Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Opus Affettuoso - 8

Eis um ombro um joelho um breve
            animal silencioso
            sob o meu olhar
  dunas de água que se movem
    com suas aves submersas
 ao cimo de metais subitamente
     alados desatados nas fontes
            do dia e já não sei
se sou eu quem te acende se és tu
                 quem respira
o mar vivo levitação músculo obscuro
                de quem não sabe
      se é folha ou chão boca saliva
     porque tudo em nós é luz líquida
     que não conhecemos saboreamos
                           apenas.

                                            Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Boletim meteorológico

Hoje, dia de me concretizar na corda tensa
Do animal com cio que resuma
A minha Eva quebrada ao espelho da evidência
De para além do espelho não haver Eva nenhuma;

Hoje, dia de escrever uma carta como um suicida
Que por sê-lo de facto nunca se chega a matar
E lê-la depois como uma novela muito aborrecida
Onde ninguém tem uma razão para se suicidar;

Hoje, dia de esclarecer este inútil mistério
Duma personalidade com a polícia à vista,
Deixando como um cartão-de-visita em qualquer ministério
A bomba da minha humanidade poética anarquista;

Hoje, dia da tua morte, sejas tu quem fores
Que morreste para que da guerra anónima que travámos
Ficasse como um arco-íris das nossas sete dores
Este poema, onda em que abraçados naufragámos;

Hoje, dia de Maria da Estrela ter toda a razão
quando me contava que havia uma ilha como um girassol
Que as feiticeiras faziam girar como um pião
Debaixo do mar em que eu me enrolava como num lençol;

Hoje, dia de vai haver a revolução
E todos em casa á espera da primeira granada
Que transforme este está para ser uma nação
No herói que não quer ser nação nem quer ser nada;

Hoje, dia de mudar de raça - trocar a branca pela violeta?
E sabendo o que sei de mim sendo de outra cor
Seres o príncipe que não importa de que planeta
Traz ao círculo da minha insónia a quadratura do teu amor.

                                        Esboço de Vasco Barreto

domingo, 16 de setembro de 2012

A Luz de Lisboa

A luz atravessa o quarto entre
as duas janelas, e é sempre a mesma luz, embora
de um lado seja o poente - onde está o sol, agora - e do outro
o nascente - onde o sol já esteve. No quarto
juntam-se poente e nascente, e é esta
luz que confunde o olhar, que não sabe em que
hora se situa a luz primeira. Então, olho a linha
que percorre o espaço entre as duas janelas,
como se não tivesse princípio nem fim; e
o que faço é puxar essa linha para dentro
do quarto, e enrolá-la, como se me
pudesse servir dela para atar as duas extremidades
do dia ao meio-dia, e deixar que o tempo fique
parado entre duas janelas, a poente
e a nascente, até que o fio se volte
a desenrolar, e tudo
recomece.

                                  Esboço de Vasco Barreto

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Limpar o pó

Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.

                                         Esboço de Vasco Barreto

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Falta de Reza

Por insuficiência de reza,
por falsidade de crença
meu anjo me culpou
e vaticinou eterna penitência.

Mas não ajoelho
nem peço desculpa.
Não quero um deus
que vigie os vivos
e peça contas aos mortos.

Um deus amigo
que me chame por tu
e que espere por mim
para um copo de riso e abraços:
esse é o deus que eu quero ter.

Um deus
que nem precise de existir.


                                  Esboço de Vasco Barreto

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Canção

A canção, expressão da melancolia, do amor, do entusiasmo, só morrerá se estes sentimentos morrerem; ela é, como o suspiro, como o grito, um dos movimentos naturais da alma.

Os tristes, os deserdados, os pobres, os oprimidos, quando tudo lhes falta, o pão, o lume, o vestido, têm sempre, no fundo da alma, uma cantiga pequena que os consola, que os aquece, que os alegra. É a última coisa que fica no pobre. E então a cantiga vale mais do que todos os poemas.

Citações e pensamentos de Eça de Queirós

                                        Esboço de Vasco Barreto

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Circo

Poeta não é gente, é bicho coiso
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas
Recordadas do circo que inventou.

Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.

Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.

José Saramago in Poemas PossíveisOs Poemas Possíveis"


                                    Esboço feito por Vasco Barreto

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Retrato à Luz da Tarde

Perna esquerda flectida e o
pé não visível apoiado na parede
do tanque estreito onde despejam água
duas fontes que brotam
das bocas de carrancas assim estás
segurando na mão direita uns óculos
escuros que se escapam de anulados
braços cruzados É de
tarde talvez
pois a luz já declina o seu desejo
de revelar os corpos
Este
prende-o ela ainda e fixa
desigualmente o rosto
batendo sobre o lado onde um dos
fios de água
se torna também ele mais audível

Gastão Cruz in " Rua de Portugal".