Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 24 de abril de 2015

CINZA E CLARIDADE

Em cada instante um novo instante: suspensa ponte
Em cada espera. Como os braços de quem chama
E se confunde no eco e na margem...
Percorrida - ou em vão sonhada!...


Em cada fala a mesma fala
Nos soletrados passos da demora.
Como quem no regresso adiado se conforma.
Ou como estéril semente perdida na memória!...

Na contramão de cada passo: o desembaraço!
Pérfido engano de quem se guarda.
Breve laço. Fugídio
Que de tardio
Arde em girândola
Ou artifício...

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sita

estava sentado aberto a um poema
e apareceu a minha mãe.
eu apareci ao lado dela....
acho que foi com a minha mãe
que aprendi a olhar
o olhar dos velhos
as mãos bonitas dos velhos
os gestos dos velhos
dar beijinhos nas bochechas
das pessoas que chegavam
- foi a minha mãe.
bater à máquina e apreciar
o sino
no fim da frase,
poupar a fita, recuar a fita
bater as provas dela da quarta classe
gostar do cheiro da fita
construir textos na máquina-de-escrever
- foi ela.
tomar banho na praia com a mana tchi
sábado-fim-de-tarde
nus
- foi ela
[um dia vieram as alforrecas picar-me o corpo todo
incluindo o pirilau - dancei bungula!]
a respeitar os medos dela
e os meus
e os barulhos
e os sonhos
- foi a minha mãe que me ensinou.
a manejar a língua portuguesa
fazer redacções bonitas
- foi ela.
isso da simplicidade de dentro e de fora
ela me transmitiu
nas bordas do dia-a-dia.
o gosto do café encontrei na chávena dela;
whisky também.
só não aprecio o modo de ela devorar
cabeças e olhos de peixe.
antigamente como agora
autorizo qualquer bitacaia
a tentar residência nos meus pés
mas só quero a minha mãe
para fazer o despejo
[há qualquer coisa de ritual no episódio das bitacaias,
comichão e tintura d'iodo incluídas...]


uma tarde quis fazer um poema
para a minha mãe - e fiz.

agora só preciso de uma bitacaia
para celebrar o acontecimento.

Ondjaki in Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas
Desenho a tinta-da.china: Vasco Barreto.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pintura - Ana Negrão

                                      Deusa da Aurora ( Ostera)
                                             Melodia das flores
                                                    Suave poema
                                         Universo de palavras
                                             Ventos de mudança

terça-feira, 14 de abril de 2015

BALADA DO CAIXÃO

O meu vizinho é carpinteiro
Algibebe de Dona Morte.
Ponteia e cose, o dia inteiro,...
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)


Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

António Nobre in Só
Desenho: Vasco Barreto.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Jogo da Liberdade da Alma

" Há uma intimidade entre a memória do olhar e a memória da consciência.................quanto mais intimidade uma coisa ou obra tem, quanto mais a imagem que decai se lembra da explosão da luz
que a deu à consciência,
tanto mais age e menos perece e sofre."

Maria Gabriela Llansol in O Jogo da Liberdade da Alma.
Desenho: Vasco Barreto.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Nocturno

Jazem na jarra as flores....
........................................Outra insónia
desperta no meu peito nomes......formas
inquietação.....interrogados quês
à ilusão de solevar respostas
neste abafar e consumir as horas
que avançam e recuam
........................................lassas....ermas
de qualquer gesto que lhes vibre o espaço.

Porém na jarra ....alguma vida treme
e levemente surpreende as pétalas
quase vexadas no seu sono lento:

sozinha companheira de jornada,
alheia a pólen....encolhendo as asas
descansa...p'ra morrer....uma falena.

António Salvado in Flor Álea
Ilustração: Vasco Barreto.