Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 7 de dezembro de 2013

Sonhe

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela
só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer....

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que
aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das
pessoas que passam por suas vidas.


                                     Desenho de Vasco Barreto
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Espírito

Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorenta...s;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E eu vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntas: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Ouem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí me espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


                                      Desenho: Vasco Barreto


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

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Declaração

Teorias são brinquedos
Que, por mim, não tomo a sério.
Tomo a sério os meus enredos.
Crer... só sei crer no Mistério. ...
De doutrinas não me importo!
Sinto-me bem no mar alto.
Só me recolho ao meu porto.
Convidam-me, e sempre eu falto.
De escolas, não sou aluno.
Se comunico, é em verso.
Sou muito diverso,
E uno.


                                            Desenho: Vasco Barreto 

Poema das folhas secas de plátano

As folhas dos plátanos desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,
E os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro,
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, cicloides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada,
o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a musica outonal do entardecer.

São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram verdes e lisas no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiados ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura
vendo o solo coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

                                     Desenho: Vasco Barreto

sábado, 16 de novembro de 2013

As Palavras


As palavras, por vezes fazem a guerra.
As palavras, por vezes espetam-nos punhais.
Mas as palavras são só o corpo com que nos mostramos aos outros.
As palavras são códigos - não têm alma.
As palavras são a fome de ti, a ternura por ti, são tanta coisa. Sei lá.
Não tenho palavras.
As palavras só têm alma, nas palavras do poeta. Aí, sim.
Aí têm corpo e alma.
Têm vida!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

À Memória da Céu

Não preciso de menos que todos os meus amigos
mas dizem-me que a teus ouvidos já a voz não soa...
nem sabes já como neste mês de outubro
chega a ser agradável passear por lisboa

Não comes castanhas não sentes o frio
nem mais connosco te sentas à mesa
Qual é a tua nacionalidade
tu que antes eras portuguesa?

Cansaste-te e foste-te embora
não passarão por ti mais primaveras
fosses pra onde fosses foste decerto
para o país donde afinal eras

As coisas todas pouco mudaram
sabem-nos bem alguns bocados
e no entanto tudo mudou
já não nos sentimos por ti olhados

Falamos de ti no passado
como se tu estivesses morta
mas tu és tudo e tivesse eu casa
tu passarias à minha porta

Não preciso de menos que todos os meus amigos
não te vemos mas estás connosco
se não ao lado dentro de nós
no frio de março no calor de agosto

Nos dias de hoje ou nos tempos antigos
não preciso de menos que todos os meus amigos


                                    Desenho: Vasco Barreto

terça-feira, 29 de outubro de 2013

27 de Julho de 06

Onde o granito é próximo das aves
o frio é branco e incerto
como mendigo em busca de sol
para seu agasalho....

Da névoa sobre a serra
esculpimos a imagem,
o ritmo e a voz.
De pequeninas coisas
tua chama se alimenta,
e colhemos em nossas mãos
a luz do longe.
Às vezes, no silêncio do meu quarto,
tomas a forma de barco
e em mastro feito de coragem
atravessamos mares de medo
e vislumbres de esperança.
Na ingenuidade de meus olhos
a justiça sorri,
como se a paz viesse a florir
- no deserto dos homens.

                                    Aguarela: Vasco Barreto
 

sábado, 26 de outubro de 2013

carta para o meu marido

eu sou esta mulher a quem fizeram para amares.
lembro-me de ter sido feita em lisboa, num dia de setembro,
chovia tanto que a minha mãe ficou molhada por dentro,
com aquela água especial que vem da música,
e o meu pai terá deixado a roupa aos pés da cama,
cuidadosamente dobrada,
como se ao fazer-me pudesse escangalhar-se muito,
e terá perguntado, estás pronta?, e entrado.
por ser rigorosamente verdade,
e o meu corpo ser uma água de cheiros,
da minha pele costurada à tua,
e também tu teres sido feito para mim,
e também tu teres na roupa um código secreto,
que abres no acto do amor,
escrevo a dizer-te, estou pronta.

                                          Desenho: Vasco Barreto
 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

(para a mulher azul)

(para a Mulher Azul)

Desculpa desculpa
nem sei o teu nome
só olhei para ti deitada
na via do infante
quinze de agosto
mil novecentos e noventa e nove
olhei várias vezes sem perceber
olhei-te pois e estavas azul
sobretudo no rosto e nos pés
cuspida na valeta
(ó mãe os carros cospem?)
noutras circunstâncias diria olá!
agora assim azul e a pulsação quase nada
qual era a tua cor antes do azul?
se ainda receberes a tempo este telegrama
responde-me por favor
o apartado está no verso.

                                            Aguarela: Vasco Barreto

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sankarah

se olhando o céu
na cortina cinzenta de cada árvore
eu te pudesse alcançar,
cada sonho meu chamar-se-ia dia...

e eu de noite não mais
cerraria os olhos
nem saberia pedir a pálpebra alguma
que se deitasse noutra.
se num sopro astral -ou pequeno -
eu um salto desse,
tomaria por espada um destes galhos
e pediria à morte para matar o tempo
ao contrário.

e na bruma cinzenta de cada árvore
tu poderias -sorriso manso-
voltar a acontecer.

 
Desenho de Vasco Barreto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Que mulher é aquela lá longe

Que mulher é aquela lá longe
recortada entre a espuma e o areal
vestida de neblina
e com um colar de coral?
Uma ninfa deste século
numa pincelada de azul esbatido
ou a alegria dos meus olhos
num recorte de sonho fingido?
Agora que se aproxima
envolta em carne de desejo
só faltava que chegasse perto de mim
e me desse um beijo.

Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

(para o Ruy Belo)


 Não tenho meu poeta a tua praia da consolação
nem o chichi das tuas senhoras no meu mar
não tenho aliás nada de que me lembrar
nem sequer a morte à bogart sob o olhar da marilyn...
nada é tão apaziguador como uma morte
inventada às vezes a tua e a minha
nas praias sem consolação a norte a sul
a poente de um cabo raso
nascente.


 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As Pedras Pernoitam no Ser

As pedras pernoitam no ser, no pórtico
enegrecido, as uvas presas nas horas,
as cisternas do medo flutuam.
Já não existe esse mundo azul,
onde possas conservar os olhos puros.
As metáforas de ouro palpitam na chuva,
é certo,
ainda ascendes à solidão das árvores,...
ao queixume dos bosques.
Nos devaneios, em segredo, ainda respiras
o ébrio perfume das glicínias,
ainda colhes a última estrela
da diáfana aurora.
Dormes nos baixios de lava.
Desconheces a lógica dos astros,
pernoitas nos lugares negros.
Conheces o sol, o corpo,
as teias emaranhadas,
onde crepita a vida,

insólita quimera ardente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Amei-te com as palavras

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.

                                 Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Bordadeiras

                                    Desenho a lápis

Disse-te um dia

Disse-te um dia
... que havia de dar-te uma estrela

tão real como os sonhos
do rio Guadalquivir
e o perfume adolescente
do teu corpo
a ondular na aurora de Sevilha
Não foste comigo a Barcelona
ver as pesadas corolas e os mosaicos
de La Pedrera
mas espera-me no aeroporto
de nunca antes
o rumor febril dos teu olhos
onde aprendi
que o tempo não existe
Mas a vida pode ser
também mágoa escura
bem sabes Por isso te prendo
as mãos sobre as ancas
para não fugirmos mais um do outro
e bebo todo o sol e afinal o tempo
nos teus lábios.


                                  Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Mapas, Selos

Numa praia deserta, o crânio rebocado
pelos abutres arrasta pensamentos, pálpebras
pesadas.
Os ouriços do mar preenchem as suas órbitas
descarnadas.
Só os cadáveres inteiros são presa dos astros....
Aqui, os pedaços de cérebro despedaçaram-se,
há muito, nas falésias do sono.
Há muito, os pedaços de céu soçobraram,
despenhadas nas ondas.
Tudo se resgata, no entanto, nas fileiras
da noite.
O céu, o vinho e os abismos, os cedros negros,
as janelas circulares redundam,
e no rumor do cansaço, resgatando o vazio
interior, criando mapas, selos,
na vulva primordial dos corais de sangue
que urdem pérolas, peónias,
relógios lunares

na flor matinal da perfeição.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Esperança Enlaçava a Âncora

A esperança enlaçava a âncora
por sobre o banco de Antero...
Foi-se a idade da bala no céu da boca
(pois que outro céu havia?)
e a da morte acerca de cujos lances,
na guerra, os tabus são omissos:
como ir-se babando pelo chão
atrás de um olho seu.
Esperarei até que as unhas se encaracolem,
sem um corredor entre os cimos das árvores
nem outra evasão em que vogue,
que a Ursa Maior me fareje
da sua constelação, e se aproxime.

sábado, 7 de setembro de 2013

Notícia para colar na parede

Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares...

a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir cotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente

                                Desenho de Vasco Barreto
 

sábado, 31 de agosto de 2013

Colina

No alto da colina apenas a coluna
E a manhã decapita as cabeças da hidra
Mas vão todas gritando ao cair uma a uma
A dúvida ou a vida    A dúvida ou a vida

Se regressas ao ponto onde estava a coluna
vês somente no chão as cabeças da hidra
E decifras agora ao vê-las uma a uma
que a dúvida é a vida     A dúvida é a vida


          ECO DA ANTERIOR

Que dúvida    Que dívida      Que dádiva
Que duvidávida afinal a vida

                               Desenho de Vasco Barreto

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Paisagem

                            Foto da minha pintura a acrílico sobre tela.

domingo, 11 de agosto de 2013

Do livro: "um cão em cada dedo"

o meu medo é o deserto ser um livro,
o mundo todo ou só a minha casa ser um livro,
e eu ser um objecto imundo,
um adereço provisório do autor,
porventura uma gralha corrigida.
o meu medo é que uma palavra grande
faça sombra a uma palavra mais pequena,
como a violência doméstica,
que as tuas mãos,
unidas uma sobre a outra,
não saibam ler-se,
que um dia recebas
a notícia da tua morte.
o meu medo é o coração arder,
os homens comerem outros homens,
a carne ser uma terra boa para as plantas,
ter de ladrar para estar vivo.
o meu medo é ter de ladrar para estar vivo.
(Desenho de Vasco Barreto)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Madrugada

Acordei cedo, com o cantar dos pássaros
Que sobrevoavam a minha janela insistentemente
- Já vou! disse...
Penteei os cabelos desgrenhados do sonho na noite
Assomei-me ao parapeito e dei-lhes de beber nas minhas
mãos.

Os raios de sol aqueceram o meu corpo franzino
A aragem matinal fez-me uma carícia
Toquei as cores do dia, com os meus dedos.

Fechei a janela, guardei os sonhos numa caixinha
Estavam felizes, prometeram voltar ao cair da noite...
Tomei um duche perfumado e saí, nas asas dos pássaros.

domingo, 30 de junho de 2013

A Secreta Colina

Temos em comum
A respiração daquele lugar.
Um largo antigo, de sonho
Onde partilhámos silêncios,
Delírios, o lume do olhar.
Mudámos um pouco, aquele
Já não é o nosso lugar.
Cada um persegue agora
A música de outras pegadas.
Mas no fundo, é com ternura
Que voltamos, quando falamos,
À secreta colina. Onde dois
versos surgiam sempre
Ao virar da esquina...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nelson Mandela


 
                                         
Nascemos para manifestar
a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas
permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo,
nossa presença, automaticamente, libera os outros.

 
Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lamento

Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
...
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...

                                       Desenho de Vasco Barreto

terça-feira, 11 de junho de 2013

Crença

Acreditei que eras diferente,
que podias adormecer
sob o toque do meu olhar.
Construí miragens
para te poder sentir,
e deixei inacabado
o esboço do teu corpo.

acreditei num caminho
parco de luzes
em que as mãos presas nas mãos
sabiam o rumo no escuro das ruas.

A ti, entreguei-me devagar.

Em cada verso que fiz
vagueei dentro de mim,
procurei-te,
e escutei a tua voz
que queria voar
para longe dos meus olhos.

Acreditei que eras diferente,
agora...
Resta-me continuar a caminhar.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fogo das Florestas

Incendeio no fogo das florestas velhas
essas bocas apodrecidas
paridas pela morte
onde os desafectos incorporados
renascem súbito
e lhes cerram os olhos
nas lâminas queimadas das palavras...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Excertos de cartas dirigidas a familiares

    Ele é tão belo, o mar...
    E depois, quando em pequeno[,] quanta vez adormeci ouvindo o seu meigo cantar sonoro e brando.
  Quanta vez, à meia noute o seu rugir leonino, o seu ulular majestoso, titânico, de lutador enorme, quanta vez me acordou sobressaltado.
   Em casa tudo dormia, eu bem me lembro; as janelas batidas pelo vento rangiam nos caixilhos, e pela porta, que comunica com a cozinha, vinha uma lufada de ar frio, que parecia trespassar-me, fazendo estrondo incrível.
  Além pela janela que ficava meia aberta, para que a luz do dia nos advertisse da hora a que nos devíamos levantar, entrava de espaço a espaço a claridade sulfurosa, e azulada, de um relâmpago que iluminava sinistramente o quarto. Depois tudo era treva novamente.
   Além do canto do quarto escuro parecia-me que saíam fantasmas de formas horrendas e enormes, cuja cabeça de uma tez avermelhada escura, mais negra que o tijolo, onde sobressaíam dois olhos de um fulgor estranho e uma boca enorme, quase sem fundo com laivos de sangue e grandes dentes irregulares e amarelos, os cabelos empastados e hirsutos, cuja cabeça, digo, parecia erguer-se além do tecto...........................................................................................................................................................
...................................................................................................................................................................
    E o mar serenava por um instante e as sombras iam-se.
    E eu esperava ansioso que ao silêncio se seguisse o seu marulhar sinistro e angustioso, e n'estes momentos tão longos de ansiedade estremecia se o estalar da madeira, ressequida do ar do mar e novamente humedecida da tempestade, se fazia ouvir, ou se, algum prato mal seguro na prateleira, descaía, fazendo ouvir um rumor, quase imperceptível n'outra ocasião e medonho n'aquela.
    E desejava novamente o doido assobiar do vento e o cavo marulhar do mar.
....................................................................................................................................................................
    E ele vinha e com ele, novamente, os fantasmas. Eu tinha medo e gozava ao mesmo tempo...

domingo, 26 de maio de 2013


Da alegria e da tristeza
O sumo.
Da saudade o caroço
Levado pelo vento.

Da ilha
Apenas os corais
o sopro imenso.

De tudo o que não sei
Sou fruto por mim mesma proibido

Temporariamente resido
No Éden do poema
Controverso.

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ressonância e Dúvida

Jovem
vomita as traças evangélicas que te fizeram
engolir em pastilhas na catequese das dez
entre as ligas douradas e o corpete parisiense
de tua Mãe enquanto a dúvida te rasga a roupa,
te morde o sexo até o sangue escorrer na alma
e tu gritares a culpa de teres querido ser
um deus.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Nenhuma

De si tão esquecida
no murmúrio inexaurível
do alvoroço da brisa,
gazela do vazio,
de transparentes músculos
e de sonâmbulos raios.
Será uma figura
aquela que é nenhuma?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Com os mortos

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental
Desenho: Vasco Barreto.


terça-feira, 30 de abril de 2013

Ritmo de Pilão


Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encantadas...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros...

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo...
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes...)

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!
Bate, pilão, bate!...
 
                     Poema do poeta cabo-verdiano António Nunes             
         Vasco Barreto - pintura a acrílico sobre papel Canson (300g/m2)
 

sábado, 27 de abril de 2013

manhã

É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

José Mário Silva in Luz Indecisa

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Espiral

Entre as paredes brancas do meu quarto
No impoluto recanto que procuro
Morro no silêncio, neste beco fechado
Alienada do meu ser consternado.

Neste cansaço atroz, dispo-me de ser gente
da voz e do corpo, do rir e do choro
Despeço-me das madrugadas em que respiro
Da espera, do escuro e da luz.

Despeço-me de mim...

Do que vivi e não vivi
E neste olhar onde me fixo
Na intimidade do meu quarto
Rasuro-me de silêncio e parto...
Sem voltar, de onde nunca saí.

Fábrica da Pólvora

                                   Pintura a acrílico sobre papel Canson

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Poema do tio-avô materno

Num dia sufocante, de intensíssimo calor,
encontrei, ao regressar da escola,
um passarinho quase sem vida, caído na rua.

Levantei-o do chão perante olhares indiferentes,
aninhei-o nas mãos em concha,
e trouxe-o para casa.

Meti-lhe, pela goela, gotas de água com a pipeta de um frasco de remédio,
dirigi-lhe palavras carinhosas que ele pareceu entender,
e mal o achei melhor abri-lhe as mãos e dei-lhe a liberdade.

Todos me cumprimentaram pelo bondoso coração que assim revelei.
Todos cumprimentaram minha mãe pela boa educação que me soubera dar.
Todas as visitas me deram palmadinhas no rosto
e fui apontado, aos meninos maus das visitas,
como um exemplo edificante que todos deveriam seguir.

Eu sorria-me porque me lembrava de ter ouvido contar
que um tio-avô materno, que não cheguei a conhecer,
também um dia encontrara um passarinho caído na rua
e fizera o mesmo que eu fiz.

                                          Desenho de Vasco Barreto

domingo, 14 de abril de 2013

Certidão de Nascimento

Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.

Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na autoestrada e
que se despedem com a mesma sílaba.

O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.

Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.

Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.

O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.


                                 Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Estrela


Contigo chamo as rochas
e bebo luz em teus sinais.
No fundo dos meus olhos
já cintilam caminhos de estrelas
colhendo o tempo que passava
no terraço da minha aldeia.
A noite brilhava
como os frutos da tua árvore,
e eu criança brincava
em espaços que ao longe
as estrelas desenhavam.
Lembro a voz paterna me ter guiado
à estrela dos marinheiros.
Dizia: tens que unir os pontos
que formam uma cadeira no céu.
É deste passado que agora me falas,
mas o céu é outro e a estrela és Tu
que, em mim, fazes brilhar.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Caos no Deserto

Eis o eco da sociedade
No sabor amargo que, infelizmente, sentes…
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos urgentes…
Eis a fútil verborreia
Na demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.

E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.

Eis a dívida que pagas
De quem é culpado pela dor que predomina.
Na “off-shore” dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina…
Eis a crise da educação
Na ignorante nação que se corrói sem cessar.
Eis a vil plutocracia
Que matou o dia que a Liberdade soube legar…

E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.


                                               Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Fim de Tarde

Não agites o silêncio
não toques a limalha
da matéria luminosa
não ofendas essa longa
etérea rosa
que tacteia
o linho da toalha
ao fim do dia.

Exausta de alegria
a criança vem
derramando mil pedrinhas
borboletas
pétalas marinhas
sobre as pálpebras da mãe.

Não desvendes o mistério
desse redondo hemisfério
não inventes outro céu.

No novelo aconchegado
do centro do seu império
a criança adormeceu.

                                            Desenho de Vasco Barreto

quarta-feira, 27 de março de 2013

Linguagem do Invisível


São raros os momentos que matam a sede
e sabem evitar ainda diálogos irados de vento
e assim uma ponte apenas ponte
... só me lembra despedida e fico sempre comovida
por ficar deste lado indiferente ao tempo
e assim uma fonte apenas fonte
só me lembra palavras
e vêm os acessos de saudade
indiferente e fabulosa
e às vezes confundo tudo e choro
como se os olhos fossem duas granadas
que não se cansam de explodir sem direcção
sem intenção
mas com uma certeza
beijar o chão depois de o despir
 


quinta-feira, 21 de março de 2013

O teu sorriso

E se o céu fosse só isto...?

As nuvens dos teus lábios
O infindável azul da tua boca...

e eu feito ave louca
a sobrevoar-te num beijo
a embebedar-me de desejo
a morar no teu sorriso...

Ai, se o céu fosse só isto
e nada mais fosse preciso!

terça-feira, 19 de março de 2013

A Celebração do Corpo

Vamos,então,amanhã,
despir novamente o corpo
entraremos de bruços pela ternura
fingindo meter o silêncio dentro da boca.
Vamos dobrá-lo sozinho com a língua
e partir, depois,
para onde um Verão inventado
nos transforme.