Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sonho na Mão

Sonambulismo

Tombam os dias inúteis:
amanhece, é tarde, anoitece.
Mas a nós que nos importa ...
ser manhã, meio dia ou noite?!...
Sonâmbula a vida decorre
- nas ruas, a paz larvar dos grandes cemitérios;
dentro de nós, cada um
apodrece.
Enchem-se de títulos vibrantes os jornais
- mas tudo é tão longe...
Passam homens por homens e não se conhecem:
Boa tarde! Bom dia!
Cada um fechado nas suas fronteiras,
os gestos vazios,
a vida sem sentido
- sonambulismo apenas.


Acorda!
Ainda que seja só para o sobressalto,
que as ilusões do sonho se desfaçam
e as esperanças morram todas nessa hora!

Acorda!
ainda que o caminho a percorrer te espante
e o peso da obra a realizar te esmague!

Ainda que acordar seja
morrer depois aos poucos, em cada momento,
dolorosamente

                                   Desenho de Vasco Barreto 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

Autor: Vasco Graça Moura

Desenho: Vasco Barreto

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

ARMÁRIO

O avô despencou do alto da escada aos
trambolhos.
Como um armário....
O armário quebrou três pernas.
O avô não teve nada.
Ué! armário não é só um termo de comparação?
Aqui em casa comparação também quebra perna.
O avô dementava as palavras.



                                    Desenho: Vasco Barreto

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

NOS SEIOS DA SERRA

O silêncio é de granito
e a melodia da chuva
repete-se inteira em vidraças....
Na solidão dos pinheiros
pingam cristais de orvalho
e no vento frio
meu olhar se aquece.
Na transparência das janelas
as nuvens passam
escurecendo a paisagem.
Das curvas ao longe
chegam ecos de criança,
vozes que desejam
a dança de plumas -
carícias que revestem de branco
os altos seios da serra.

Ilustração de Vasco Barreto

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

No dia em que a terra tremeu

No dia em que a terra tremeu
e se abateu feroz
sobre o mais pobre de todos os povos,
ouviram-se mil vozes em gritos violentos
e outras apenas a tecerem orações...
quase silenciosamente;
viram-se cidades devastadas,
aldeias destruídas,
cadáveres ensanguentados,
dedos fracturados implorando
aos deuses e à humanidade,
famintos, sequiosos,
massacrados, torturados
pela terra-mãe enlouquecida.
Dias depois, mais devagar,
a terra ainda estremecia,
e gemiam dolorosamente
mutilados, despojados,
desnutridos, desprotegidos,
rasgados, desesperados,
descrentes dos deuses
e dos homens.
Depois confluíram
humanos de todas as cores,
unidos na substância essencial,
um sopro gigante de emoções
carregadas de matéria visível:
mãos de cetim iniciando suturas e carícias
e distribuindo pão;
braços fortes removendo destroços,
descobrindo vida,
reconstruindo a cidade possível
sob o impiedoso
Sol africano.
E do meu pesadelo
de sol vermelho,
de mar e de morte,
sobrou uma criança
traída pela terra
e pelos homens
num grito de dor
que ainda ecoa no meu peito.

Poema retirado do livro " A Substância do Tempo"
Ilustração de Vasco Barreto.
 
 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Garça

A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O meu baú

O meu baú é só metade da saudade do que não escrevi
a outra metade é da dos despojos do que não sei
o meu baú envelhece e as traças alimentam-se
de metáforas ilusões novelos de vidas e de mortes
a senhora da limpeza areja-o de quando em vez
escova o pó das palavras de que mais gosta junta-as
numa caixinha que era da senhora sua mãe
para que quero eu tanto lixo
está sempre ela a perguntar-me
e eu não sei responder por isso não me zango com ela
um destes dias ofereço o baú à minha zeladora de palavras

                                         Ilustração: Vasco Barreto

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MAPA-MÚNDI

"Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros que li e amei.
Com um gesto de ave pouso a mão sobre o papel. E no interior da sombra da mão, começo a escrever: era uma vez..."
                             Desenho do autor por Vasco Barreto

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimónios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

O Homem Perfeito

O homem perfeito do pagão era a perfeição do homem que há; o homem perfeito do cristão a perfeição do homem que não há; o homem perfeito do budista a perfeição de não haver o homem.

A natureza é a diferença entre a alma e Deus.

Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos.

Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Desenho a tinta-da-china: Vasco Barreto

 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Estética da Abdicação

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O Império supremo é o... do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.

Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Caricatura: Vasco Barreto.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O sol fechou o dia

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou...
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.
 
                                   Desenho: Vasco Barreto

sábado, 30 de agosto de 2014

Música

Hoje acendeu-se uma viola
na noite do Xipamanine
E o segredar do vento às folhas
Fez-se gesto...
Uma pura viola de solidão de mágoa
de raiva transformada em alegria
os braços ondulavam
vestiam de música as paredes
caiadas de miséria

Era uma viola de lata e liberdade
uma viola de alma revoltada
os dedos tocavam-na
e era mágica

Noite no Xipamanine caniço e terra
e acendeu-se uma viola desesperada
entre a cacimba triste do silêncio

África cantava as lágrimas caíam
nascia a melodia necessária
sobre as cordas da angústia

Era uma viola que falava aos corpos
erguia o sonho na cidade proibida
e os homens dançando resistiam


                    Desenho do poeta feito num Tablet Samsung Galaxy Note 10.1

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O essencial

Tudo aquilo que é essencial na vida,
Não são mais que duas ou três experiências,
Companheiras de outras tantas vivências,
Que nós vivemos,
Ou deixamos por viver,
Quantas vezes, sem vermos
O essencial,
Mas que, depois...
Acabamos por recordar,
Como quem se recorda de si,
Como quem se recorda da recordação,
Como quem se recorda do essencial da vida,
Como quem se recorda apenas de algo,
Que entretanto já viveu ou morreu.

domingo, 4 de maio de 2014

Sem palavras

Brancas, suaves mãos de irmã
Que são mais doces que as das rainhas,
Hão de pousar em tuas mãos, as minhas

Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há de pousar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!...


                                           Desenho: Vasco Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2014

o suporte da música


O suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

Desenho de Vasco Barreto
  

sábado, 5 de abril de 2014

O Tempo e o Mar

Era um homem, a sombra de um homem e
caminhava para o mar.
Estas pegadas
são o obscuro rumor do tempo
e o tempo é uma vara oblíqua nas mãos de deus.
Que fará um homem com as dores do mundo,
com a última gota dos cálices ao lado da morte?
Reconstruir o rosto da amada,
dar vida à sua silenciosa vida?
Matar,
no súbito ardil do outono, os vestígios de uma
palavra secreta?
Há uma cidade profunda onde em profunda água
ela o esquece.
Quem para o mar caminha
leva consigo a maldição das ilhas como um
lírio quebrado, uma ânfora de pólen,
um adeus.


terça-feira, 1 de abril de 2014

ChEiRoS

Quanto tempo vive a morte?
Que pedaços faltam para que o mar acalme?
Quantos rios ainda?
Tudo permanece tão vivo...
Os papéis, os livros, as bonecas, as borrachas, fotografias,
discos, o casaco pendurado na cadeira...
E a janela não se abriu.
Porque tu, mãe, ainda cheiras por todo o lado.

terça-feira, 11 de março de 2014

Desenhos de Compositores - Arte Digital

                                                      Chopin
                                                      Beethoven
                                             Johann Strauss

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Canalha

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba...
de tudo sujo sem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
trata-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.


                                      Desenho de Vasco Barreto

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Balada para Jesse Owens

Em mil novecentos e trinta e seis
Hitler perdeu uma batalha.
Tinha aviões e tinha tanques
tinha um Estado e a Gestapo
só não tinha força para vencer
um negro chamado Jesse Owens.

Tinha SS para matar
tinha soldados para a guerra
e tinha botas para calcar
em toda a terra o pensamento.
Só não tinha ninguém para saltar
oito metros e seis em comprimento.

Tinha generais para mandar
e tinha generais para obedecer
tinha navios para conquistar
novos mercados novos mundos.
Só não tinha arianos para correr
cem metros em dez segundos.

                                     Desenho de Vasco Barreto

sábado, 11 de janeiro de 2014

Outro dia

Carta! és nobre.
És delicada,
cheia de agradecimento
e de serenidade....

Correcta,
com um estilo
de que se procure a chave...
Tal qual
como quem te escreve.

Elegante e particular...
Reflectida,
sensível e segura.

Vagamente triste...

Mar, lembrança, distância!
Nova vida,
velha vida...


                                       Desenho de Vasco Barreto