Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 30 de abril de 2013

Ritmo de Pilão


Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encantadas...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros...

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo...
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes...)

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!
Bate, pilão, bate!...
 
                     Poema do poeta cabo-verdiano António Nunes             
         Vasco Barreto - pintura a acrílico sobre papel Canson (300g/m2)
 

sábado, 27 de abril de 2013

manhã

É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

José Mário Silva in Luz Indecisa

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Espiral

Entre as paredes brancas do meu quarto
No impoluto recanto que procuro
Morro no silêncio, neste beco fechado
Alienada do meu ser consternado.

Neste cansaço atroz, dispo-me de ser gente
da voz e do corpo, do rir e do choro
Despeço-me das madrugadas em que respiro
Da espera, do escuro e da luz.

Despeço-me de mim...

Do que vivi e não vivi
E neste olhar onde me fixo
Na intimidade do meu quarto
Rasuro-me de silêncio e parto...
Sem voltar, de onde nunca saí.

Fábrica da Pólvora

                                   Pintura a acrílico sobre papel Canson

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Poema do tio-avô materno

Num dia sufocante, de intensíssimo calor,
encontrei, ao regressar da escola,
um passarinho quase sem vida, caído na rua.

Levantei-o do chão perante olhares indiferentes,
aninhei-o nas mãos em concha,
e trouxe-o para casa.

Meti-lhe, pela goela, gotas de água com a pipeta de um frasco de remédio,
dirigi-lhe palavras carinhosas que ele pareceu entender,
e mal o achei melhor abri-lhe as mãos e dei-lhe a liberdade.

Todos me cumprimentaram pelo bondoso coração que assim revelei.
Todos cumprimentaram minha mãe pela boa educação que me soubera dar.
Todas as visitas me deram palmadinhas no rosto
e fui apontado, aos meninos maus das visitas,
como um exemplo edificante que todos deveriam seguir.

Eu sorria-me porque me lembrava de ter ouvido contar
que um tio-avô materno, que não cheguei a conhecer,
também um dia encontrara um passarinho caído na rua
e fizera o mesmo que eu fiz.

                                          Desenho de Vasco Barreto

domingo, 14 de abril de 2013

Certidão de Nascimento

Portugal, encho a boca com esta palavra, mastigo-a.
Preencho impressos com os números de uma data
em que tinha 3 quilos e 700 gramas.

Portugal é o nome de pessoas que telefonam umas
às outras, que se ultrapassam na autoestrada e
que se despedem com a mesma sílaba.

O dia em que nasci é a minha mãe com as pálpebras
desmaiadas sobre os olhos, a pensar em labirintos e
a tricotá-los no centro dos seus sonhos.

Portugal e o dia em que nasci misturam-se sem
perderem cor, são matérias complementares
na lamela de um microscópio.

Portugal e o dia em que nasci são irmãos gémeos,
vestidos de igual, que os parentes mais próximos
se entretêm a tentar distinguir.

O dia em que nasci é Portugal, um país completo,
mas Portugal é muito mais do que apenas um dia,
Portugal é o instante exacto em que nasci.


                                 Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Estrela


Contigo chamo as rochas
e bebo luz em teus sinais.
No fundo dos meus olhos
já cintilam caminhos de estrelas
colhendo o tempo que passava
no terraço da minha aldeia.
A noite brilhava
como os frutos da tua árvore,
e eu criança brincava
em espaços que ao longe
as estrelas desenhavam.
Lembro a voz paterna me ter guiado
à estrela dos marinheiros.
Dizia: tens que unir os pontos
que formam uma cadeira no céu.
É deste passado que agora me falas,
mas o céu é outro e a estrela és Tu
que, em mim, fazes brilhar.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Caos no Deserto

Eis o eco da sociedade
No sabor amargo que, infelizmente, sentes…
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos urgentes…
Eis a fútil verborreia
Na demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.

E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.

Eis a dívida que pagas
De quem é culpado pela dor que predomina.
Na “off-shore” dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina…
Eis a crise da educação
Na ignorante nação que se corrói sem cessar.
Eis a vil plutocracia
Que matou o dia que a Liberdade soube legar…

E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.


                                               Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Fim de Tarde

Não agites o silêncio
não toques a limalha
da matéria luminosa
não ofendas essa longa
etérea rosa
que tacteia
o linho da toalha
ao fim do dia.

Exausta de alegria
a criança vem
derramando mil pedrinhas
borboletas
pétalas marinhas
sobre as pálpebras da mãe.

Não desvendes o mistério
desse redondo hemisfério
não inventes outro céu.

No novelo aconchegado
do centro do seu império
a criança adormeceu.

                                            Desenho de Vasco Barreto