Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 26 de maio de 2015

PRAÇA DO IMPÉRIO

Pertenço a um género de portugueses
que não ficou como Fernando Pessoa
desempregado. Estou sempre a descobrir...

a Índia. Às vezes deixo a caneta navegar
e quando dou por mim estou quase em Calicute.
Há palavras com Índia dentro.

E em certas letras e em certas sílabas
há caminhos marítimos nunca navegados.
Buscar a Índia é a profissão do poeta.

A escrita é essa navegação.
Por vezes as vogais são mais propícias
para os cabalistas elas são a música

mas é nas consoantes que se dobra o Cabo
e decisivamente se vira para o sul.
A Índia é um descobrir e nunca descobrir

mesmo quando se olha com Albuquerque
pela última vez as muralhas de Goa. Como ele
aqui desta praça olhando o rio

sem me dar conta eu estou a ir além
por esse mar oculto onde se chega
à Índia que se tem e não tem.

Manuel Alegre in Nada está Escrito.
Desenho: Vasco Barreto.

 

sábado, 23 de maio de 2015

Dois poetas, dois poemas e dois grandes amigos - Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro

Lisbon revisited (1923)

Não: Não disse nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências ( das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos.

O RECREIO
Na minha'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia,
( E já vai estando esgarçada),
era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda
seria grande estopada...

Se o indez morre deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca...Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro
Desenho: Vasco Barreto.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Que ideia horrenda te possui, Elmano?

Que ideia horrenda te possui, Elmano?
Que ardente frenesi teu peito inflama?
A razão te ilumine, apaga a chama,
Reprime a raiva do ciúme insano.

Esperanças consome, ou vive ufano,
Ah! Foge, ou cinge da vitória a rama;
Ama-te a bela Armia, ou te não ama,
Seus ais são da ternura, ou são do engano?

Se te ama, não consternem teus queixumes
Os olhos de que estás enfeitiçado,
Do puro céu de Amor benignos lumes:

Se outro na alma de Armia anda gravado,
Que fruto hás-de colher dos vãos ciúmes?
Ser odioso, além de desgraçado.

Bocage in Poesias
Desenho: Vasco Barreto.