Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Poema do fim do mundo

Na quase noite avulta a espuma branca
das vagas que o alcançam,
lavam-lhe os pés e cobrem por instantes
a faixa imensa das roladas pedras.
Sentem os pés a água, e compreendem-na.
Na alegria do encontro o corpo exalta-se
e num gozo frenético
desafia e defronta o chuveiro das vagas
que embatidas nas rochas o encharcam.

Que chatice, pá!

                                     Desenho de Vasco Barreto

sábado, 26 de janeiro de 2013

ENTRETANTO

Entre missas e mísseis teus irmãos
Entre medos e mitos teus amigos
Entretanto entre portas tu contigo
entretido a sonhar como eles vão

Entre que muros moram suas mãos
Entre que murtas montam seus abrigos
Entre quem possa ver deste postigo
entre que morros morrem de aflição

Entre murros enfrentam-se os mais tristes
Entre jogos ou danças proibidas
entre Deus e a droga os menos fortes

Entre todos e tu vê o que existe
Entreacto em comum somente a vida
Entre tímidas aspas já a morte

                                    Desenho de Vasco Barreto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O VIANDANTE

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
... Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.


                                            Desenho de Vasco Barreto
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tudo é acerca de escolhas!


Pois é! Nem mais. A vida não é senão aquilo que vamos construindo para nós próprios, a partir das escolhas que fazemos ou não fazemos. Tudo é afinal o produto dessa escolhas, dessas decisões que tomamos e com as quais temos de viver, quer queiramos, quer não. A vida não é fácil nem difícil; não é boa ou má; não é simples ou complicada. Não senhor. A vida não é nada porque não tem uma existência, independente de nós. Somos nós que lhe damos forma e conteúdo; somos nós que a criamos e a modificamos à medida das escolhas que fazemos. Escolhas que não são necessariamente boas ou más porque, na altura em que as reivindicamos, elas são apenas o que achamos ser a resposta adequada à nossa busca, o preenchimento certo dos nossos desejos, o culminar dos nossos sonhos ou simplesmente aquilo que nos parece mais eficaz, num dado momento.
Também, muitas vezes, são escolhas que nos sentimos forçados a seguir pelo sentido de moralidade, respeito pelos outros, altruísmo ou ainda por um sentimento de culpa e de responsabilidade que nos leva ao esquecimento das nossas volições e necessidades. Essas são as escolhas mais complicadas e difíceis de assumir porque não são de livre arbítrio ou assim julgamos. Como é possível uma escolha não ser de livre arbítrio? Se assim não fosse, deixaria de se chamar escolha e passaria a ser coacção. Somos nós que temos sempre o poder e o controlo nas nossas mãos, a não ser que as nossas liberdades sejam restringidas e as nossas vontades aniquiladas por forças externas e incontroláveis. Só assim ficaremos reduzidos a uma nulidade de iniciativa, à mercê de uma prepotência que nos tolhe a capacidade de decisão e nos tira a liberdade.
Mesmo assim, podemos escolher os pensamentos que melhor nos ajudarão a enfrentar tais ocorrências e, em certos casos, podemos ainda usar a expressão escrita para dar voz às escolhas que faríamos se pudéssemos tomar as rédeas do nosso trajecto.
Ainda mais importante são aquelas escolhas que fazemos quando somos confrontados com situações que abalam as nossas estruturas e nos mostram a fragilidade e mortalidade de que somos revestidos. Nessas alturas há que escolher, bem dentro de nós, a atitude mais positiva e que melhor servirá para encararmos o que quer que seja, sem nos sentirmos totalmente dominados e vitimizados, reduzidos à impotência e ao fatalismo.
Enquanto tivermos uma mente capaz de discernir e um espírito a animar-nos, as escolhas são nossas e a maneira como a nossa vida é vivida depende inteiramente de nós!
De nada nos servirá perguntar: Porquê eu? Porque é que isto me está a acontecer a mim?
Temos a tendência para esquecer que tudo está interligado e uma acção provoca sempre uma reacção ou reacções ainda que, muitas das vezes, não as compreendamos ou tenhamos relutância em as aceitar. Nada surge do nada. Tudo é o resultado de algo que activamos, num determinado momento das nossas vidas, segundo as escolhas que fizemos.
(Texto retirado do Blogue de Julieta Ferreira)

                                           Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dos Velhos Dias

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

... quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer     e o esquecimento     acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se    insidiosamente     pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos    e completamente
indefesos

um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

 
                                      Desenho de Vasco Barreto
 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A flor

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mai...s carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!    


                                        Desenho de Vasco Barreto

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

sida


aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz

arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
 junto ao coração

e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa

assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar
                                        Desenho do autor por Vasco Barreto

sábado, 5 de janeiro de 2013

Morte Pensada

Experimentei a Morte na cabeça
(No coração, só se ele parasse).
Mas, por mais que a conheça
Não se pensa a Morte: dá-se.
Que a Morte não é ser, sendo ela tudo,
Nem pessoa será, que tantas leva:
É um lá ou além, último som agudo
A que não chega a voz do vivo. Nem
Chove ou neva
Onde campa é a terra de ninguém.
Não morremos sequer: matamos a alma
Enternecida pelo corpo terno,
E ela lá vai, sua alma sua palma,
Que nem morre no Inferno.

Autor: Vitorino Nemésio
Desenho: Vasco Barreto.

                                       Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

um poema para uma fotografia

chama-se marília.
está de costas e não houve o que penso.
a esta distância, poderia matá-la.
o seu cabelo, diz-se,
é como as crinas de um cavalo em fuga.
encolhida como está, não o vejo.
digo o seu nome para que se volte,
a minha voz subindo de tom entre sílabas,
antecipando o voo circular de aves pretas,
a resolução do seu olhar para esta noite,
a definição geral da vida,
ou a explicação só deste momento,
mas não se volta.
descalça-se e começa a despir-se
mecanicamente,
concentrada na sua tarefa,
fria, profissional,
facilmente se vê que é competente,
indiferente a quem está atrás de si,
ou ao efeito da sua pele exposta,
como quem diz: beija-me,
ao mesmo tempo que diz: bate-me,
uma mulher pronta a usar,
que sabe ser observada e desejada,
molha os dedos num copo de água
para se humedecer e,
sempre de costas,
oferece-me as nádegas.

                                 Desenho de Vasco Barreto