Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sita

estava sentado aberto a um poema
e apareceu a minha mãe.
eu apareci ao lado dela....
acho que foi com a minha mãe
que aprendi a olhar
o olhar dos velhos
as mãos bonitas dos velhos
os gestos dos velhos
dar beijinhos nas bochechas
das pessoas que chegavam
- foi a minha mãe.
bater à máquina e apreciar
o sino
no fim da frase,
poupar a fita, recuar a fita
bater as provas dela da quarta classe
gostar do cheiro da fita
construir textos na máquina-de-escrever
- foi ela.
tomar banho na praia com a mana tchi
sábado-fim-de-tarde
nus
- foi ela
[um dia vieram as alforrecas picar-me o corpo todo
incluindo o pirilau - dancei bungula!]
a respeitar os medos dela
e os meus
e os barulhos
e os sonhos
- foi a minha mãe que me ensinou.
a manejar a língua portuguesa
fazer redacções bonitas
- foi ela.
isso da simplicidade de dentro e de fora
ela me transmitiu
nas bordas do dia-a-dia.
o gosto do café encontrei na chávena dela;
whisky também.
só não aprecio o modo de ela devorar
cabeças e olhos de peixe.
antigamente como agora
autorizo qualquer bitacaia
a tentar residência nos meus pés
mas só quero a minha mãe
para fazer o despejo
[há qualquer coisa de ritual no episódio das bitacaias,
comichão e tintura d'iodo incluídas...]


uma tarde quis fazer um poema
para a minha mãe - e fiz.

agora só preciso de uma bitacaia
para celebrar o acontecimento.

Ondjaki in Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas
Desenho a tinta-da.china: Vasco Barreto.

 

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