Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Natal

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.

Miguel Torga in Poesia Completa
Ilustração: Vasco Barreto.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Trajes típicos portugueses Série nº3 - Desenho digital

Pescador da Nazaré


Chapéu e capote Alentejano


Ceifeira do Alentejo


Traje da Nazaré


Traje da Madeira


Traje de Vendedora de Água(Aguadeira) da Gândara

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A Corrida

Era já madrugada e nós seguíamos
quilómetro a quilómetro a corrida
era já madrugada e nós corríamos
com aquele que levava ao peito as quinas
era já madrugada e nós não víamos
o loiro Menelau e as belas crinas
dos imbatíveis cavalos do Atrida.
Era só Carlos Lopes que nós víamos
e com ele ganhámos a corrida
aquela madrugada e toda a vida.

Manuel Alegre in Nada está escrito
Ilustração: Vasco Barreto.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto...A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
- Pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

( E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente...).

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história d'Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói da novela
Que autor nenhum empregou...).

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça.

                              Paris, Setembro de 1915

Mário de Sá-Carneiro in Poemas
Ilustração: Vasco Barreto.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A Vida Real

Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas duas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.

Manuel António Pina in Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança.
Ilustração: Vasco Barreto.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Ao mesmo tempo o voo

Ao mesmo tempo o voo
E o naufrágio.

O abraço e a porta
Que se encerra.

Ao mesmo tempo o pão
E a pá na terra

Amarga a felicidade
Sonho sim,
Sonho não.

Vastas e infinitas
As possibilidades
Se calarmos a mente
E estendermos a mão.

Isabel Fraga in A Música das Esperas
Ilustração: Vasco Barreto.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ando na rua

Ando na rua
E em cada ser que passa
Vejo uma forma física
De medo.

Medo com olhos claros
Medo com nariz, boca, queixo
Medo armado de braços
E de pernas.

Medo que se desloca
Devagar,
Em silêncio
Ou com uma torrente
De palavras usadas.

Medo que transporta no peito
Um coração prestes a rebentar.

Isabel Fraga in A Música das Esperas
Desenho: Vasco Barreto


terça-feira, 20 de setembro de 2016

A Rosa dos Ventos

E do amor gritou-se o escândalo
do medo criou-se o trágico
no rosto pintou-se o pálido
e não rolou uma lágrima
nem uma lástima
pra socorrer
E na gente deu o hábito
de caminhar pelas trevas
de murmurar entre as pregas
de tirar leite das pedras
de ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
amanheceu o espetáculo
como uma chuva de pétalas
como se o céu vendo as penas
morresse de pena
e chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
nem ousou conter nos lábios
o sorriso e a paixão


Pois transbordando de flores
a calma dos lagos zangou-se
a rosa-dos-ventos danou-se
o leito dos rios fartou-se
e inundou de água doce
a amargura do mar
Numa enchente amazônica
numa explosão atlântica
e a multidão vendo em pânico
e a multidão vendo atônita
ainda que tarde
o seu despertar

Letra: Chico Buarque de Hollanda
Desenho: Vasco Barreto.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Balada de Sempre

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer…
Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas…
Rasgarás nuvens de ruas densas.
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos…
- A tua alma não morre
Aos medos e às sombras! –
Mas…,
Enquanto deixo a janela aberta
Para entrares,
O mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada
Fernando Namora In Relevos
Desenho: Vasco Barreto.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Verão

Que sol tranquilo invade
as áleas do pomar...
                                 Os frutos dobram
a sua tumidez       a pele quase
a pretender quebrar mais se colora
e os raios entretêm madrigais
cantados p'la folhagem verdejante.
Voam insectos      calmos
com receio destempo de pousarem,
rodopiando também eles cantam
(intrusos que não foram convidados).
Como os frutos se of'recem no porvir!...
E o pomar jubilando de alegria.
António Salvado in Flor Álea
Desenho: Vasco Barreto.


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Charlot - Desenho a lápis

Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser.”  - Charles Chaplin


domingo, 3 de julho de 2016

Trajes típicos portugueses Série nº2 - Desenho digital

                                                  Pauliteiro de Miranda

                                                            Sargaceiro

                                                         Traje dos Açores

                                                         Traje dos Açores

sábado, 2 de julho de 2016

Na tua boca

Na tua boca cantou subitamente uma voz.
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível
ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.
Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;
e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras no meu decote.
São assim as mais pequenas histórias do mundo.
Maria do Rosário Pedreira in Poesia Reunida
Desenho: Vasco Barreto

quarta-feira, 29 de junho de 2016

NARCISO

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!
Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!
Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
... Lá no fundo do poço em que me espelho!
José Régio in Poesia I

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Trajes típicos portugueses Série nº1 - Desenho digital.

                                                         Campino - Ribatejo

                                                      Pastor Alentejano

                                                 Traje da Ponte da Barca

                                               Traje de ir à missa - Trás-os-Montes

                                                 Traje de Trás-os-Montes

                                                    Traje de Ponte de Lima

                                                   Traje de Viana do Castelo

                                       Traje entre Douro e Trás-os-Montes

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Aqui

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua
Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não p'lo meu rumor que só perdi,
Não p'los incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner in Cem Poemas de Sophia
Desenho a tinta-da-china: Vasco Barreto.