Informação


Este blogue foi criado há alguns anos para divulgar a poesia e as artes plásticas dos verdadeiros artistas...Por vezes, coloquei alguns humildes trabalhos meus, mas vou deixar de o fazer, e em defesa da coerência criei um outro blogue, com características pessoais, o qual vos convido desde já a darem uma olhadela em:

segunda-feira, 21 de março de 2016

O MENINO FERNANDO DESCOBRE A ARCA DO SR.PESSOA

Dum azul quieto era o mar. O rapazito vestia um
fatinho à marujo, estava sentado numa pedra com os pés
descalços metidos na areia.Gaivotas lançavam sombras
vertiginosas sobre as águas; havia búzios pela praia, e limos
secos, pedaços de concha, tábuas. Ao longe talvez se pudesse
imaginar um barco; ou melhor, uma vela enfunada que, a
pouco e pouco, se afogava na vibração quente do ar, e
desaparecia.
Levantou-se, foi pela praia, deixando atrás de si um
sulco de passos na areia molhada.
Esta era a praia que, um dia, o rapazito recordaria como
a da sua infância: sem mácula de lodo, sem sinais brancos de
ossos, sem poeira escura de pesadelos ou de naufrágios. E,
enquanto caminhava, pensou: <<aqui tão perto do rebentar
das ondas e não as ouço. Que mar é este?>>
Apanhou um búzio, e dentro dele apercebeu o marulhar
de outro mar, invisível, distante. Apurou o ouvido, e da
espiral secular do búzio soltaram-se nomes de oceanos...
Por fim, afastou o búzio da orelha e fitou o mar. Do
silêncio aparente das águas veio, então, uma voz. Olhou em
redor, assustado, e não viu ninguém. A voz vinha do fundo
do mar.
Aproximou-se da rebentação e esperou a sétima onda -
a maior, a mais formosa - aquela que se espraia com
estrondo e simultaneamente fecha e inicia o ciclo da
rebentação. Mal a onda começou a encolher, correu atrás
dela, pegou na bainha de espuma e, muito lentamente,
levantou-a como se fosse um simples pano.
Caminhou, ou viajou, pelo túnel que se abrira entre o
fundo arenoso do mar e o tecto de água formado pela onda
levantada. Atrás de si o mar ia-se fechando, silencioso.
Deve ter caminhado ou viajado muitas horas de sono,
ou apenas fingiu o sonho. Não sabemos ao certo quanto
tempo. O que sabemos é que foi dar a uma clareira de
espelhos no fundo do mar, onde se encontrava uma arca.
Abriu-a, e por entre inúmeros papéis escritos ( que ele
viria a escrever) encontrou uma fotografia. Era um retrato
seu, numa idade que não suspeitava ainda vir a ter. Retrato
amarelecido que alguém lhe haveria de tirar: com chapéu,
óculos arredondados, e toda a melancolia de um país no
olhar.
Al Berto in O Anjo Mudo
Desenho: Vasco Barreto.

domingo, 20 de março de 2016

casa

durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia
esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes - e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema
levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa - respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo
olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas - com o vento
que arrasta consigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos
Al Berto in Horto do Incêndio