Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 31 de março de 2015

Poema Prosa - XLIV

Por vezes ainda sinto saudades do tempo em que acreditava que irias entrar pela janela, com as mãos cheias de luar para mim. Mas nada mudando, este nosso desencontro embarga uma enorme tristeza: o meu olhar iria anunciar a tua dificuldade em viver perto do amor; sei que irias chorar para dentro. E eu, a querer bailar contigo, olhos nos olhos..., o coração a bater com o teu, iria chorar também e escondida, para não te entristecer ainda mais, com a desilusão que me darias.
Por vezes ainda tenho saudades do tempo em que entravas pela janela com as mãos cheias de luar para mim. Talvez te guarde assim, como quando me perco a contemplar a lua cheia e ela fica a brilhar no escuro dos olhos, quando eles se fecham, já longe.

Maria João Saraiva - "A Dor que me Deixaste"
Ilustração: Vasco Barreto.

domingo, 29 de março de 2015

É porque ninguém me ouve

É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe
que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo...
Se algum deus habita este vazio
é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca


Ergo como um insecto
as frágeis antenas para o espaço
Sinto a ébria lucidez
da minha liberdade
Posso dizer tudo porque a leveza é transparente
porque reconheço
os anéis do silêncio o leque
de uma linguagem nova
Na minha garganta abriu-se o poço do oásis
e o vento da imaginação sublevou-se nas minhas veias
Sei que habito as palavras com os meus lábios solares
ou os seus lábios de noite
É por elas que sinto o sabor do pão e da terra
e vejo as cintilantes arcas das constelações
Tudo é puramente imaginado tudo é prodigiosamente real

Ninguém me segreda os nomes que irei dizer
com a limpidez do sal ou duros e negros como a obsidiana
Ninguém me impede que envolva num arco
a cruel doçura de um sexo vermelho e puro
Ninguém me proíbe que me multiplique e me dilate
para ser cada vez mais a floração do espaço
na sua liberdade de ser cada vez mais espaço

Desenho: Vasco Barreto

quinta-feira, 26 de março de 2015

Espera-me como se eu fosse um barco

Espera-me como se eu fosse um barco carregado de névoa
a dissolver horizontes.

O meu corpo é a gávea onde subiram marinheiros, buscadores
de outros céus, descrentes da terra e suas glórias.
...
Não me julgues de velas golpeadas nem de remos quebrados.

Basta-me o vento ou a calmaria.

Repara como envelhecem as traves da vigia.

Só eu não envelheço porque amarrei o tempo a uma escuna
e a mandei vogar sobre o nada a que tu chamas mar.

Eu sou a névoa, eu sou o barco, comigo ficarás.

Se de esperar te cansas, abre a janela e vem, voa, abre as
águas e adormece.

Licínia Quitério in O Livro dos Cansaços
Ilustração: Vasco Barreto.

 

quinta-feira, 19 de março de 2015

O último poema de Fernando Pessoa em português.

( 19 de Novembro de 1935.)

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras....
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa, é nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Desenho: Escultor Francisco Simões.

 

quarta-feira, 18 de março de 2015

O Segredo de Salvar-me

Quem há aí que possa o cálix
De meus lábios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poderá mudar as cenas
Que ninguém pôde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gota de água
Nesta angustiosa frágua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em vão.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz à infância ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

Mas estas palmas tais eram
Que, postas no coração,
Fundas raízes lançavam,
E nas lágrimas medravam
Com frutos de maldição.

Em ânsias de alma, a ventura
Nos dons da ciência busquei.
Tudo mentira! A ciência
Era um sinal de impotência
Da vã Razão que invoquei…

Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra caía,
Só ficava Deus e a fé.

Lancei-me aos braços do Eterno
Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dores,
Mais agros os dissabores…
O próprio Deus não me quis!

Depois, no mundo, cercado
Só de angustias, divaguei
De um abismo a outro abismo
Pedindo ao louco cinismo
O prazer que não achei.

Tristes correram meus anos
Na infância que em todos é
Bela de crenças e amores,
Terna de risos e flores
Santa de esperança e de fé.

Assim negra me era a vida
Quando, ó luz da alma, te vi
Baixar do céu, onde outrora
Te busquei, mão redentora,
Procurando amparo em ti.

Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéus
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um prémio vindo dos céus?

E eu mereço-te, que imenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação sofridas
Nos seios do coração.

Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delírio,
Nova dor, novo martírio,
De ti vindo, aceitarei!

Se na terra um céu desejas
Como o céu que eu tanto quis,
Se d’um anjo a glória queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.

Faz que eu veja nestas trevas
Um relâmpago de amor,
Que eu não morra sem que diga:
«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dor.

Deu-me ela o estro grande
Das memoráveis canções;
Acendeu-me a extinta chama
Da inspiração que inflama
Regelados corações.

Os segredos dos afectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-mos ela um dia
Que de entre arcanjos descia
Com linguagem do céu.

Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-mos, deu-mos ela
Recostando a fronte bela
Sobre o meu ardente seio.

Morta estava a fantasia
Que o gelo da alma esfriou;
Tinha o espírito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céu me a deparou.

Agora morro no gozo
De uma saudade imortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.

Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente e progressivo
Em perpétuo amor do céu».

Assim, querida, meus lábios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas
Do meu ao teu coração.

Sabes quem é, neste mundo,
Quase igual ao Redentor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ânsias da dor.»

                                    Desenho: Vasco Barreto

sábado, 14 de março de 2015

O ventre dos Grandes Porquês

E se fôssemos imortais e vivêssemos para sempre?...
A obrigação seria a de ser, estar aí no eterno ser
E na eternidade de existir, procurar saber
Da existência, as razões e os motivos
E da vida, as origens e os fins
O sentido do seu ser.
Imortais,
Viveríamos a eternidade da perene incapacidade,
A angústia eterna, o fracasso eterno.
Mas sendo eternos viajantes,
A morte é uma dádiva,
Um dom que desobriga, eternamente
À existência, um sentido, uma justificação
À metafísica, um buscar profundo, das explicações
À cosmogonia, um encontro, da origem e do lugar.
E ainda a morte, o ventre dos Grandes Porquês
Tu és a Mãe,
A sede eterna, de onde procuramos afastar
A nossa efemeridade,
Para existir,
A sede,
De onde brotam as nossas grandes interrogações,
Para que eternamente possa (re) nascer,
A nossa maneira de ser e viver.


terça-feira, 10 de março de 2015

Dactilografia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,...
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.


Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

  Ilustração: Vasco Barreto
 

quinta-feira, 5 de março de 2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

O primeiro poema de Fernando Pessoa

[O primeiro poema escrito( em inglês) por Fernando Pessoa em 12-05-1901.Traduzido por Luísa Freire]

Separado de ti, tesouro do meu coração,
Pela terra desprezado, alheio a todo o querer,
Ainda que os ventos trilem e os corações vacilem,...
jamais eu te hei-de esquecer.


Doce parece o suave canto da juventude
A quem se deixou prender,
Mas inda que os ventos trilem e os corações vacilem,
Eu jamais te hei-de esquecer.

Numa esfumada visão, acenando da escola,
Criança me posso ver,
E já os ventos trilaram e os corações vacilaram,
Mas não te pude esquecer.

Desde que primeiro eu vi a tua divina forma
Da escola vindo em prazer,
Os ventos têm trilado e os corações vacilado,
Nunca te pude esquecer.

Desde que simples, em mim, essa paixão infantil
Por ti eu deixei crescer,
Tenham os ventos trilado e os corações vacilado,
Eu não te pude esquecer.

Estrelas brilham intensas, a lua reflecte amor,
Sobre o mar luar a arder,
Ventos trilaram, trilaram, os corações vacilaram,
E tu me foste esquecer.

Eu separado de ti, tesouro do meu coração,
Pela terra desprezado, alheio a todo o querer,
Os ventos podem trilar e os corações vacilar,
Mas jamais te hei-de esquecer.

Retirado do livro: Fotobiografias Século XX
Imagem do Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, vestido de cavaleiro, em Durban.