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Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

No dia em que a terra tremeu

No dia em que a terra tremeu
e se abateu feroz
sobre o mais pobre de todos os povos,
ouviram-se mil vozes em gritos violentos
e outras apenas a tecerem orações...
quase silenciosamente;
viram-se cidades devastadas,
aldeias destruídas,
cadáveres ensanguentados,
dedos fracturados implorando
aos deuses e à humanidade,
famintos, sequiosos,
massacrados, torturados
pela terra-mãe enlouquecida.
Dias depois, mais devagar,
a terra ainda estremecia,
e gemiam dolorosamente
mutilados, despojados,
desnutridos, desprotegidos,
rasgados, desesperados,
descrentes dos deuses
e dos homens.
Depois confluíram
humanos de todas as cores,
unidos na substância essencial,
um sopro gigante de emoções
carregadas de matéria visível:
mãos de cetim iniciando suturas e carícias
e distribuindo pão;
braços fortes removendo destroços,
descobrindo vida,
reconstruindo a cidade possível
sob o impiedoso
Sol africano.
E do meu pesadelo
de sol vermelho,
de mar e de morte,
sobrou uma criança
traída pela terra
e pelos homens
num grito de dor
que ainda ecoa no meu peito.

Poema retirado do livro " A Substância do Tempo"
Ilustração de Vasco Barreto.
 
 

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