meu filho João

                                                Acrílico sobre madeira

sexta-feira, 20 de julho de 2012

a proveniência da beleza entre as (m)águas

o amor é o mamilo de deus
uma pedra fechada sobre uma lágrima, escura, percorrida,
um quisto com a espessura do inverno na vastidão da pele,
um beijo à espera que duas bocas se aproximem para sê-lo,
não se vê o princípio, não se vê o remate, só a dor caminha
este beijo, por entre os sinais que indiciam suas metástases.

o amor é de carne e de silêncio, gravita como um monstro,
aonde estava a calma ignorância, um coração puro, normal,
entra, invade, morde, espalha sua droga assassina, e mata.
o amor é a cura das doenças sem cura, ou em fase terminal,
o único reduto a que expiramos se nos cerca o fim da vida.

Tela de Montserrat Gudiol

quarta-feira, 18 de julho de 2012

maldição contra quem usa dinheiro para o amor

a empregada dos senhores tinha duas cabeças, uma para
se ocupar da cozinha, outra para se ocupar da educação da
menina. ao tempo em que a contrataram, pareceu-lhes bem
que assim fosse, mas logo se complicaram as coisas, se com
duas cabeças a empregada pensava em demasia e, com duas
mãos apenas, não atendia a tanta ideia. a menina, coitada,
ficava esquecida no canto do seu quarto, onde a humidade
a colhia, manchando-lhe a pele e abrindo-lhe lanhos nos
ossos. entretanto, os pais, zelosos, aumentavam o salário da
empregada, com a esperança bonita de a convencerem a um
maior esforço e, por isso, alcançarem um melhor resultado


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Pintura a acrílico sobre tela


Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

domingo, 15 de julho de 2012

Algures na Sierra Nevada

                                 Pintura a acrílico sobre tela.

Margens

Não correm veios de luz à minha inquietação.
O som, a mesa, e a página árida
sem eco me pesa.
Sei que na pura margem a mudez salta de vida
e cristaliza o grito no tempo;
sei quando atravesso a tua ponte
e bebo o esquecimento
das mágoas e da miséria do mundo;
sei que depois das nuvens e dos ventos
se esculpirem na palavra,
sombras alegres esvoaçam a paisagem;
sei que o cântico de rios e mares
bebe a solidão em desertos, montes e vales;
sei as águas que se orquestram
quando pelas pedras e grutas do destino passam.
Sei que na margem de cá
quando vestia bibes azuis
e me escorregavam rãs
na ribeira da minha infância,
toda a natureza sorria...
Não precisava de voar, fugir no pensamento,
a quebrar a dor
que a cegueira humana inventou.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

senhor da asma

deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se apercebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo das vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão

mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução

mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noialles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma

por hoje é tudo

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Quadras da Alma Dorida

Trago deus impresso em mim
no coração e nos rins
A mancha tem a altura
de quarenta quadratins

Estava num profundo êxtase
no seio da divindade
Tudo se esvai. Perdi o
bilhete de identidade

A vida dói. Nada resta.
E diz a alma dorida:
Não creio numa outra vida.
Havia eu de crer nesta?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Praia

Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

Sophia de Mello Breyner in " Mar"

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Nostalgia




O azul é mais azul em cascos
que abrem a madrugada
e no inquieto ressoar de chocalhos
o fiel rumor corre com a manada.

O mar distante espelha lugares
onde a idade pura caminhava
entre púrpuras alvoradas
e o verde vivo das algas.

Sem propósito penetrava
na solidão negra dos rochedos
e no rugir rebelde das águas.

Ouvia búzios do tempo
em seus gestos e segredos
na ondulação jovem das vagas.

Se saber guardava
a nostalgia que me fala,
e busco, agora, meu fulgor vivido
em memórias reunido,
despindo o passado breve e infante,
límpido e puro, docemente sentido.