Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

sexta-feira, 31 de julho de 2015

MASTURBAÇÃO I

Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar

e logo tornam onde nesse centro
os dedos esfregam   correm
e voltam sem cessar

e então são aí os meus
já os teus dedos

e são meus os dedos
já a tua boca

a ir sorvendo os lábios dessa boca
que manipulo   conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda planta em movimento
que trepa e fende fundidas já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo é esse movimento
em torno    em volta
no centro desses lábios

que a febre toma    engrossa
e vai cedendo, a pouco e pouco
nos dedos e na palma

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
Desenho: Vasco Barreto

sábado, 25 de julho de 2015

Dança

Põe a tua saia roxa, bailarina
E faz-te teatro!
Calça as botas e ajeita o xaile...
Puxa do cigarro
Abraça o olhar
Nos gestos mais precisos
E na voz rouca de tanta história...
Lança os teus passos no palco
Mesmo que tenham o peso das lágrimas...
Solta o teu calor
Mesmo que queime...
Apresenta a vida
Mesmo que em memórias...
Grita, se for preciso.
Vai, bailarina...
Dança!

Pedro Branco in Outras Escolhas
Desenho: Vasco Barreto.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

SENHOR PESSOA, CHEGÁMOS A CASCAIS

O senhor esguio, bem posto, de olhar ausente
atrás das lentes que vigiam o mundo
tem tantos nomes quantos...
os que um homem pode ter para se perder
naquilo que não pode ser. Rima imperfeita,
inacabada para falar do poeta
que viaja imóvel entre o cais de partir
e o de nunca chegar, contando gaivotas,
decifrando a cabala das nuvens
entre o Cais do Sodré e Cascais,
onde vai pagar uma contribuição
do patrão Vasques, de uma casa
que tem no Estoril. Chegámos, Senhor Pessoa,
já não há mais estações depois desta.
Qual das pessoas que tem Pessoa
acorda para responder ao revisor?
Uma hora para cá, outra para lá,
medindo com os olhos baços, turvos,
esquivos, a dolência atlântica, enganadora,
destas ondas encapeladas
pelo impulso do vento que vem do sul
quando o Outono dá o timbre
à melancolia da voz. Chegámos,
Senhor Pessoa, o mundo acaba aqui,
onde o mundo começa e não tem fim.
Sim, sim a Casa dos Condes de Castro
Guimarães é mais para cima,
para as bandas da Cidadela,
ali onde há magalas e homens tristes.


José Jorge Letria in poesia escolhida
Trabalho de colagem e pintura digital: Indio San

 

domingo, 19 de julho de 2015

Cinza, Claridade e Corpo

Do rosto ao traço a mão inquieta
Rumor de palavra liberta em murmúrio de luz.
Treva magoada. Ainda...

Subtis formas. Desvairadas. Danças multicores...
Insinuando-se em corpo vago sob os dedos
Imprecisos no interior do sopro alvoraçado...

Tudo se conjuga embora - linhas e cores!
E o olhar de fera! E as imprevisíveis asas:

Anjo da História!

O poeta tão por dentro é apenas testemunha.
O drama está além - na orla de nada!
Entre o ferventar de mosto e o chamamento de água
Granítico ainda. E inquieto lume que explode...

Talvez na fissura da pedra se erga a face dos homens.
E a flor dos lábios. E os braços líquidos. Generosos.
E os punhos. E rio de cores em que me afundo.

E o poema se faça absoluta claridade.
E os tempos Hora!

Manuel Veiga in Poemas Cativos
Desenho: Vasco Barreto.
 
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O pintor e arquitecto Nadir Afonso

                                                                   Cascais

                                                                Munique

                                                                Hong-Kong

                                                                  Esfinge

                                                                Cristalis

                                                                 Londres                                                    


sexta-feira, 10 de julho de 2015

JOANINHA

(A MAYER GARÇÂO)

Descanse de quando em quando...
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?...

Descanse de quando em quando...
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
- Não lhe faz bem, certamente.

Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos d'olho em si...

Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo d'ir pensando
Em casar. Não é assim?...
Se não lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.

Desde os começos do outono
Que eu trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que não...

Augusto Gil in Luar de Janeiro
Desenho: Vasco Barreto


segunda-feira, 6 de julho de 2015

E NA MANHÃ

e
na manhã despertada lavras

que lavrar   é cuidares da tua mulher
que o chão é uma rosa que trazes ao peito
é a maçã florida que saboreias

enquanto um rego
debicado pelos pássaros
névoa prateada
ninho de mistérios e revelações

fica atrás de ti

José Vultos Sequeira in Santo Ofício
Desenho: Vasco Barreto


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Beira-mar

À beira-mar,
mortos de cansaço,
os espíritos dos seixos afogam-se na crispação das ondas.

Nem sequer o mergulho feminil das sereias
faz crescer neles outros estímulos pétreos.
Nem mesmo o vento ligeiro
acariciando as ancas das falésias
trará à pele das águas
o olhar cândido guardado na vitrina da memória.

Resta-lhes as marés esgotadas de iodo
numa paisagem de céu e mar
de homens crescendo dentro dos corpos.

Fernando Lobo in A Justiça dos Equinócios
Pintura a acrílico sobre tela: Vasco Barreto.