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Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

FASCISMO

Quando os legionários se exercitavam na praça da aldeia,
com mausers de pau e baionetas de cozinha na ponta,
um tédio antigo fazia com que eu mergulhasse em livros
e ilustrações, procurando outros mundos. Detrás do muro,
vozes de comando podiam interromper a leitura; o que não
interrompiam era esse tédio que se prolongava para o dia
seguinte, quando o dia nascia igual ao dia de ontem, e
nada iria mudar no horizonte. É verdade que os pássaros
chegavam e partiam, em nuvem, no céu; e que as
árvores perdiam e ganhavam folhas, ano após ano, sem
que se desse por isso, como se o tempo passasse numa
rotina de estações que nos impunham com a mesma
autoridade com que os legionários marchavam, no adro,
pisando as pedras e o musgo. ""Mas quem nos impõe as
estações?", perguntei. E pus de parte o deus que o fazia,
como se punha de parte quem mandava marchar os
legionários que se exercitavam na praça da aldeia. "Quem
manda?", perguntavam eles. E eu respondia, em seu lugar:
"Deus!" - e punha deus fora da minha cabeça. Hoje,
já não há legionários na aldeia; e os pássaros chegam e
partem, como as árvores perdem e ganham folhas, sem
que se dê por isso. O que é igual é a ausência de deus
na minha cabeça, mesmo que ele por lá ande, numa
distracção do infinito, dando ordens aos pássaros, e
mudando a cor das árvores, em cada novo outono.

                                    Desenho de Vasco Barreto

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