Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Excertos de cartas dirigidas a familiares

    Ele é tão belo, o mar...
    E depois, quando em pequeno[,] quanta vez adormeci ouvindo o seu meigo cantar sonoro e brando.
  Quanta vez, à meia noute o seu rugir leonino, o seu ulular majestoso, titânico, de lutador enorme, quanta vez me acordou sobressaltado.
   Em casa tudo dormia, eu bem me lembro; as janelas batidas pelo vento rangiam nos caixilhos, e pela porta, que comunica com a cozinha, vinha uma lufada de ar frio, que parecia trespassar-me, fazendo estrondo incrível.
  Além pela janela que ficava meia aberta, para que a luz do dia nos advertisse da hora a que nos devíamos levantar, entrava de espaço a espaço a claridade sulfurosa, e azulada, de um relâmpago que iluminava sinistramente o quarto. Depois tudo era treva novamente.
   Além do canto do quarto escuro parecia-me que saíam fantasmas de formas horrendas e enormes, cuja cabeça de uma tez avermelhada escura, mais negra que o tijolo, onde sobressaíam dois olhos de um fulgor estranho e uma boca enorme, quase sem fundo com laivos de sangue e grandes dentes irregulares e amarelos, os cabelos empastados e hirsutos, cuja cabeça, digo, parecia erguer-se além do tecto...........................................................................................................................................................
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    E o mar serenava por um instante e as sombras iam-se.
    E eu esperava ansioso que ao silêncio se seguisse o seu marulhar sinistro e angustioso, e n'estes momentos tão longos de ansiedade estremecia se o estalar da madeira, ressequida do ar do mar e novamente humedecida da tempestade, se fazia ouvir, ou se, algum prato mal seguro na prateleira, descaía, fazendo ouvir um rumor, quase imperceptível n'outra ocasião e medonho n'aquela.
    E desejava novamente o doido assobiar do vento e o cavo marulhar do mar.
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    E ele vinha e com ele, novamente, os fantasmas. Eu tinha medo e gozava ao mesmo tempo...

domingo, 26 de maio de 2013


Da alegria e da tristeza
O sumo.
Da saudade o caroço
Levado pelo vento.

Da ilha
Apenas os corais
o sopro imenso.

De tudo o que não sei
Sou fruto por mim mesma proibido

Temporariamente resido
No Éden do poema
Controverso.

 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ressonância e Dúvida

Jovem
vomita as traças evangélicas que te fizeram
engolir em pastilhas na catequese das dez
entre as ligas douradas e o corpete parisiense
de tua Mãe enquanto a dúvida te rasga a roupa,
te morde o sexo até o sangue escorrer na alma
e tu gritares a culpa de teres querido ser
um deus.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Nenhuma

De si tão esquecida
no murmúrio inexaurível
do alvoroço da brisa,
gazela do vazio,
de transparentes músculos
e de sonâmbulos raios.
Será uma figura
aquela que é nenhuma?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Com os mortos

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental
Desenho: Vasco Barreto.