Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

DE QUE FALAMOS?

De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?

Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar

No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido

                                   Ana Hatherly - desenho a tinta da china

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

ALQUIMIA DO VERBO

agora fiquei triste, realmente
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e ainda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste álibi

Autor: Mário Cesariny

domingo, 25 de novembro de 2012

AOS QUE NUNCA SE CALARÃO


Sobre as terras lançaram, salgando
A semente, a promessa, o legado,
O que tantos lá foram plantando
No retorno do esforço gerado…
Sobre os mares foi lançado um feitiço,
Um conluio orquestrado e sem cura,
Que tornou impotente e submisso
Quem dele tira alimento e ventura…

Foram expulsos das velhas cidades,
Despojadas dos seus habitantes,
Os que irão espalhar sonho e saudades

Na procura de abrigo e salários
Noutras terras diferentes, distantes,
Tantos mil produtores, bons operários…

sábado, 24 de novembro de 2012

UMA CEREJEIRA EM FLOR

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

                           Eugénio de Andrade (Paixões - Vasco Barreto)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ARTE DE AMAR

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo e com alguém?
Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.
Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?


Olhos se fechem não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão

                                     Jorge de Sena( Vasco Barreto -tinta da china)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A ti regresso, mar...

A ti regresso mar, ao gosto forte
Do sal que o vento traz à minha boca,
À tua claridade, a esta sorte
Que me foi dada de esquecer a morte
Sabendo embora como a vida é pouca.

A ti regresso, mar, corpo deitado,
Ao teu poder de paz e tempestade,
Ao teu clamor de deus acorrentado,
De terra feminina rodeado,
Prisioneiro da própria liberdade.

A ti regresso, mar, como quem sabe
dessa tua lição tirar proveito.
E antes que esta vida se me acabe,
De toda a água que na terra cabe
Em vontade tornada, armado o peito.

José Saramago in Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Noé


Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
Pedro Tamen - Desenho a pastel(Vasco Barreto)
 

domingo, 4 de novembro de 2012

A Menina da Avenida

Nem a chuva nem a poluição
dos escapes dos automóveis

conseguiram ensombrar
o seu sorriso. Mostra os

seios tímidos onde nem as
pombas se atrevem a poisar.

                         Jorge Sousa Braga- Pastel óleo (Vasco Barreto)