Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 29 de outubro de 2013

27 de Julho de 06

Onde o granito é próximo das aves
o frio é branco e incerto
como mendigo em busca de sol
para seu agasalho....

Da névoa sobre a serra
esculpimos a imagem,
o ritmo e a voz.
De pequeninas coisas
tua chama se alimenta,
e colhemos em nossas mãos
a luz do longe.
Às vezes, no silêncio do meu quarto,
tomas a forma de barco
e em mastro feito de coragem
atravessamos mares de medo
e vislumbres de esperança.
Na ingenuidade de meus olhos
a justiça sorri,
como se a paz viesse a florir
- no deserto dos homens.

                                    Aguarela: Vasco Barreto
 

sábado, 26 de outubro de 2013

carta para o meu marido

eu sou esta mulher a quem fizeram para amares.
lembro-me de ter sido feita em lisboa, num dia de setembro,
chovia tanto que a minha mãe ficou molhada por dentro,
com aquela água especial que vem da música,
e o meu pai terá deixado a roupa aos pés da cama,
cuidadosamente dobrada,
como se ao fazer-me pudesse escangalhar-se muito,
e terá perguntado, estás pronta?, e entrado.
por ser rigorosamente verdade,
e o meu corpo ser uma água de cheiros,
da minha pele costurada à tua,
e também tu teres sido feito para mim,
e também tu teres na roupa um código secreto,
que abres no acto do amor,
escrevo a dizer-te, estou pronta.

                                          Desenho: Vasco Barreto
 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

(para a mulher azul)

(para a Mulher Azul)

Desculpa desculpa
nem sei o teu nome
só olhei para ti deitada
na via do infante
quinze de agosto
mil novecentos e noventa e nove
olhei várias vezes sem perceber
olhei-te pois e estavas azul
sobretudo no rosto e nos pés
cuspida na valeta
(ó mãe os carros cospem?)
noutras circunstâncias diria olá!
agora assim azul e a pulsação quase nada
qual era a tua cor antes do azul?
se ainda receberes a tempo este telegrama
responde-me por favor
o apartado está no verso.

                                            Aguarela: Vasco Barreto

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sankarah

se olhando o céu
na cortina cinzenta de cada árvore
eu te pudesse alcançar,
cada sonho meu chamar-se-ia dia...

e eu de noite não mais
cerraria os olhos
nem saberia pedir a pálpebra alguma
que se deitasse noutra.
se num sopro astral -ou pequeno -
eu um salto desse,
tomaria por espada um destes galhos
e pediria à morte para matar o tempo
ao contrário.

e na bruma cinzenta de cada árvore
tu poderias -sorriso manso-
voltar a acontecer.

 
Desenho de Vasco Barreto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Que mulher é aquela lá longe

Que mulher é aquela lá longe
recortada entre a espuma e o areal
vestida de neblina
e com um colar de coral?
Uma ninfa deste século
numa pincelada de azul esbatido
ou a alegria dos meus olhos
num recorte de sonho fingido?
Agora que se aproxima
envolta em carne de desejo
só faltava que chegasse perto de mim
e me desse um beijo.

Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

(para o Ruy Belo)


 Não tenho meu poeta a tua praia da consolação
nem o chichi das tuas senhoras no meu mar
não tenho aliás nada de que me lembrar
nem sequer a morte à bogart sob o olhar da marilyn...
nada é tão apaziguador como uma morte
inventada às vezes a tua e a minha
nas praias sem consolação a norte a sul
a poente de um cabo raso
nascente.


 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As Pedras Pernoitam no Ser

As pedras pernoitam no ser, no pórtico
enegrecido, as uvas presas nas horas,
as cisternas do medo flutuam.
Já não existe esse mundo azul,
onde possas conservar os olhos puros.
As metáforas de ouro palpitam na chuva,
é certo,
ainda ascendes à solidão das árvores,...
ao queixume dos bosques.
Nos devaneios, em segredo, ainda respiras
o ébrio perfume das glicínias,
ainda colhes a última estrela
da diáfana aurora.
Dormes nos baixios de lava.
Desconheces a lógica dos astros,
pernoitas nos lugares negros.
Conheces o sol, o corpo,
as teias emaranhadas,
onde crepita a vida,

insólita quimera ardente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Amei-te com as palavras

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.

                                 Desenho de Vasco Barreto

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Bordadeiras

                                    Desenho a lápis

Disse-te um dia

Disse-te um dia
... que havia de dar-te uma estrela

tão real como os sonhos
do rio Guadalquivir
e o perfume adolescente
do teu corpo
a ondular na aurora de Sevilha
Não foste comigo a Barcelona
ver as pesadas corolas e os mosaicos
de La Pedrera
mas espera-me no aeroporto
de nunca antes
o rumor febril dos teu olhos
onde aprendi
que o tempo não existe
Mas a vida pode ser
também mágoa escura
bem sabes Por isso te prendo
as mãos sobre as ancas
para não fugirmos mais um do outro
e bebo todo o sol e afinal o tempo
nos teus lábios.


                                  Desenho de Vasco Barreto