Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sábado, 10 de outubro de 2015

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for
No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu

Ruy Belo in Homem de Palavra[s]
Desenho: Vasco Barreto.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Epigrama

Nariz,nariz, e nariz,
Nariz, que nunca se acaba,
Nariz, que se ele desaba
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra
Faria eclipse total!
Bocage
Desenho:Vasco Barreto.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Morro todos os dias um pouco mais

Morro todos os dias um pouco mais
naquilo que não escrevo.
Em nenhum teatro me quero representado,
que a minha máscara é a do tédio e da fadiga.
Estou cativo de um tempo alvoraçado
em que tudo é interrogação e dúvida

A descrença é uma música letal
que mata devagar sem que deixe
sinais visíveis, marcas de dedos
errantes sobre a carne.

Animal incolor e subterrâneo
é o que cresce à sombra dos dias
e grava na fala um silêncio
enleante e vagaroso.

José Jorge Letria in Poesia Escolhida
Edward Hooper - Excursion into philosophy


sexta-feira, 31 de julho de 2015

MASTURBAÇÃO I

Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar

e logo tornam onde nesse centro
os dedos esfregam   correm
e voltam sem cessar

e então são aí os meus
já os teus dedos

e são meus os dedos
já a tua boca

a ir sorvendo os lábios dessa boca
que manipulo   conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda planta em movimento
que trepa e fende fundidas já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo é esse movimento
em torno    em volta
no centro desses lábios

que a febre toma    engrossa
e vai cedendo, a pouco e pouco
nos dedos e na palma

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
Desenho: Vasco Barreto

sábado, 25 de julho de 2015

Dança

Põe a tua saia roxa, bailarina
E faz-te teatro!
Calça as botas e ajeita o xaile...
Puxa do cigarro
Abraça o olhar
Nos gestos mais precisos
E na voz rouca de tanta história...
Lança os teus passos no palco
Mesmo que tenham o peso das lágrimas...
Solta o teu calor
Mesmo que queime...
Apresenta a vida
Mesmo que em memórias...
Grita, se for preciso.
Vai, bailarina...
Dança!

Pedro Branco in Outras Escolhas
Desenho: Vasco Barreto.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

SENHOR PESSOA, CHEGÁMOS A CASCAIS

O senhor esguio, bem posto, de olhar ausente
atrás das lentes que vigiam o mundo
tem tantos nomes quantos...
os que um homem pode ter para se perder
naquilo que não pode ser. Rima imperfeita,
inacabada para falar do poeta
que viaja imóvel entre o cais de partir
e o de nunca chegar, contando gaivotas,
decifrando a cabala das nuvens
entre o Cais do Sodré e Cascais,
onde vai pagar uma contribuição
do patrão Vasques, de uma casa
que tem no Estoril. Chegámos, Senhor Pessoa,
já não há mais estações depois desta.
Qual das pessoas que tem Pessoa
acorda para responder ao revisor?
Uma hora para cá, outra para lá,
medindo com os olhos baços, turvos,
esquivos, a dolência atlântica, enganadora,
destas ondas encapeladas
pelo impulso do vento que vem do sul
quando o Outono dá o timbre
à melancolia da voz. Chegámos,
Senhor Pessoa, o mundo acaba aqui,
onde o mundo começa e não tem fim.
Sim, sim a Casa dos Condes de Castro
Guimarães é mais para cima,
para as bandas da Cidadela,
ali onde há magalas e homens tristes.


José Jorge Letria in poesia escolhida
Trabalho de colagem e pintura digital: Indio San

 

domingo, 19 de julho de 2015

Cinza, Claridade e Corpo

Do rosto ao traço a mão inquieta
Rumor de palavra liberta em murmúrio de luz.
Treva magoada. Ainda...

Subtis formas. Desvairadas. Danças multicores...
Insinuando-se em corpo vago sob os dedos
Imprecisos no interior do sopro alvoraçado...

Tudo se conjuga embora - linhas e cores!
E o olhar de fera! E as imprevisíveis asas:

Anjo da História!

O poeta tão por dentro é apenas testemunha.
O drama está além - na orla de nada!
Entre o ferventar de mosto e o chamamento de água
Granítico ainda. E inquieto lume que explode...

Talvez na fissura da pedra se erga a face dos homens.
E a flor dos lábios. E os braços líquidos. Generosos.
E os punhos. E rio de cores em que me afundo.

E o poema se faça absoluta claridade.
E os tempos Hora!

Manuel Veiga in Poemas Cativos
Desenho: Vasco Barreto.
 
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O pintor e arquitecto Nadir Afonso

                                                                   Cascais

                                                                Munique

                                                                Hong-Kong

                                                                  Esfinge

                                                                Cristalis

                                                                 Londres                                                    


sexta-feira, 10 de julho de 2015

JOANINHA

(A MAYER GARÇÂO)

Descanse de quando em quando...
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?...

Descanse de quando em quando...
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
- Não lhe faz bem, certamente.

Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos d'olho em si...

Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo d'ir pensando
Em casar. Não é assim?...
Se não lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.

Desde os começos do outono
Que eu trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que não...

Augusto Gil in Luar de Janeiro
Desenho: Vasco Barreto


segunda-feira, 6 de julho de 2015

E NA MANHÃ

e
na manhã despertada lavras

que lavrar   é cuidares da tua mulher
que o chão é uma rosa que trazes ao peito
é a maçã florida que saboreias

enquanto um rego
debicado pelos pássaros
névoa prateada
ninho de mistérios e revelações

fica atrás de ti

José Vultos Sequeira in Santo Ofício
Desenho: Vasco Barreto


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Beira-mar

À beira-mar,
mortos de cansaço,
os espíritos dos seixos afogam-se na crispação das ondas.

Nem sequer o mergulho feminil das sereias
faz crescer neles outros estímulos pétreos.
Nem mesmo o vento ligeiro
acariciando as ancas das falésias
trará à pele das águas
o olhar cândido guardado na vitrina da memória.

Resta-lhes as marés esgotadas de iodo
numa paisagem de céu e mar
de homens crescendo dentro dos corpos.

Fernando Lobo in A Justiça dos Equinócios
Pintura a acrílico sobre tela: Vasco Barreto.

terça-feira, 30 de junho de 2015

[DIZER-ME/ DE QUE LADO ESTÁ O VENTO]

Dizer-me
de que lado está o vento
no amargo sonho que me fará amanhecer em Ítaca
é a grande verdade do teu corpo.

Dizer-te
em ti navego
vencido pela inocência dos enigmas.

Marcelo Teixeira in Terna Ausência
Desenho: Vasco Barreto

sexta-feira, 26 de junho de 2015

a entrada da casa - IV

tombava a cabeça,
sentado, no vão da escada.
sonhava com casas
desenhadas a carvão,
com a praia da infância,
os retratos de família,
o quarto dos brinquedos.

é, agora, um homem feito e desfeito.
o passado encostado
num canto da memória.
os dedos que esqueceram o afago,
o corpo que esqueceu
o cheiro da roupa lavada.
o seu nome pronunciado com sílabas de cinza.

apoia-se nos degraus...

levanta-se. lentamente.
levanta o peso que os anos
ocupam no calendário.
procura, no chão, uma beata apagada.

Paulo Eduardo Campos in a casa dos archotes
Desenho: Vasco Barreto

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pássaros poetas

Ainda parece que foi ontem
Que ouvia o cantar melodioso dos pássaros
Nas tardes quentes de verão
Aqueles que se esgueiravam dos bandos
Onde cumpriam os seus rituais
E vinham, silenciosamente, pousar
Nas sombras frescas dos sobreiros solitários.

Os pássaros poetas...
Aqueles a quem o voo sabia a liberdade
Reuniam-se ali, todas as tardes
Onde orquestravam melodiosas sinfonias
Onde escreviam dos dias
Dos voos
Dos sentires
Naquele lugar de beleza ímpar
Onde a natureza se misturava
Com a sabedoria das aves.

Cecília Vilas Boas in O Eco do Silêncio
Desenho: Vasco Barreto.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Lembrando o dia de Camões

Soneto 133

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.
Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

Luís de Camões in Lírica
Desenho: Vasco Barreto.

domingo, 7 de junho de 2015

Um Dia


Em vez de almoçar - necessidade que tenho de fazer acontecer-me todos os dias - fui ver o Tejo, e voltei a vaguear pelas ruas sem mesmo supor que achei útil à alma vê-lo. Ainda assim...
Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!...
Criar ao menos um pessimismo novo, uma nova negação, para que tivéssemos a ilusão que de nós alguma coisa, ainda que para mal, ficava!

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego( Richard Zenith)
Desenho: Vasco Barreto.

terça-feira, 26 de maio de 2015

PRAÇA DO IMPÉRIO

Pertenço a um género de portugueses
que não ficou como Fernando Pessoa
desempregado. Estou sempre a descobrir...

a Índia. Às vezes deixo a caneta navegar
e quando dou por mim estou quase em Calicute.
Há palavras com Índia dentro.

E em certas letras e em certas sílabas
há caminhos marítimos nunca navegados.
Buscar a Índia é a profissão do poeta.

A escrita é essa navegação.
Por vezes as vogais são mais propícias
para os cabalistas elas são a música

mas é nas consoantes que se dobra o Cabo
e decisivamente se vira para o sul.
A Índia é um descobrir e nunca descobrir

mesmo quando se olha com Albuquerque
pela última vez as muralhas de Goa. Como ele
aqui desta praça olhando o rio

sem me dar conta eu estou a ir além
por esse mar oculto onde se chega
à Índia que se tem e não tem.

Manuel Alegre in Nada está Escrito.
Desenho: Vasco Barreto.

 

sábado, 23 de maio de 2015

Dois poetas, dois poemas e dois grandes amigos - Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro

Lisbon revisited (1923)

Não: Não disse nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências ( das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos.

O RECREIO
Na minha'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia,
( E já vai estando esgarçada),
era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda
seria grande estopada...

Se o indez morre deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca...Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro
Desenho: Vasco Barreto.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Que ideia horrenda te possui, Elmano?

Que ideia horrenda te possui, Elmano?
Que ardente frenesi teu peito inflama?
A razão te ilumine, apaga a chama,
Reprime a raiva do ciúme insano.

Esperanças consome, ou vive ufano,
Ah! Foge, ou cinge da vitória a rama;
Ama-te a bela Armia, ou te não ama,
Seus ais são da ternura, ou são do engano?

Se te ama, não consternem teus queixumes
Os olhos de que estás enfeitiçado,
Do puro céu de Amor benignos lumes:

Se outro na alma de Armia anda gravado,
Que fruto hás-de colher dos vãos ciúmes?
Ser odioso, além de desgraçado.

Bocage in Poesias
Desenho: Vasco Barreto.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

CINZA E CLARIDADE

Em cada instante um novo instante: suspensa ponte
Em cada espera. Como os braços de quem chama
E se confunde no eco e na margem...
Percorrida - ou em vão sonhada!...


Em cada fala a mesma fala
Nos soletrados passos da demora.
Como quem no regresso adiado se conforma.
Ou como estéril semente perdida na memória!...

Na contramão de cada passo: o desembaraço!
Pérfido engano de quem se guarda.
Breve laço. Fugídio
Que de tardio
Arde em girândola
Ou artifício...

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sita

estava sentado aberto a um poema
e apareceu a minha mãe.
eu apareci ao lado dela....
acho que foi com a minha mãe
que aprendi a olhar
o olhar dos velhos
as mãos bonitas dos velhos
os gestos dos velhos
dar beijinhos nas bochechas
das pessoas que chegavam
- foi a minha mãe.
bater à máquina e apreciar
o sino
no fim da frase,
poupar a fita, recuar a fita
bater as provas dela da quarta classe
gostar do cheiro da fita
construir textos na máquina-de-escrever
- foi ela.
tomar banho na praia com a mana tchi
sábado-fim-de-tarde
nus
- foi ela
[um dia vieram as alforrecas picar-me o corpo todo
incluindo o pirilau - dancei bungula!]
a respeitar os medos dela
e os meus
e os barulhos
e os sonhos
- foi a minha mãe que me ensinou.
a manejar a língua portuguesa
fazer redacções bonitas
- foi ela.
isso da simplicidade de dentro e de fora
ela me transmitiu
nas bordas do dia-a-dia.
o gosto do café encontrei na chávena dela;
whisky também.
só não aprecio o modo de ela devorar
cabeças e olhos de peixe.
antigamente como agora
autorizo qualquer bitacaia
a tentar residência nos meus pés
mas só quero a minha mãe
para fazer o despejo
[há qualquer coisa de ritual no episódio das bitacaias,
comichão e tintura d'iodo incluídas...]


uma tarde quis fazer um poema
para a minha mãe - e fiz.

agora só preciso de uma bitacaia
para celebrar o acontecimento.

Ondjaki in Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas
Desenho a tinta-da.china: Vasco Barreto.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pintura - Ana Negrão

                                      Deusa da Aurora ( Ostera)
                                             Melodia das flores
                                                    Suave poema
                                         Universo de palavras
                                             Ventos de mudança

terça-feira, 14 de abril de 2015

BALADA DO CAIXÃO

O meu vizinho é carpinteiro
Algibebe de Dona Morte.
Ponteia e cose, o dia inteiro,...
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)


Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

António Nobre in Só
Desenho: Vasco Barreto.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Jogo da Liberdade da Alma

" Há uma intimidade entre a memória do olhar e a memória da consciência.................quanto mais intimidade uma coisa ou obra tem, quanto mais a imagem que decai se lembra da explosão da luz
que a deu à consciência,
tanto mais age e menos perece e sofre."

Maria Gabriela Llansol in O Jogo da Liberdade da Alma.
Desenho: Vasco Barreto.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Nocturno

Jazem na jarra as flores....
........................................Outra insónia
desperta no meu peito nomes......formas
inquietação.....interrogados quês
à ilusão de solevar respostas
neste abafar e consumir as horas
que avançam e recuam
........................................lassas....ermas
de qualquer gesto que lhes vibre o espaço.

Porém na jarra ....alguma vida treme
e levemente surpreende as pétalas
quase vexadas no seu sono lento:

sozinha companheira de jornada,
alheia a pólen....encolhendo as asas
descansa...p'ra morrer....uma falena.

António Salvado in Flor Álea
Ilustração: Vasco Barreto.


terça-feira, 31 de março de 2015

Poema Prosa - XLIV

Por vezes ainda sinto saudades do tempo em que acreditava que irias entrar pela janela, com as mãos cheias de luar para mim. Mas nada mudando, este nosso desencontro embarga uma enorme tristeza: o meu olhar iria anunciar a tua dificuldade em viver perto do amor; sei que irias chorar para dentro. E eu, a querer bailar contigo, olhos nos olhos..., o coração a bater com o teu, iria chorar também e escondida, para não te entristecer ainda mais, com a desilusão que me darias.
Por vezes ainda tenho saudades do tempo em que entravas pela janela com as mãos cheias de luar para mim. Talvez te guarde assim, como quando me perco a contemplar a lua cheia e ela fica a brilhar no escuro dos olhos, quando eles se fecham, já longe.

Maria João Saraiva - "A Dor que me Deixaste"
Ilustração: Vasco Barreto.

domingo, 29 de março de 2015

É porque ninguém me ouve

É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe
que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo...
Se algum deus habita este vazio
é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca


Ergo como um insecto
as frágeis antenas para o espaço
Sinto a ébria lucidez
da minha liberdade
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente
porque reconheço
os anéis do silêncio o leque
de uma linguagem nova
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares
ou os seus lábios de noite
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra
e vejo as cintilantes arcas das constelações
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real

Ninguém me segreda os nomes que irei dizer
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana
Ninguém me impede que envolva num arco
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro
Ninguém me proíbe que me multiplique e me dilate
para ser cada vez mais a floração do espaço
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço

Desenho: Vasco Barreto

quinta-feira, 26 de março de 2015

Espera-me como se eu fosse um barco

Espera-me como se eu fosse um barco carregado de névoa
a dissolver horizontes.

O meu corpo é a gávea onde subiram marinheiros, buscadores
de outros céus, descrentes da terra e suas glórias.
...
Não me julgues de velas golpeadas nem de remos quebrados.

Basta-me o vento ou a calmaria.

Repara como envelhecem as traves da vigia.

Só eu não envelheço porque amarrei o tempo a uma escuna
e a mandei vogar sobre o nada a que tu chamas mar.

Eu sou a névoa, eu sou o barco, comigo ficarás.

Se de esperar te cansas, abre a janela e vem, voa, abre as
águas e adormece.

Licínia Quitério in O Livro dos Cansaços
Ilustração: Vasco Barreto.

 

quinta-feira, 19 de março de 2015

O último poema de Fernando Pessoa em português.

( 19 de Novembro de 1935.)

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras....
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa, é nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Desenho: Escultor Francisco Simões.

 

quarta-feira, 18 de março de 2015

O Segredo de Salvar-me

Quem há aí que possa o cálix
De meus lábios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poderá mudar as cenas
Que ninguém pôde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gota de água
Nesta angustiosa frágua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em vão.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz à infância ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

Mas estas palmas tais eram
Que, postas no coração,
Fundas raízes lançavam,
E nas lágrimas medravam
Com frutos de maldição.

Em ânsias de alma, a ventura
Nos dons da ciência busquei.
Tudo mentira! A ciência
Era um sinal de impotência
Da vã Razão que invoquei…

Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra caía,
Só ficava Deus e a fé.

Lancei-me aos braços do Eterno
Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dores,
Mais agros os dissabores…
O próprio Deus não me quis!

Depois, no mundo, cercado
Só de angustias, divaguei
De um abismo a outro abismo
Pedindo ao louco cinismo
O prazer que não achei.

Tristes correram meus anos
Na infância que em todos é
Bela de crenças e amores,
Terna de risos e flores
Santa de esperança e de fé.

Assim negra me era a vida
Quando, ó luz da alma, te vi
Baixar do céu, onde outrora
Te busquei, mão redentora,
Procurando amparo em ti.

Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéus
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um prémio vindo dos céus?

E eu mereço-te, que imenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação sofridas
Nos seios do coração.

Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delírio,
Nova dor, novo martírio,
De ti vindo, aceitarei!

Se na terra um céu desejas
Como o céu que eu tanto quis,
Se d’um anjo a glória queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.

Faz que eu veja nestas trevas
Um relâmpago de amor,
Que eu não morra sem que diga:
«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dor.

Deu-me ela o estro grande
Das memoráveis canções;
Acendeu-me a extinta chama
Da inspiração que inflama
Regelados corações.

Os segredos dos afectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-mos ela um dia
Que de entre arcanjos descia
Com linguagem do céu.

Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-mos, deu-mos ela
Recostando a fronte bela
Sobre o meu ardente seio.

Morta estava a fantasia
Que o gelo da alma esfriou;
Tinha o espírito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céu me a deparou.

Agora morro no gozo
De uma saudade imortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.

Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente e progressivo
Em perpétuo amor do céu».

Assim, querida, meus lábios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas
Do meu ao teu coração.

Sabes quem é, neste mundo,
Quase igual ao Redentor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ânsias da dor.»

                                    Desenho: Vasco Barreto

sábado, 14 de março de 2015

O ventre dos Grandes Porquês

E se fôssemos imortais e vivêssemos para sempre?...
A obrigação seria a de ser, estar aí no eterno ser
E na eternidade de existir, procurar saber
Da existência, as razões e os motivos
E da vida, as origens e os fins
O sentido do seu ser.
Imortais,
Viveríamos a eternidade da perene incapacidade,
A angústia eterna, o fracasso eterno.
Mas sendo eternos viajantes,
A morte é uma dádiva,
Um dom que desobriga, eternamente
À existência, um sentido, uma justificação
À metafísica, um buscar profundo, das explicações
À cosmogonia, um encontro, da origem e do lugar.
E ainda a morte, o ventre dos Grandes Porquês
Tu és a Mãe,
A sede eterna, de onde procuramos afastar
A nossa efemeridade,
Para existir,
A sede,
De onde brotam as nossas grandes interrogações,
Para que eternamente possa (re) nascer,
A nossa maneira de ser e viver.


terça-feira, 10 de março de 2015

Dactilografia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,...
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.


Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

  Ilustração: Vasco Barreto
 

quinta-feira, 5 de março de 2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

O primeiro poema de Fernando Pessoa

[O primeiro poema escrito( em inglês) por Fernando Pessoa em 12-05-1901.Traduzido por Luísa Freire]

Separado de ti, tesouro do meu coração,
Pela terra desprezado, alheio a todo o querer,
Ainda que os ventos trilem e os corações vacilem,...
jamais eu te hei-de esquecer.


Doce parece o suave canto da juventude
A quem se deixou prender,
Mas inda que os ventos trilem e os corações vacilem,
Eu jamais te hei-de esquecer.

Numa esfumada visão, acenando da escola,
Criança me posso ver,
E já os ventos trilaram e os corações vacilaram,
Mas não te pude esquecer.

Desde que primeiro eu vi a tua divina forma
Da escola vindo em prazer,
Os ventos têm trilado e os corações vacilado,
Nunca te pude esquecer.

Desde que simples, em mim, essa paixão infantil
Por ti eu deixei crescer,
Tenham os ventos trilado e os corações vacilado,
Eu não te pude esquecer.

Estrelas brilham intensas, a lua reflecte amor,
Sobre o mar luar a arder,
Ventos trilaram, trilaram, os corações vacilaram,
E tu me foste esquecer.

Eu separado de ti, tesouro do meu coração,
Pela terra desprezado, alheio a todo o querer,
Os ventos podem trilar e os corações vacilar,
Mas jamais te hei-de esquecer.

Retirado do livro: Fotobiografias Século XX
Imagem do Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, vestido de cavaleiro, em Durban.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

VEM COMIGO

Vem comigo. Eu ensino-te a ver o interior das
pedras. Fecha os olhos. Tacteia o fuste. Sente a fria
lisura na palma da tua mão. Abraça a coluna até...
onde chegar a vontade dos teus braços. Encosta o
ouvido como se faz a um búzio. Podes até pensar
que tens um corpo vivo ali ao teu dispor. Escuta o
bater do teu coração. Há muito o não ouvias, eu sei.
É preciso sonhar com o interior das pedras para
ouvir o relógio da vida. Aquieta-te. Não desvies o teu
pensamento do coração da pedra. Bate como o teu,
não é? Já não está fria a pedra. Podia bem ser um
corpo vivo. Há agora água dentro dos teus olhos.
Não tarda molhará a pedra e chorarão as duas. Não
mais dirás que és diferente da pedra. Depois farás o
mesmo com a árvore. Não mais dirás então que tu e
a árvore são diferentes. Farás o mesmo com uma
estrela quando ela cruzar o teu caminho.
Saberás que és igual à estrela. Estarás então pronta
para conhecer e amar o coração dos homens.


Ilustração: Vasco Barreto.