Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 30 de junho de 2015

[DIZER-ME/ DE QUE LADO ESTÁ O VENTO]

Dizer-me
de que lado está o vento
no amargo sonho que me fará amanhecer em Ítaca
é a grande verdade do teu corpo.

Dizer-te
em ti navego
vencido pela inocência dos enigmas.

Marcelo Teixeira in Terna Ausência
Desenho: Vasco Barreto

sexta-feira, 26 de junho de 2015

a entrada da casa - IV

tombava a cabeça,
sentado, no vão da escada.
sonhava com casas
desenhadas a carvão,
com a praia da infância,
os retratos de família,
o quarto dos brinquedos.

é, agora, um homem feito e desfeito.
o passado encostado
num canto da memória.
os dedos que esqueceram o afago,
o corpo que esqueceu
o cheiro da roupa lavada.
o seu nome pronunciado com sílabas de cinza.

apoia-se nos degraus...

levanta-se. lentamente.
levanta o peso que os anos
ocupam no calendário.
procura, no chão, uma beata apagada.

Paulo Eduardo Campos in a casa dos archotes
Desenho: Vasco Barreto

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pássaros poetas

Ainda parece que foi ontem
Que ouvia o cantar melodioso dos pássaros
Nas tardes quentes de verão
Aqueles que se esgueiravam dos bandos
Onde cumpriam os seus rituais
E vinham, silenciosamente, pousar
Nas sombras frescas dos sobreiros solitários.

Os pássaros poetas...
Aqueles a quem o voo sabia a liberdade
Reuniam-se ali, todas as tardes
Onde orquestravam melodiosas sinfonias
Onde escreviam dos dias
Dos voos
Dos sentires
Naquele lugar de beleza ímpar
Onde a natureza se misturava
Com a sabedoria das aves.

Cecília Vilas Boas in O Eco do Silêncio
Desenho: Vasco Barreto.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Lembrando o dia de Camões

Soneto 133

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.
Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

Luís de Camões in Lírica
Desenho: Vasco Barreto.

domingo, 7 de junho de 2015

Um Dia


Em vez de almoçar - necessidade que tenho de fazer acontecer-me todos os dias - fui ver o Tejo, e voltei a vaguear pelas ruas sem mesmo supor que achei útil à alma vê-lo. Ainda assim...
Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!...
Criar ao menos um pessimismo novo, uma nova negação, para que tivéssemos a ilusão que de nós alguma coisa, ainda que para mal, ficava!

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego( Richard Zenith)
Desenho: Vasco Barreto.